Depois da ressaca
por BRUNO DIAS - 13/03/2008
(SÃO PAULO/SP) Em 2007 os cuiabanos do Vanguart tomaram uma importante decisão em suas vidas: mudaram para São Paulo em busca de melhores oportunidades e ampliar a visibilidade de seus trabalhos.

Lançaram o primeiro disco, conquistaram boa parte da crítica especializada e foram escalados para o “gigante” Tim Festival. Tudo parecia dar certo até que uma chuva sem trégua na capital carioca cancelou a tão aguardada apresentação.

Rumores de que um suposto contrato com uma grande gravadora (pois é, elas ainda existem) não teria rolado, juntamente com o cancelamento do Tim, pareciam escoar os planos de sucesso do grupo.

Que nada, 2008 mal começou e duas apresentações serviram para tirar qualquer nuvem negra de cima da cabeça deles. Primeiro foi no belíssimo Auditório do Ibirapuera para um bom público de aproximadamente 500 pessoas. O segundo, a gravação do DVD, dentro do projeto Rumos do Itaú Cultural.

Neste, uma fila cheia de adolescentes se formou nas proximidades do Itaú Cultural, na Avenida Paulista, para assistir a apresentação do Vanguart. Muitos ficaram de fora, mas quem conseguiu entrar se entusiasmou ao ver os jovens cuiabanos destilarem músicas de seu primeiro disco, com direito a bis e tudo que tinham direito.

Se não bastasse isso, Hélio Flanders se juntou a Zé Mazzei (baixista do Forgotten Boys) e Mallu Magalhães (a musa mirim folk brasileira), para montar um projeto onde tocarão apenas canções folk clássicas.

No bairro do Sumaré, em São Paulo, num apartamento localizado estrategicamente próximo da MTV, o Urbanaque conversou com o vocalista Hélio Flanders, que entre outras coisas falou dos novos rumos do Vanguart, Mallu Magalhães e claro, Bob Dylan. Acompanhe abaixo:

Urbanaque - Queria que você falasse do cancelamento do Tim Festival e desses dois shows agora do começo do ano, primeiro no Auditório do Ibirapuera e agora com a gravação do DVD no Itaú Cultural. Acho que foram bem emblemáticos pra banda, não?

Hélio Flanders - Eu achei interessante você fazer alusão ao Tim, ao exorcismo do Tim.

Vem na cabeça, porque o Tim Festival era pra ser um puta show, com toda aquela visibilidade...

Por um lado é interessante, no meu ponto de vista, hoje eu olho e a gente não tava preparado. Eu acho entendeu, em questão musical. Só eu acho isso na verdade, eles não iam entender essa questão. O legal pra gente do Ibirapuera era que queríamos agregar valor de qualidade no show, entendeu? A gente pensou: cara, não temos público muito grande, no sentido de povo. É um público seleto, gente que gosta da banda e tal. Aí a nossa idéia foi dar um show com mais qualidade, só isso, entendeu. E aí o Auditório foi incrível pra isso. E aconteceu algo que a gente não esperava. (pausa) Eu sou muito pessimista entendeu, achei que não fosse dar nem 200 pessoas, porque o ingresso era caro, e tal.

Deu um público bom, né?

Deu quase 500 pessoas lá. Quando começou o show eu olhei e tinha pouca gente, quando terminou, eu vi que o lugar tava tomado.

E esse do Itaú agora? É dentro do projeto Rumos e tal...

É então, fomos selecionados, mandamos material pelo correio. E várias pessoas foram selecionadas. O legal de lá foi o público, a gente não esperava aquela coisa calorosa. E foi legal que o Natale [gerente do Núcleo de Música do Itaú Cultural] ligou e falou: quero que vocês abram a temporada, foi o primeiro show da temporada.

Deu pra ver que o público de vocês é uma molecada. Sempre foi assim?

