Festival Calango 2008 mostra a força cuiabana
POR CIRILO DIAS - 19/08/2008

(Especial de Cuiabá/MT) Maio de 2008, Porto Velho, Rondônia. Enquanto todos esperavam o ônibus para mais uma noite do Festival Casarão, Pablo Capilé, em sua habitual empolgação verbal, fala em alto e bom som: “Este ano vai ser o melhor Calango de todos os tempos, quero ver alguém reclamar”. Quatro meses se passaram e aos poucos a programação da 6ª edição do Festival Calango foi tomando forma, com os mais relevantes nomes da nova música brasileira e bandas que lançaram os mais elogiados discos do ano como Curumin, Macaco Bong e Cérebro Eletrônico – sem contar outras estréias de peso em terras cuiabanas, como Mamelo Sound System, Hurtmold e Contra Fluxo.

O gigantesco Centro de Eventos Pantanal abrigou dois palcos, uma pequena arena para b-boys, um estande de concurso de guitar hero, praça de alimentação, além de estúdios de tatuagem, discos, camisetas e a base operacional do Espaço Cubo, que transmitia ao vivo o festival pela rádio on-line. Sem contar os eventos paralelos ao festival, como o Calango Tour, que levou bandas e jornalistas para passeios pela chapada dos Guimarães. Música, turismo e muito conforto para todos os presentes, fórmula perfeita para nenhum tipo de reclamação. Mas ainda restava a programação do festival, anunciada em letras garrafais nos flyers e outdoors pela capital mato-grossense com o slogan “mais de 44 bandas”. Mas onde estariam nomes como Cachorro Grande, Pitty, NxZero e afins? As iscas perfeitas para atrair público e garantir o leite das crianças? Pois é, três dias de música e nenhum figurão “indie”. Grandioso e ousado.


A sexta-feira de festival já começou com algo inusitado, os mato-grossenses do Los Bobs acompanhados de Astronauta Pingüim, na guitarra. Na seqüência, o Sweet Fanny Adams (PE) teve a ingrata missão de aglomerar o pouco público que começava a encher o recinto. Com seu indie rock guitarrístico, os pernambucanos comprovaram o porquê de estarem chamando a atenção de outros festivais.

Sweet Fanny Adams


Ebinho Cardoso Trio (MT) reforçou o time local de excelentes bandas instrumentais, mas faltou energia e interação com a platéia, que logo se dispersou pelo recinto deixando uma tarefa um tanto quanto ingrata para o Mamelo Sound System, que debutava em terras cuiabanas. Foram necessárias várias broncas de Rodrigo Brandão e muito molejo e beleza de Lurdes da Luz para chamar a atenção do público. Como desferiu Brandão: “Terceiro mundo é osso, seja São Paulo ou Mato Grosso”.

Mamelo Sound System - "Minha mãe diz"


Já Diego de Moraes e o Sindicatto veio de Goiânia para fazer um show engraçadinho, com direito a dancinhas no palco propiciando o clima perfeito para Fabrício Nobre assumir os vocais do MQN, soltar uns dez assobios para agrupar o rebanho de moleques sedentos por um pouco de hostilidade e mostrar que o rock goiano não permite frescuras. Disparada a fagulha metaleira, foi até suave para o Venial (MT) reunir seus fãs em frente ao palco e judiar mais ainda dos tímpanos alheios.

MQN - "Hard times"


Nome obrigatório nos festivais, os gaúchos do Pata de Elefante fizeram um show impecável, apesar do público pouco interessado. Com o repertório mais focado em seu último trabalho, Um olho no fósforo, outro na fagulha, reservou excelentes momentos, como na música “Marta”. Problema de quem perdeu o show.

Pata de Elefante - "Marta"



Em seguida, mais uma seqüência de bandas paulistas, dessa vez um belo contraste entre Garage Fuzz, que arrancou lágrimas de algumas pessoas, e o Jumbo Elektro, que tratou de instalar uma animação necessária na escaldante madrugada cuiabana. Quem estava esperando algo moderninho, foi surpreendido por um rock calcado em baterias “quebradas” do Papier Tigre (França), um misto de At The Drive-In com The Raptures. Para fechar a noite, os competentes The Melt (MT) e Cascadura (BA) deram conta da tarefa de terminar de estourar os tímpanos alheios.

Papier Tigre





A noite de sábado já contava com uma desistência. O Walverdes (RS), uma das bandas mais esperadas, não pôde comparecer devido a uma pneumonia que derrubou o vocalista Mini. A tarefa de dar início (realmente) à maratona de shows ficou por conta do Hey Hey Hey (RO), que evoluiu absurdamente em cima dos palcos desde o show do Festival Casarão. Em seguida, os mineiros do The Dead Lover´s Twisted Heart soltaram o seu folk rock na orelha dos cuiabanos.

