| Em seu VIII ato, o carioca Rogério Skylab dá vazão ao melhor de seu humor negro,escatologia e tragédia. Apoiado por uma sonoridade cada vez mais competente e madura, ele dá continuidade à série de discos que vem produzindo desde o surgimento de seu primeiro sucesso “Matador de Passarinho” (SKYLAB I e II).Formado em Letras e Filosofia pela UFRJ, autor do livro Debaixo das Rodas de um Automóvel (Rocco, 2006), o músico-poeta-escritor e filósofo fala com o Urbanaque e, mais do que isso, o ex-funcionário do Banco do Brasil arrisca e dá nota à nossa entrevista.
Urbanaque - Em suas entrevistas, você tem dito que encerrará a série SKYLAB no disco X e então se dedicará a literatura. Quando você olha para o longo caminho que percorreu, qual é a sensação de já estar no disco VIII, perto do fim? Há alguma nostalgia quanto a isso?
Skylab - Nostalgia nenhuma. Terminar no SKYLAB X é como terminar uma música.O cara que faz músicas, poemas, dramaturgia, conhece bem essa estória de como começar, como desenvolver e como terminar.
A série dos SKYLABs, que eu considero “work in progress”,foi concebida pra encerrar no SKYLAB X. Quer dizer, a formação da banda, a maneira como vem sendo gravados os discos, o tipo de música... tudo isso faz parte de um projeto. Eu tenho planos, encerrada a série, de partir pra outros projetos com outros músicos, outro tipo de música... enfim. Eu penso no SKYGIRLS, no SKYBIRCK, no SKYZE... e por aí vai. E claro, em continuar meu trabalho na literatura.
O álbum SKYLAB VIII traz algo que não tinha aparecido nos álbuns anteriores, como a levada reggae de “O Ar”. O público pode esperar uma eventual incursão em outro estilo musical inédito em SKYLAB IX? É verdade que o nono disco será o último com inéditas da série?
Eu realmente pensei no IX como o último disco de inéditas. Mas, provavelmente, o X é que será o último de inéditas. Depois disso, o SKYLAB 00, que sairá como DVD e CD, será um apanhado das músicas que, na minha ótica, foram as mais interessantes da série.
Quanto ao fato de ter composto um reggae, não vejo nisso nenhuma novidade. A minha história com a música é de trabalhar com todos os materiais possíveis. Aprendi isso com o Zappa.
Poucas pessoas hoje sabem que a canção “Batmasterson” de SKYLAB VIII vem do tema de um antigo seriado gringo. Nesta música você manteve a mesma melodia da canção original, alterando só um pouco a letra. O que o levou a gravá-la?
A alteração que eu fiz referente à música original, não diz respeito somente à letra. A música original também foi alterada. Por isso não aceito classificá-la como cover. Esse é outro procedimento muito comum no meu trabalho: adulteração dos originais.
E o que me levou a gravá-la foi o fato de que o SKYLAB VIII é todo ele voltado a coisas que já não existem mais: sabonete Eucalol, Casas da Banha, o seriado do Batman na TV, mico leão dourado... e por aí vai.
A música 'Casas da Banha' foi originalmente lançada em seu primeiro disco, antes da série SKYLAB, denominado Fora da Grei. Em SKYLAB VIII você regravou esta música fazendo algumas alterações. O que seriam essas “Casas da Banha”? Poderia nos explicar melhor?
Bem, aqui eu não faço nenhuma alteração da letra. As CASAS DA BANHA do FORA DA GREI é a mesma do SKYLABVIII. Altero sim o arranjo. E pra vocês que são muito novos, CASAS DA BANHA foi, salvo engano, o primeiro grande supermercado do Brasil. Hoje não existe mais.
A sua obra tem linguagem e estética sui generis. Devido a essa peculiaridade, você acha que o público será um dia capaz de desvencilhar sua imagem em futuros projetos àquela apresentada na série SKYLAB? Há a intenção de continuar usando o mesmo pseudônimo após o fim da série?
Eu acho que já respondi essa sua pergunta. Agora, se o público vai se desvencilhar da minha imagem nos futuros projetos, isso é uma questão que não me diz respeito.
Apesar de grande parte do conteúdo de suas letras serem obviamente de caráter ficcional, você afirmou em algumas de suas aparições na imprensa que o seu trabalho é “vivencial”. A faixa “Eu Tô Sempre Dopado” de Skylab VIII, por exemplo, pode levar alguém a pensar que você usa drogas; a primeira faixa de SKYLAB VII fala de um suposto divórcio seu; em um trecho de Skylab VI você xinga sua mulher, mãe e tia (Solange, Yolanda, Margarida). Até onde o Rogério Skylab (artista) adentra o Rogério Tolomei Teixeira (cidadão) e vice-versa? O público pode acreditar em tudo o que o“Skylab” diz na imprensa? Ele é um personagem?
Nessa tua pergunta eu vou me ater a uma diferenciação à qual volta e meia eu recorro: a diferença entre um trabalho biográfico e um trabalho vivencial. Meu trabalho não é biográfico - o que me acontece no dia adia, só diz respeito a mim e a mais ninguém. Agora, a forma como eu vivencio os meus acontecimentos, isso sim é transposto naturalmente pra música e literatura. Sacou?