Sempre foi, mas ao mesmo tempo o Vanguart é uma das poucas bandas do independente que pode tocar numa festa de coroas tranquilamente. Tem um monte de gente mais velha que gosta também.

Tem muito dessa molecada que veio do público da Mallu também?

Eu acho que ainda não, mas futuramente pode ser.

Vanguart - "Enquanto isso na lanchonete" @ Itaú Cultural


Eu digo isso por ela citar vocês como referência. O pessoal da comunidade dela no Orkut se uniu a de vocês pra ver o show do Itaú pela internet, o projeto paralelo que você ta fazendo com ela...

Eu não sei se todos os fãs da Mallu estão interessados na vida além Mallu. Acho que fãs da Mallu que gostam de Vanguart na verdade já conheciam a banda. Acho que acaba sendo o mesmo grupo de pessoas. Já o grande público da Mallu, novo, que ela conseguiu, eu acho que é o contrario na verdade, ela ganhou alguns fãs.

E esse lance do folk, no Brasil não tem tradição.

Depende da forma como é analisado, tem gente que diz que o nosso sertanejo de raiz é o nosso folk. O folk americano mesmo nunca foi referente, talvez o Secos & Molhados bebeu um pouco nisso, por causa do João Ricardo que gosta, e talvez o Sá, Rodrix & Guarabyra e o pessoal lá. Mas eles mesmos se denominavam rock rural, uma coisa mais psicodélica.

E como está a cena brasileira? Tem vocês, o Dead Lovers Twisted Heart (MG), o Bad Folks que vem de antes...

Uma banda que eu acho que foi muito importante pra mim no sentido... (pausa) Eu nunca falei isso antes. No sentido de fazer as coisas em casa, foi o Grenade [banda de Rodrigo Guedes, que começou como um projeto caseiro]. Eu não gosto do Grenade como banda , gosto do início da fase caseira deles. Eu ouvi aquilo e disse: pô, vou fazer isso meu. O cara é foda, faz muito bem. E eu ouvi pouco ainda, porque não conseguia baixar muito na época. Aí nunca mais ouvi. Eu gosto às vezes de parar de ouvir algumas coisas. Eu não o conheci ainda, ele tocou em Londrina com outra banda [New Ones, no festival Demo Sul em Londrina] mas nem lembro direito.

É interessante você citar o Grenade, os primeiros trabalhos dele são bem folk...

Musicalmente talvez não tenha influenciado tanto, porque ele está mais pro Neil Young e eu mais pro Bob Dylan. Mas no sentido histórico da coisa eu vi que ele gravava em casa, aí resolvi gravar...

Viu que não era um bicho de sete cabeças...

Eu vi que era a solução. E é aquela velha história, o Vanguart surgiu porque eu não queria mais tocar com banda.

Você acha que esse hype todo em cima da Mallu vai acabar influenciando outros jovens, outras pessoas, a enveredar por essa vertente folk?

Seria interessantíssimo se fosse pra esse lado, que aparecesse uma puta galera boa. Foi o que eu falei, acho que ajuda o movimento folk e naturalmente o Vanguart. Ainda assim eu sinto falta de outros nomes folk aqui no Brasil, eu acho que esse lance da Mallu pode ajudar nisso.A própria Mallu mesmo, se formos pensar musicalmente falando, ela é uma “benção” na cena folk brasileira.

Vanguart - "Michelle" @ Auditório do Ibirapuera


Além disso, no Brasil não temos muitas cantoras femininas compositoras...

É, por exemplo, sem entrar no lance de qualidade, é difícil achar alguém parecido comigo na questão de compor, no lance de fazer em inglês, folk indie, assim tipo “Last Time I Saw You”. Não vai achar. E a Mallu vem pegar o lado feminino disso, acho muito legal. Acho que agora que apareceu a Mallu, eu descolei uma parceira. Alguém que compõe também e de uma maneira muito parecida com a minha.

E agora vocês estão com esse projeto juntos...

