Entrevista: Capim Maluco
POR DANIEL CALASANS FOTOS CIRILO DIAS
03/09/2008

(PRESIDENTE PRUDENTE/SP) 2008 deve ser mesmo o ano em que os mais antenados acabarão ouvindo - pelo bem ou pelo mal - o barulho emitido por esses jovens malucos movidos a capim. Isso porque o Capim Maluco, banda da atual cena independente paulistana, mas surgida na cidade de Paraguaçu Paulista (SP), cometeu o seu primeiro àlbum: Flamingo (Objeto_Sonoro Records). Intrincado e bem amarrado, Flamingo exala vários aromas e cores em texturas e camadas de guitarras, ruídos, piano e sax, numa combinação musicalmente entorpecente onde até as microfonias são maliciosamente planejadas. Para saber os mínimos detalhes de como essa nova banda se formou, o Urbanaque ouviu as idéias do “cérebro” do Capim Maluco, Rafael Laguna.

URBANAQUE - O Capim Maluco tem uns bons anos de existência e já teve diversas formações. Como surgiu a banda? O Capim surgiu quando em 99/00 me reuni com mais três amigos (Evandro Castorino, Eugênio Jorge e Fernando Pacheco) pra fazer um som em Paraguaçu Paulista, onde eu morava. Logo conseguimos um show, e como já tinha escrito algumas músicas, incluímos no repertório pra termos músicas próprias e mostrar pra galera, o que na época era meio inusitado pra aqueles lados, pois todas ou 99% das bandas de rock só tocavam “covers” de bandas de clássicos internacionais e nós queríamos fazer algo diferente do que rolava por lá. E pra completar não tínhamos baixista, eram só duas guitarras, vocal e bateria, com a gente se revezando. Foram shows intensos, num barzinho minúsculo naquele inverno de 2000. Depois de um ano e pouco com essa formação, fui fazer faculdade em Araçatuba e levei o nome Capim Maluco, que acabou ficando só comigo. Tocava com quem estivesse por perto em shows esporádicos - como ainda é hoje (risos) - e acabei gravando praticamente tudo, em janeiro 2002, numa demo com 5 músicas. Chamei um amigo, Eduardo Rorato, que tocava numa banda alternativa de Paraguaçu, o Damnllow - que o Sr.Calasans deve conhecer (risos). Larguei a faculdade e voltei pra Paraguaçu em 2002, quando comecei a levar o Capim mais a sério e logo me mudei para São Paulo no final de 2003 depois de vir tocar num festival meio “furada”, mas que serviu de termômetro pra ver a reação das pessoas com o som do Capim. E não podia ter sido melhor!!! Nesse festival, conheci o Carlos “Blinque” e o Alê Manso ( hoje donos do Objeto Sonoro Records, selo que lançou o Capim,) que na ocasião estavam tocando com o Huaska, banda que eles tem até hoje. Então, como conheci pessoas bem bacanas e fui bem muito recebido resolvi ficar e tentar a sorte.

Flamingo contém uma mistura de canções inéditas e outras que já haviam sido gravadas em versões demo. Como foi o processo de composição das músicas? Esse disco contém músicas de todas as fases do Capim, desde que comecei a pensar em gravar um disco que seria, digamos assim, “definitivo”, sabia que aquele material, mesmo que mais antigo, estaria presente, pois representa muito do que é o som da banda. A “Revolta do Vizinho”, por exemplo, é uma que compus quando tinha 18 anos, e no disco tem a participação do Serginho Serra (Ultraje a Rigor). Isso pra mim ainda é meio surreal! O rumo e a proporção que as coisas foram tomando, elevando a arte para um outro nível, como o solo de sax do Márcio Negri em “Fííí”, para citar uma mais recente. Então penso que as músicas foram se lapidando conforme eu fui evoluindo como músico, compositor e guitarrista. Por isso é um disco bem amarrado, coeso, tem seu universo próprio e quando foi gravado as idéias já estavam bem amadurecidas na minha cabeça. O “Blinque” e Alê Manso souberam ainda passar isso para se chegar a um belo disco de rock, ao meu ver. Tem peso, energia, melodias simples e interessantes,bons riffs de guitarra e é, enfim, intenso.

A terceira faixa “Fííí” é uma forma de expressão bastante comum no interior paulista, uma corruptela de "filho". O fato de o grupo ter surgido no interior tem alguma influência no som do CM? Tudo influenciou o som Capim de certa forma: a cidade, os amigos o acesso de informação que tínhamos na época,mas por morarmos no interior será que faríamos um som mais calmo ou puramente rural? Não! Foi exatamente o contrário. Gosto desse caos sonoro das bandas que fizeram minha cabeça desde pequeno e isso foi inevitável transferir pro som do Capim, que fica bem claro em “Lago-seco”, aquelasimersões em caos e peso, alternados com calmaria e sutileza. Quanto à fonética de “Fííí”, acabou resgatando mesmo esse ar interiorano. É bem bacana quando se adapta algo, ou no caso uma “expressão” normalmente usada no cotidiano para uma música. Isso a aproxima das pessoas mesmo com o tema delicado que a letra se refere. Quebra o gelo!