Você faz download de músicas sem pagar?
Faço download direto. Agora, os discos que eu gosto, esses eu faço questão de tê-los no original.
“Roubar músicas dos outros e cometer minhas perversões” é uma idéia sua já declarada na imprensa. O “canibalismo” é o tema de uma música sua intitulada “Carne Humana”, de SKYLAB II. Você vê alguma relação entre o seu trabalho e a ideologia do Movimento Antropofágico de 1928 no Brasil?
A idéia da antropofagia é interessantíssima. Aliás, quero dizer que Oswald de Andrade é pra mim o intelectual modernista que mais admiro. O seu texto teórico é o que ele produziu de mais importante. Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande, que, pra muitos, significam a parte mais interessante de sua obra, ao meu ver não estão no mesmo plano de importância que os ensaios A Crise da Filosofia Messiânica e A Marcha das Utopias.Aliás, esses ensaios foram escritos posteriormente a tudo que ele produziu de prosa, teatro e poesia.
Em relação a sua paixão pela literatura, existe algum projeto de lançamento de mais um livro? Caso afirmativo pode nos falar um pouco sobre ele?
Bem, se tudo acontecer como planejado, vou publicar meu segundo livro no próximo ano. E vai ser de contos. Alguns deles eu venho publicando no meu blog.
Recentemente em seu blog (www.godardcity.blogspot.com/) foi publicado um documentário feito por estudantes no qual você declara que a maior parte da crítica musical não entende de musica (do ponto de vista técnico-músical) e também que você se considera o seu maior crítico. Qual a sua opinião sobre a atual imprensa musical no Brasil? E qual a crítica que você mesmo faria de seu mais recente disco, SKYLAB VIII?
Talvez a melhor pergunta. É o seguinte: cara, eu venho acompanhando muito de perto a crítica de música no Brasil. Venho lendo periodicamente as revistas ligadas a música, os sites, os livros... E tenho notado algumas coisas muito interessantes. Isso daria um livro. Em relação a grande imprensa, me parece que foi de fato abolido o comentário opinativo. O editor desses grandes jornais exerce um controle efetivo, o jornalista tem pouca liberdade pra escrever o que gostaria, e as resenhas dos discos são de fato ridículas.Como você pode analisar um trabalho em 3 linhas? Quando abre-se espaço na grande imprensa, muito raramente será pra analisar um trabalho novo,recém-lançado. A editoria sempre prioriza os relançamentos. Ou seja, nada se arrisca.
Em relação aos sites, e o URBANAQUE está entre eles, tem-se a impressão que, muito embora haja uma maior liberdade, fazem parte de uma grande confraria. Por exemplo: o caso Los Hermanos. Tirando o Mário Marques, eu não conseguia encontrar um site sequer, dedicado à música independente,que fosse capaz de espinafrar um disco do Los Hermanos. Por que? Eu me sentia um extra-terrestre. Será que só eu tinha implicância com a banda? O Bloco do Eu Sozinho por exemplo, era aclamado por todos os sites de música independente. Eu não ouvia uma voz discordante. Isso é no mínimo estranho: brodagem? lavagem cerebral? Jabá é que não podia ser. Enfim, um caso a estudar.
No tocante aos livros, a questão me parecia outra. Esses escritores, em sua maioria, oriundos da grande imprensa, como Arthur Dapieve e PedroAlexandre Sanches, analisam a música sempre pelo mesmo viés, qual seja, o sociológico. Quando lemos A Decadência Bonita do Samba ou BRock - o rock brasileiro dos anos 80 parece que estamos lendo um tratado sociológico. E isso se explica: eles não estudaram música, eles fizeram faculdade de comunicação. Esse me parece o maior problema na crítica de música no Brasil. E isso acontece mais na área da MPB, do Rock e da música POP.Não é comum acontecer isso na música clássica ou na erudita. Daí a importância de José Miguel Wisnik, Luis Tatit e Arthur Nestrowski: eles fogem do viés sociológico e são músicos por excelência. Eles no mínimo aumentam as possibilidades de análise musical. Enriquecem o campo da crítica e isso retorna pra nós, músicos. Na verdade, é um caso de mão dupla.
Em relação ao SKYLAB VIII, eu tenho um post no meu blog, em que, de uma certa forma, esculhambo o disco.
No seu blog você afirma “Pra quem sempre assiste as minhas entrevistas, sabe que 50% das perguntas são sempre perguntas repetidas”. Por outro lado você também afirma adorar a repetição e a série. Confesso que isso gerou grande conflito interno e ansiedade ao entrevistá-lo. O que você sugere que os seus futuros entrevistadores perguntem? Poderia falar um pouco de algo que você gostaria de responder, mas nunca te perguntaram?
Pior que as perguntas repetidas é a auto-censura: 'não vou responder assim porque podem pensar mal de mim'. Parece com o Roberto Carlos que, quando entrevistado, faz questão de ler antes todas as perguntas - e aprová-las ou não. É a esquizofrenia do ídolo diante do grande público. Ao contrário, eu busco nas minhas entrevistas a mesma espontaneidade das minhas canções.
Que nota você daria para esta entrevista? Foi muito repetitiva?[risos]
Não foi repetitiva. Aliás, numa entrevista o que menos importa são as perguntas. Nota 6,5.
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