A gente já fez umas músicas. Ela vê as coisas de maneira diferente, ela é mais pura.

Sim, ela tem 15 anos...

E eu já ando escrevendo mais sobre mendigos e leprosos...

Essa é uma influência de São Paulo?

Não. Isso é influência de Cuiabá e Bolívia. Na Bolívia foi foda...

Você ficou quanto tempo lá?

Uma gestação, nove meses. Gravei o segundo disco com o Reginaldo, tinha acabado de fazer 17 anos. Não passei no vestibular. Aí minha avó tava morando na Bolívia. Eu pensei: I´m going to Bolívia. Gravei o disco num clima de despedida. Aí sai fora e fiquei compondo lá. Fui compondo compulsivamente, fiz 80 músicas, dessas cinco eram boas. Mas já valeu. Voltei, nove meses sem tocar, e cheguei muito instigado pra tocar com banda. Fiz um show, queria fazer um só, mas aí fudeu...

Agora você está tentando dar umas escapadinhas da banda?

Não é escapada. Foi difícil segurar, eu faço muita música, principalmente em inglês, e preciso dar uma desovada. Eu e o Zé Mazzei [baixista do Forgotten Boys, que está junto com Hélio e Mallu no projeto de canções Folk], por exemplo, não era um projeto. A gente se encontrava pra tocar Bob Dylan profundamente. Pegávamos o livro com todas as letras. Aí surgiu a idéia. E colou a Mallu e foi tipo: vai ser legal, vamos por a Mallu e tal.

Vanguart - "Cachaça" @ Auditório do Ibirapuera


Como fica, o seu lado maldito perto da Mallu, uma menina, começando. Tem um abismo em alguns momentos, não tem? Na hora de compor talvez não, mas no lance de bagagem e tal.

Sim, ela é uma menina. Mas a Mallu artisticamente é outra pessoa, a gente vai tocar uma música, vamos compor, e ela tem uma maturidade que não tem normalmente, mesmo por causa da questão da idade dela. E é muito interessante, ela está descobrindo essas coisas com a gente. Sobre o abismo do maldito. Sei lá, quando a gente compõe, por exemplo, eu to me segurando.

De repente é até um lado que você não sabia que tinha...

Não, eu sabia que tinha, mas não explorava. Eu sempre gostei de fazer músicas delicadas, com temática até naive. Só que chega ao vivo isso se torna o contrário, fico mais malandro. Eu sou malandro ao vivo.

Eu percebi, a piada do costinha no show do Itaú Cultural é um exemplo disso.

Sabe, é aquela história, maldito mesmo. Tom Waits total: gambling, drinking, smoking and drinking. Songs, trains and smoke.

E no lance da banda, como você vê o Vanguart hoje? Na questão de conjunto.

Eu acho o seguinte, hoje o Vanguart se tornou algo muito grande na nossa vida. Então, por exemplo, são cinco cabeças pensando all the time. A gente gravou essas músicas do primeiro álbum faz um tempo. Então nós estamos nos redescobrindo agora, e está sendo do caralho. Rolou uma entrevista depois do show do Itaú, perguntaram: “pra onde vocês estão indo agora?” Não faço a mínima idéia de onde estamos indo, de como vai ser. Tem algumas pistas, mas o legal é que nós estamos descobrindo juntos. Ao mesmo tempo que estamos indo pra caminhos diferentes do que a gente já vem, do que a gente fez antes, também estamos cada vez mais Vanguart. Principalmente em português, está sendo bem legal.

Ao vivo a banda deu um salto muito grande, do que era. Todo mundo tocando mais solto. A música nova que vocês tocaram no Auditório já tinha uma coisa mais brasileira. O jeito de você cantar mudou, tem uns trejeitos que você não tinha antes. Você percebe esse tipo de coisa?