Apesar de bem humoradas, as faixas “Fííí” e “Revolta do Vizinho” são bastante explícitas. Além disso, o nome da banda é perniciosamente sugestivo. Como o público que comparece aos shows tem reagido diante dessas características? Tem gente que ainda se choca ao se deparar com essa postura “transgressora”? Você vê que não precisa se esforçar muito pra causar uma certa reação nas pessoas (risos). O público sempre reagiu muito bem à postura da banda. Quem gosta de rock e vê a banda ao vivo nunca deixa de vir conversar e agradecer depois dos shows! Sempre tem aqueles que ficam intrigados, dizem coisas do tipo “Como é que eles fazem uma música tão bonitinha como “O que é bom” e depois escracham tudo em “Fííí” ou “Endoidar?!” Com relação às citações sobre as drogas chamadas “ilícitas”, em algumas letras pra mim nunca foi tabu. É uma questão social complicada e que causa furor sempre que a discussão vem à tona. Falam da violência que o tráfico gera. Mas é um lance meio que proporcional às avessas. No caso, essas músicas são sintomáticas. Se eu, em pleno 2008 às vezes sou discriminado apenas pelo nome da minha banda, é que muita coisa ainda tem que ser conversada pra evoluir um pouco só o pensamento da sociedade. Mas dar instrução para as pessoas é “perigoso” e com certeza não é o interesse da minoria que está por trás no poder. Enfim, quando fundamos a banda só queríamos “aporrinhar” uma pequena sociedade “pseudo-aristocrática”de 40.000 habitantes. Não imaginava que a banda ia durar mais que alguns shows (risos), então tento não focar a atenção da banda só nisso. Penso que a “transgressão” maior é estar com o Capim Maluco até hoje, o mesmo nome, não ter se perdido no meio do caminho, não ter escutado nada do que me falaram quando decidi largar a faculdade por causa da banda.

Como rolou a participação de Sérgio Serra do Ultraje a Rigor em Flamingo? Voces já se conheciam? Conheci o Serginho em 2004 num show de amigos que temos em comum, no bar Sarajevo. Ele também dividiu casa com eles mais o baixista do Capim, Rodrigo Mazza e como eu estava sempre por lá. Bom, sei que no fim eu e Serginho ficamos bem amigos e ele tinha participado de dois shows do Capim aqui em S.P ainda. Rovala uma admiração mútua pelo trabalho e então a participação no disco foi meio que espontânea. O estilo dele de tocar guitarra é bem agressivo, marginal!!O cara inventou o riff de “Sexo”! Ter ele gravando com a gente no home-estúdio do “Blinque”, “chapando” junto, ver o cachorro brincando com o pé do Sérginho enquanto pisava no pedal de Wah-wah durante a gravação do solo são cenas inesquecíveis que com certeza vou guardar pro resto da minha vida.


Capim Maluco - "As moscas"



Há planos de produzir mais clipes além de “As moscas”? Com certeza! Temos por enquanto mais dois projetos em andamento, só não sei quando nem quais músicas ao certo serão as próximas a ir pro vídeo. O Daniel Akashi (Ecos Falsos) fez e nos deu de presente o vídeo de “As moscas” e o de “Endoidar” que já está rodando por aí. É o primeiro clipe oficial da banda! É uma animação feita pelos colegas da ÍNDICE DESIGN, numa idéia de stop-motion feito sobre um rolo de papel kraft com interação de vários objetos, coisas e pessoas. O resultado ficou bem interessante. Pra quem quiser conferir:


Capim Maluco - Endoidar



Quais são os próximos passos do CM? Você está envolvido em algum outro projeto? No Capim tudo pode acontecer (risos)! O que mais pensamos agora é em tocar. Temos muitos lugares ainda pra conhecer e sei que querem ver nosso show. O Guga (também baterista no Zefirina Bomba) acabou de entrar pra banda e estamos muito animados com essa nova formação. Os shows têm sido ótimos e vão ficar ainda melhores!Já tenho músicas prontas que poderão entrar no próximo disco, mas não estão no repertório ao vivo da banda, pelo menos por enquanto. O “Flamingo” praticamente acabou de ser lançado e ainda tem muito a ser digerido. Basicamente vamos lançar mais clipes com boas idéias e baixo orçamento, participar de uma coletânea. Eu tenho ainda que conciliar o Capim com dois outros projetos com amigos de outras bandas (Jazzblaster, Zefirina Bomba, Ecos Falsos, ICD, Those Fabulous Dirty Tales, uma galera!) onde participo tocando guitarra: o Orange Disaster, que está gravando um EP e o Your Ass on Fire, projeto paralelo de Davi Rodriguez (Ecos Falsos) que conta também com a bela e delicada voz de Sophia Reis, atriz e “VJ” da MTV Brasil.

Para as crianças e\ou menores de idade que porventura escutarem Flamingo, há alguma restrição ou recomendação? (risos) Este disco é proibido para menores!!! Pelo amor de Deus, senão você me complica!!! (risos)



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