(EM LONDRINA/PR)
A calmaria interiorana da cidade de Londrina (PR) foi abalada mais uma vez pelo festival Demo Sul. Nesta sétima edição, 26 bandas se apresentaram em três dias de festa na Chácara Lima e a diversidade foi dos pontos mais altos. Além de valorizar a cena local, composta por bandas novas e ainda sem grande espaço de divulgação, o Demo Sul serviu de palco para nomes consagrados do independente fazerem grandes shows.
Surpresas como New Ones, Droogies, Terra Celta e Vertix (bandas da região norte paranaense) deram o caráter demo ao evento, enquanto Charme Chulo, Trilöbit, Vanguart, Los Porongas, Móveis Coloniais de Acaju, Bang Bang Babies e Matanza seguraram a qualidade com apresentações ricas e experientes, para todos os gostos.
A terra vermelha, responsável por deixar os tênis encardidos, também serve para marcar território: o Demo Sul é caipira bruto com muito orgulho e se resguarda em qualidades como simplicidade, organização e um festival bonito de se presenciar. Aumentando o número de pagantes a cada ano, o evento promete ser ainda maior, melhor e, com a loucura climática, muito mais quente daqui para frente.
Enquanto aguardamos a próxima edição, acompanhe um pouco do que foi o Demo Sul 2007.
Sexta-feira, 16 de novembro
Depois de uma longa viagem e um tour por várias cidades que compõem o norte do Paraná, a primeira noite de Demo Sul prometia também o começo de uma viagem pelos novos sons produzidos na região. Com pouco mais de uma hora de atraso, quem deu início ao festival foram os locais The Wind. Banda nova ainda, um pouco virtuosa em excesso (influência do rock setentista) e de riffs hard/stoner não muito esclarecidos. Talvez um pouco inseguros, o power trio ainda precisa melhorar as técnicas e delinear melhor o som, escolhendo em qual praia deve tocar. Para matar a pau, a segunda banda já foi uma das grandes surpresas, com muita pegada, bem ensaiada e criativa sem cair na chatice do exótico mas com ótimas referências.
O New Ones (PR), quarteto que tem na formação Rodrigo Guedes (Grenade), esbanjou música de qualidade, com glam, punk e rockão da pesada a la Dead Boys. Entre homenagens sarcásticas à galera electro da cidade e refrões “oh no no” em três acordes, o grupo mostra desenvoltura dos integrantes, muito sex appeal por parte do vocalista Renato Genzale e um garage rock envenenado que culminou numa versão animal de “TV Eye”.
New Ones Ao Vivo no Demo Sul 2007
Para mudar de rumo e trazer um pouco de caos, o Espíritos Zombeteiros (PR), um dos mais caóticos e dissonantes grupos do país, destilou monstruosidade, esquizofrenia e epifanias rockeiras num show rasteiro de 30 minutos. Já o Charme Chulo (PR) e sua inacreditável mistura de sertanejo de raiz com rock inglês fez o público dançar o arrasta-pé em canções de seu primeiro álbum como na primeira, triunfal, “Mazzaropi Incriminado” e em “Polaca Azeda”, “Barretos” e “Piada Cruel”. Acompanhada de muitas palmas e guiada pelo som do pandeiro do vocalista Igor Filus, a apresentação ainda foi marcante com a presença da dupla sertaneja mais rock de Curitiba, o baixista Peter e Leandro Delmonico, violeiro e guitarrista. Qualquer semelhança com César Menotti & Fabiano não é mera coincidência.
Charme Chulo Ao Vivo no Demo Sul 2007
Supergalo (DF) e Droogies (PR) fizeram meio de campo antes do palco ser assolado por uma nação alienígena. O quinteto Trilöbit (PR) e suas trilhas sonoras para videogame fizeram mais um show bonitão, cheio de efeitos e macaquices. Tendo à frente a guitarra de duas cordas de Nosferatus, o apebass swingado de General Urko e a violência de Mizón na outra guitarra (esta de seis cordas), mais o punch eletrônico do gigante Moröder e a batera carregada de Animau Gonzáles, o cyber-punk teve seu espaço preenchido com disco rock e muito caos eletrônico em faixas como “Futebol”, “Sexy Groove Machine” e outras.
Trilöbit Ao Vivo no Demo Sul 2007
Já o Vanguart (MT) e seu folk consagrado em todo o país marcou no currículo mais uma participação em festival independente. O set feito à luz do primeiro disco agradou geral e saciou a vontade de ter o grupo cuiabano em terra londrinense. “Cachaça”, numa versão mais acelerada animou de primeira o clima que continuaria vibrando com “Miss Universe”, “Just to See”, “Hey Yo Silver”, “Into the Ice” e, uma das melhores composições do grupo, “Para Abrir os Olhos”, emendada no clímax de “Semáforo”. Nada de novo, mas um belo show que o Vanguart sabe fazer como poucos.
Escalado como headliner, Edgard Scandurra (SP) em seu projeto mais eletrônico Benzina, deixou morno o clima que estava quente em animação e deixou a ver navios quem esperava um bom show para fechar a primeira noite.
