Da Tristeza* Para o Mundo
por MARIÂNGELA CARVALHO
A tristeza do blues, o blues da tristeza. Nem tão tristes assim foram ou são os homens do blues, muitos se fazem tristes pela condição extremista que a música requer - cantar sem sentimento é coisa para os outros, não para eles. Recém apaixonada por esta vertente, ressalvas muito pessoais a Robert Johnson, bluesman das antigas, dos anos trinta, só do violão, da voz e das batidas ritmadas dos pés, da história peculiar, dos avós escravos, do pai fazendeiro, do início na gaita, da veia mais pulsante de todos os sangues negros.

A música marcada por mulheres, numa controvérsia perfeita onde ele não tinha problemas com elas, somente o de se manter longe de suas maiores inspirações. Casado com a dona de seus sonhos de apenas dezesseis anos, Robert Johnson já era viúvo aos 29. Ponto nevrálgico de sua carreira, a morte da esposa levou Johnson a procurar outras ocupações - sabidamente, a música, perversamente as mulheres e o álcool. Ike Zinnerman foi seu mentor e chefe, companhia noturna e enciclopédia musical, influência das melhores e mais poderosas. Zinnerman que afirmava ter aprendido tocar violão durante as madrugadas sentado em túmulos, ganhou em Johnson um seguidor fiel, um aluno exemplar que passava noites interessado em aprender tudo o que se podia aprender sobre violões, como fazer e, principalmente, ser música.

Compenetrado e persistente, Robert Johnson carregava um caderno para escrever suas letras e tocava a mesma coisa até conseguir chegar ao resultado esperado. Obediência musical, respeito por sua própria natureza e uma peculiaridade digna de poucos, faz dele um dos precursores, um dos melhores, grande influência para muitos - de Stones a Chili Peppers. Ele era capaz de começar a tocar para um pequeno público nos sábados à tarde e só parar no domingo à noite, às vezes acompanhado de Ike ou algum de seus outros homens-do-blues ou sozinho, com seu violão. Por outro lado, o lado sujo da coisa, Johnson não foi necessariamente respeitado, era homem pequeno, franzino, de longos dedos delicados e ingenuidade humana absurda, porém muito bem recompensado por sua genialidade musical.

Após algumas desgraças, típicas na vida de todos os grandes nomes, "R.L.", como gostava de ser chamado (as inicias de seu nome de nascimento, Johnson Leroy, mas também de Robert Lonnie, um de seus ídolos, ao qual gostava de se comparar), se instalou em Helena, no Arkansas, arrumou outra mulher, que o amava e tratava com muito cuidado, passou a visitar amigos e família, tocar em cidades vizinhas com grandes nomes e instruir o filho de sua mulher, que se mostrava altamente apto ao mundo no qual ele vivia.
Foto: Divulgação

Uma vez sendo influenciado e treinado, Johnson passou a ser o tutor. Passou a tocar em lugares tão pequenos, cidades que nem sequer tinham nomes, mas sua fama já tinha alcançado um esplendor tão glorioso que seu público comparecia somente pela diversão ou pela tristeza*. Vivido e bastante esperto, Robert Johnson jamais ensinava ou contava como tocar suas músicas, em vista de não passar seus maiores segredos à frente e também seu ganha-pão. Quando perguntado sobre como conseguia tocar qualquer coisa, a resposta mecânica era " Exatamente como você." Casos com mulheres e bebidas fizeram de Johnson um humilde gênio, que, sóbrio, adquiria um espírito pensativo, temperamental e excêntrico. Numa dessas combinações dos dois elementos, o homem se deu mal, acabou se envolvendo com a mulher errada, que tinha um marido mais errado ainda. Envenenamento para Mr. Robert Johnson, numa ocasional dose de whisky com estricnina, contraindo pneumonia após isso, ele morreu em 1938, onde se aplica da melhor maneira o slogan "Live fast. Die young."

Rumores de que ele teria vendido a alma para tocar do jeito como fazia, o que nos resta é agradecer àqueles que nos apresentam e introduzem às tristezas* da vida. Impossível ouvir o bom-rapaz e manter os pés e pernas ilesos de movimentos ritmados. Impossível ouvir alguém (de olhos fechados) como Jeff Buckley cantando "Be Your Husband" e não imaginar um Johnson mais novo, mais branco e mesmo assim triste do jeito que algumas vidas pedem.

Cante a (à) tristeza*.

* Joguinho de palavras, o blues é a tristeza, mas a tristeza não é o blues. Tanto um quanto o outro são cabíveis no texto em seus mais amplos significados.