Não percebo muito. É uma coisa muito natural. Descobrir as coisas que eu faço, acho que só vendo no vídeo mesmo. Não sei falar sobre. Acho que cada vez mais eu interpreto a música, seja em qualquer idioma. Mas aí que entra o lance da musica em português, a gente está se descobrindo. E eu pessoalmente, como intérprete, percebi que é muito mais fácil interpretar em português, saber que o público está entendendo do que se trata. Então, acho que não consigo cantar uma música em português sem interpretá-la facialmente.

Mesmo em inglês você interpreta bastante?

Eu sempre interpretei, acho que quem tem um inglês mínimo, dá pra sacar pelo menos quando eu to falando do fumo.

Vanguart – “The Last Time I Saw You” @ Auditório do Ibirapuera


E nessa questão de compor, hoje já está compondo igual em inglês e em português? Já está com mais facilidade de compor em português?

Não, continua difícil. A música em português eu componho de outra maneira. Geralmente eu tenho feito umas coisas meio blues em inglês, coisas mais simples. Aí geralmente eu bato no violão, no teclado, e de acordo com a sonoridade da coisa eu escolho o idioma. Se é em inglês, eu vou terminar a música muito mais rápido. Mesmo porque em inglês eu gosto de repetir coisas, fico repetindo letras longas. Só letra longa.

Essa é uma influência que vem do Bob Dylan?

Não, acho que na verdade é porque eu quero contar mais coisas, criar uma história. E em português não, eu prefiro fazer uma coisa mais curta, mesmo porque eu estou com um pouco de déficit de atenção.

Você foi no show do Dylan, o que achou?

Estranhíssimo e maravilhoso. Ele está velho, né? Mas é o Dylan, pra gente que conhece as musicas, o show é muito legal. Vê-lo declamando todas aquelas letras e sacaneando com a galera.

Como foi a experiência de estar lá, ver o cara?

Pô cara, foi legal. Confesso que meu interesse era mais musical mesmo. Dylan é um cara que eu não faria questão de conhecer, mesmo porque ele não faria questão nenhuma de me conhecer. Se alguém falasse, quer entrar pra falar com ele? Eu diria meu, sei lá, se eu não tivesse com nenhum CD, ou se tivesse com algum CD. Eu não ia pedir um autógrafo pro cara, encher o saco dele. Se fosse o Tom Waits eu ia falar: tô com um scotch aqui, vamos tomar. O Bob Dylan não dá, ele é louco. A gente já sabe disso. Então foi interesse musical mesmo.

Vocês voltaram do estúdio agora, do ensaio, já estão com algumas musicas novas?

A gente foi gravar as músicas novas.

E isso é pra quê? Vocês já estão pensando em lançar alguma coisa nova?

Pra gente ter isso, tem um pessoal que quer ouvir, de gravadora e tal. Não profissionalmente, amigos do Glauber [empresário da banda]. Mas principalmente pra gente, gravamos seis músicas, três em inglês e três em português, bem diferente assim.

Vanguart - "Semáforo" @ Auditório do Ibirapuera


Pra quem acompanha a banda há muito tempo, essas músicas que saíram no disco já estão meio velhas. Vocês meio que já estão começando a cansar dessas músicas?

Sim, rola um pouco. Eu acho que ainda esse ano vamos trabalhar bastante essas músicas. Eu tenho como meta pessoal terminar esse álbum novo até o final do ano pra ir gravar.

Já rolam algumas novas nos shows?

Nos shows, até pra testar, tocamos uma nova no Auditório, outra em São José dos Campos. Elas estão diferentes, estamos começando a trabalhar, está bem legal. Em português estão bem distintas, indo pra vários lugares. Em inglês estão bem blues. Tem uma nova que a gente toca, que chama “You know me so well”, que tem uma gaitinha no começo. Eu toco geralmente depois da que eu toco sozinho. É bem blues clássico. A gaita deve voltar em alguns momentos. Até preciso comprar uma nova.

* Vídeos e fotos: Bruno Dias.