Sábado, 17 de novembro
Se formos medir a qualidade dos festivais logo nos primeiros shows, o Demo Sul fez bonito com o inacreditável Terra Celta (PR) dando o primeiro pontapé da segunda noite. Surpreendidos pela mistura de psychobilly, sanfona e nuances de música celta, irlandesa e valsa, os desavisados que não conheciam o grupo ficaram de cara. Os seis integrantes que ocuparam o palco, devidamente caracterizados em kilts e roupas medievais, esbaldaram energia e sincronismo em improváveis combinações musicais ecléticas sincronizadas com identidade visual e “drinking songs”, perfeitas para o clima pub-infernal, uma das propostas do grupo.
Assim como em 2006, o Demo Sul recebeu uma atração argentina. Muito diferente do Led Zeppelin hemano Vudú que se apresentou no ano passado (leia aqui a cobertura), o quarteto Clavadistas mostrou outras referências, influenciadas pelo som siderado, de muitas texturas e timbres bem tallhados. Baixo marcado entre o funk e o soul, uma guitarra limpa e elementos do universo moderno conceitual fazem o Clavadistas transitar entre o indie e o vintage com muita classe.
Já o Los Porongas (AC), estimado grupo na nova safra do rock promissor, melhora a cada show. A entrega dos integrantes e a passionalidade com que são cantadas e entoadas cada uma das músicas dão status transcendental ao exímio exemplo do rock amazônico que vem ganhando o país.
Na seqüência, o Chá de Chocalho (PR) também saiu do estereótipo rock encarnado pelos festivais independentes e trouxe seus sete integrantes em safona, baixo de seis cordas, percussão e ginga, responsável por fazer o público formar rodas de capoeira e deixar tudo ainda mais cheio de energia.
A ginga continuou com a apresentação do pernambucano Eddie e a sonoridade repleta de dub, groove e sensualidade, pontuada com frevo, maracatu, mangue beat e outros regionalismos no melhor “original Olinda style”. Já o Junkie Bozo (PR), que também se apresentou no ano passado, passou despercebido. Nada de novo ou interessante, numa indefinida empreitada pós-punk. O ponto alto do segundo dia viria a seguir, com show do Móveis Coloniais de Acaju (DF).
Móveis Coloniais de Acaju Ao Vivo no Demo Sul
Dispensando apresentações, a grande orquestra brasiliense e sua manjada feijoada búlgara colocou os cerca de 1.500 presentes para dançar loucamente entre os hits “Seria o Rolex?”, “Vende-se Aluga”, “Menina Moça” e no ápice com “Copacabana”, roda e a delicada cantiga “Se essa rua fosse minha”. Depois deles, ficaria difícil manter o climão pra cima no festival e o Ludov (SP), que veio em seguida, não deu conta do recado nem segurou o público. Um show insosso, sem carisma. Uma pena, porque a segunda noite poderia ter terminado bem mais ensandecida.
Domingo, 18 de novembro
No calor de 37 graus e uma tarde ensolarada de rachar, o último dia de Demo Sul seria heavy. O domingo de muito peso, bateria carregada de pedal duplo e headbanging foi consagrado pela molecada disposta a bater muita cabeça, começando com o Crazy Horses (PR), psychobilly nervoso, profetizado pelo som abafado de um contrabaixo acústico e pela inusitada perfomance do baterista, que toca em pé e guia a maioria dos vocais.
Seguiram-se ainda Chernobils (PR) e Toa Toa (RJ), exemplares que bebem do punk, hard rock, hardcore e até do ska e do reggae em proporções menores.
O destaque do dia foi para o quarteto Vertix (PR), punk rock lapidado com grunge e indie rock e um pé calcado na vanguarda de Lou Reed e Charles Bukowski. Os submundos do rock são bem retratados pela desenvoltura da vocalista, melodias e instrumentais simples, mas de qualidade, e a falta de ganância em soar moderninho ou descolado. Rock na medida para agradar ouvidos que não se importam com obviedades bem executadas mas priorizam algumas ousadias como a versão para “Take a Walk on the Wild Side”, executada sem frescuras e em três simplórios acordes.
Depois, um pouco de progressivo com Revoult (PR) e grind core com Fisicopatas. Um dos nomes de fora da cena londrinense, o Bang Bang Babies, despretensioso quarteto garage rock de Goiânia, veio abastecer mais ainda o festival com músicas do primeiro EP. Rock feito no quintal de casa com pegada adolescente raivosa e turbinada por cerveja como na faixa “Heart’s Crash”. Nada de muita técnica, o que pega é a crueza da guitarra de Vital e da bateria de Hélio, o baixo acelerado do pequeno Pintin mais o vocal roots de Pedro. Rock duro, diretamente de Goiânia, sempre para encher os ouvidos.
Fechando a tampa, o tempo começou a mudar e ventos fortes levantaram a poeira vermelha que receberia ainda dois expoentes peso-pesado. O Hocus Pocus (PR), adorado grupo londrinense que funde blues, metal e o rock’n’roll itself foi prejudicado logo no ínicio da apresentação por uma queda drástica de energia. Nem isso, nem a chuva rápida que caiu foram suficientes para afastar o público ou baixar a temperatura, que permaneceu por mais de uma hora, durante a apresentação dos vikings Matanza (RJ).
Adorados pelos batedores de cabeça, os cariocas ofenderam, insultaram e amaldiçoaram a tudo e todos ao fechar o festival. Quando o velho Johnny Cash encontra os palavrões mais cabeludos profetizados pelo abominável homem das neves Jimmy a certeza da quebradeira é inevitável.
Ponto alto pro Demo Sul, que fechou 2007 dando esporro e se firmando como um dos mais ricos e bem organizados festivais de música independente do Brasil.