Hey, Hey, Hey (RO) - "Pequeno monstro"



The Dead Lover´s Twisted Heart


Os melhores momentos da banda foram quando deixaram o folk de lado e apostaram no rock rápido e dançante. Fica aí a dica. Já que o emo está salvando as menininhas e os moleques de debandarem para estilos menos nobres, não foi surpresa ver o Three Pockers (MT), mais uma banda “Malhação Style”, arrancar gritinhos femininos e masculinos (epa!) também. O AMP (PE) foi outra boa surpresa da noite, rock pesado e sem frescura. Agora uma prova de como conseguir estragar a reputação: o som era pesado, as guitarras na medida certa, hostilidade à la Phil Anselmo, mas a indecisão do cuiabano Lopes e sua banda homônima em gritar com raiva ou fininho só não foi pior do que uma bizarra e constrangedora adaptação de “Era um garoto” dos Engenheiros do Hawai, que ganhou uma letra digna de um garoto empolgado por ter entrado no 5ª ano do ensino fundamental.

O rapper cuiabano Linha Dura escalou o baixista Ebinho (Ebinho Cardoso Trio) e Kayapy e Ynaiã (guitarra e batera do Macaco Bong) para substituir os discos de vinil. O momento foi tão sublime que resultou em uma mega jam session com os integrantes do Contra Fluxo e Mamelo Sound System no palco.


Linha Dura, Contra Fluxo e Rodrigo Brandão


Assim como fez em Porto Velho (RO), e em todo lugar por onde passam, os cariocas do Do Amor colocaram os headbangers para dançar o carimbó. Muita animação, rastapé e um trenzinho de Carnaval. A programação reservou um final instrumental, com Macaco Bong (MT) e Hurtmold (SP), não sem antes aquecer a platéia com os acreanos do Filomedusa e os agitados show de El Mato a un Policia Motorizado (Argentina) e Cérebro Eletrônico (SP). Ótima noite, que terminou com os músicos do Hurtmold carregando um sorriso estampado no rosto, pela calorosa estréia cuiabana.


El Mato A Un Policia Motorizado


Cérebro Eletrônico - "De"


O último dia de festival reservou uma programação menos empolgante. Stereovitrola (AP) e Filhos de Empregada (PA) cancelaram suas apresentações. Sorte para os locais do Aoxin, uma molecada que não escondia o orgulho de estrear no festival. A porradeira foi garantida por Ayakan (MT) e Elma (SP), este último agradando e surpreendendo mais músicos de outras bandas do que o púbico, que mostrou mais empolgação no show do Revoltz (MT), causando espanto e surpresa no vocalista Kudla, que não esperava tantos fãs cantando suas músicas. Outra banda a fazer parte do time dos fãs-músicos foi o Fossil (MT), mas há de se admitir que em alguns poucos momentos ele prendia a atenção. Os mineiros do Porcas Borboletas deixaram um pouco o escracho e a animação para fazer um show calcado em uma “seriedade irônica”. Eles gastaram logo no início do show seu mais novo hit, a música homônima do filme blogueiro Nome próprio,. Para em seguida fazer um show empolgante, principalmente em “Amor, acabou a cerveja”, do disco Um carinho com os dentes, que foi cantada por uma boa parte do público, mas faltou um pouco menos de tensão no palco.

O Curumin levou ao palco Loco Sosa (Banzé! e Los Pirata), para agradar ao já disperso público. Faltou um pouco de peso para o som dos paulistanos, como em “Caixa preta” do recém-lançado e elogiado Japan Pop Show.

Curumin - "Caixa preta"


O momento burocrático, porém até interessante, foi do grupo de siriri, ritmo local mato-grossense, que conseguiu a atenção do público ao evocar o orgulho de ser cuiabano a cada levada das violas-de-cocho. O Supercordas (RJ) até lançou seus toques de psicodelia rural nos cuiabanos, mas o calor da capital mato-grossense já era o suficiente para ferver a cabeça dos presentes. Outra banda a debutar na cidade foi o excelente Contra Fluxo (SP).

Contra Fluxo


Com bases poderosas e quatro vozes “rapeando” simultaneamente, deixando o público boquiaberto. Com certeza acrescentou uma excelente referência a ser seguida pela recém-nascida cena hip hop local. Apesar da canseira protagonizada por Cabruêra (PB), o público permaneceu firme e forte para ver a mais promissora banda cuiabana, o Vanguart. Casa cheia, todas as músicas cantadas em uníssono e a certeza de que o Festival Calango encontrou um caminho e fórmula interessante a ser copiada por outros festivais.





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