CUM ON, FEEL THE TOCANTINOISE
por Hígor Coutinho, especial para o Urbanaque - 21/05/2008
(ESPECIAL DE PALMAS/TO) A quarta edição do PMW Rock Festival aconteceu no primeiro fim de semana de maio e, a despeito de ainda não revelar nenhuma boa surpresa local, confirmou a jovem capital do Tocantins no itinerário fervente dessa nova música brasileira.

O Boddah Diciro é, ao que parece, o grupo mais promissor da cena de Palmas, e até já passou ao circuito de festivais da ABRAFIN (Associação Brasileira de Festivais Independentes) e eventos da Fora do Eixo, espalhados pelo Brasil afora, mas ainda não conseguiu se desvencilhar da derivação exagerada, e acaba soando como uma falsificação grosseira e desajeitada do Nirvana e de grupos menos inspirados do grunge noventista. Em cima do palco provou que ainda precisa de muitas horas de estúdio e de alguma inspiração para se livrar da pecha de imitador barato.

As demais bandas da cidade, Anorexia e Críticos Loucos, também não souberam como romper a barreira da repetição, cada uma a seu modo. Anorexia, a encarregada de abrir os trabalhos, emula aquele mesmo heavy metal urrado, ligeiro e azucrinante, numa combinação infeliz de Sepultura e Arch Enemy, enquanto a Críticos Loucos se perde em meio a uma indigesta e imatura salada de referências, que de tão indecisa acaba jogando contra o próprio patrimônio.

Seguindo o programa, o trio paraense Jolly Joker quase animou meu par de ouvidos já cansados, tratando seus instrumentos com uma perícia inédita até então, nessa primeira noite de festival. Quase! Por que o apuro instrumental do grupo acabou apagado por piadinhas repetidas que invariavelmente envolviam um tratamento pouquíssimo polido ao sexo feminino e um amor cego, devotado a toda espécie de embriaguez. Da primeira vez meu bom humor até conseguiu libertar um sorriso tímido, mas daí em diante...

A noite só foi melhorar, de fato, quando os paraibanos da Zefirina Bomba subiram sua genuína empolgação alcoólica e plugaram seus instrumentos em cima do palco, até agora tão mal-tratado. Baseando quase todo o set em improvisos psicodélicos sabor tupiniquim, o trio soube dosar distorção chapada, brasilidade espontânea e, pela primeira vez na noite, uma presença de palco despreocupada e amistosa, apesar dos tombos exagerados do vocalista Ilsom.

Já o Móveis Coloniais de Acaju parecia ter o jogo ganho antes mesmo de ocupar o palco. As cerca de oitocentas pessoas que se apertavam no gargalo não deixaram dúvidas quanto à popularidade da big-band candanga, e não se furtaram o direito de saltitar alegremente durante mais de uma hora de um show instrumentalmente irretocável e plasticamente perfeito. Percorrendo todas as fases de sua curta, porém explosiva, carreira, os quase famosos de Brasília fizeram a massa se esquecer e/ou desculpar tantos shows ruins espremidos numa mesma noite.

No sábado, segunda e última noite de festa, o line-up não indicava grandes diferenças qualitativas, e novamente os conjuntos locais não surpreenderam. Val Hala, Mata Burro e Mestre Kuka não conseguiram mais atenção do que mereciam. Basicamente, a dos amigos mais pacientes.

A única banda goiana da programação, a Mugo, também parece ter sido contaminada pelo espírito amador e não fez a apresentação inspirada que estamos acostumados a ver em Goiânia. Mas, mesmo com problemas no som e desentendimento instrumental, o grupo ainda conseguiu, com sua receita esgoelada em afinações baixíssimas, a atenção satisfeita das duas centenas de camisetas pretas aglomeradas em frente ao tablado.

Mas a coisa mais engraçada da noite foi mesmo a Pleyades, versão mineira e infantil da piada televisiva Massacration, liderada pela performance frenética e bizarra da vocalista Cynthia Mara, que aos quatorze anos já decorou todos aqueles clichês constrangedores dos band-leaders do heavy metal, e num arremedo circense da típica presença de palco do gênero, conseguiu a “simpatia” gargalhante da massa de cabeludos curiosos. A brasiliense Lafusa também aderiu ao espírito local e não soube equacionar seu pop de guitarras, que deu voltas e mais voltas sem sair do lugar, atrapalhado pela má equalização do equipamento de som.

Já o profissionalismo rebelde-de-brechó dos gaúchos do Cachorro Grande não tomou conhecimento da urucubaca e desfilou a apresentação mais redonda e fluida do festival. Vestindo sua carapuça de “Beatles” do indie brasileiro, o quinteto não se fez de rogado e, além de um show sem margem para erros (mas sem despedir aquela adorável porra-louquice calculada), soube se aproveitar da disponibilidade das groupies nativas.

O PMW parece ser uma espécie de pai amoroso e paciente das bandas do Tocantins, e assim que surgir um grupo local com qualidade talentosa para marcar território no acirrado cenário nacional, o festival fatalmente será apontado como um dos culpados. Por enquanto a aposta da produção ainda é o fomento de bandas novas, e esse parece ser mesmo o melhor caminho para uma cidade tão jovem e que espera a hora de tirar dessa efervescência toda um cartão de visitas decente, que dialogue de igual para igual com os demais grupos espalhados pelos festivais tupiniquins. Enquanto isso, o jeito é ir exercitando a paciência!

* Hígor Coutinho edita o blog Goiânia Rock News - http://goianiarocknews.blogspot.com.

* Fotos: DJ Lucho.

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