O “Homem-espuma” diluído nas FMs
por BRUNO DIAS
(SÃO PAULO/SP) - “Eu preciso salvar o mundo, mesmo que não ganhe nada com isso não”, grita Felipe S. em “Realismo Convincente”, quarta música do mais novo disco da Mombojó, “Homem-espuma”. Salvar o mundo eu acredito que esses rapazes de Recife (PE) não vão conseguir. Mas salvar a qualidade das músicas tocadas nas FMs do Brasil estão perto de realizar.

Depois de lançar o elogiado “Nadadenovo” de forma independente, eles chamaram a atenção da gravadora Trama que resolveu investir. E mesmo que não se torne “O mais vendido”, com certeza “Homem-espuma” vai chegar ao seu ouvido. “Agora temos uma estrutura que dá um suporte maior. Principalmente nessa questão do lançamento. Imprensa, o estúdio para gravação, todo mundo, todos os artistas têm acesso ao estúdio. A Trama tem um trabalho um pouco diferente das outras [gravadoras]. Ela é bem pé no chão. Já se foi o tempo que artistas tinham regalias. E a gente acaba trabalhando mesmo em um esquema de parceria”, explica o tecladista Chiquinho.

“Homem-espuma” é um típico disco da Mombojó, estão presentes o vocal suave de Felipe S.; os instrumentos de sopro com predominância das flautas; os momentos de guitarras enfurecidas; e elementos eletrônicos - esses melhor colocados do que em “Nadadenovo”. “Esse disco foi gravado em outro sistema, a gente gravou na Trama. Tiveram bem menos interferências do computador como meio de edição. Acho que isso acaba deixando mais na cara os nossos erros e acertos, mais natural. Também acho que as nossas influências estão mais diluídas que no primeiro disco, deixando o trabalho mais com a cara da gente. É um disco muito mais Mombojó do que o primeiro”, afirma Chiquinho.

Em algumas músicas os “meninos” da Mombojó contaram com ótimas participações especiais, vindas em seqüência. Na já citada “Realismo Convincente”, Felipe ganha a ajuda dos gritos de Daniel Belleza, além de dividir os vocais com o ilustre Tom Zé recitando versos de “Tô” – faixa do clássico “Estudando o Samba”. “Tempo de carne e osso” contou com o vocal delicado da cantora paulista Céu, perfeitamente combinado com a voz de Felipe. Já “Swinga”, pode ser facilmente desmembrada - os primeiros dois minutos uma típica música da Mombojó e no minuto restante, Fernando Catatau a transforma em Cidadão Instigado com seus sintetizadores e solos de guitarra, que contaram ainda com os scratches do Dj Marcelinho.

Fotos: Eduardo Queiroga

A evolução musical da Mombojó também pode ser atribuída ao excelente trabalho dos experientes produtores do cd – Daniel Ganjamen (Instituto) e Lúcio Maia (Nação Zumbi). Isso porque a intenção da banda era contar com mais dois outros produtores – Kassin (Los Hermanos e Acabou La Tequila) e Pupilo (Nação Zumbi).

Por telefone conversamos com o tecladista Chiquinho que falou mais um pouco sobre a produção de “Homem-espuma”; a experiência de gravar com Tom Zé; e os shows que a banda já fez pelo Brasil e Europa.

Urbanaque - Nesse disco ficou mais claro que a banda criou uma identidade.

Chiquinho - Com certeza. É até normal o primeiro disco ser comparado com o que vem antes. Nesse disco novo a gente se compara com nós mesmos. Uma evolução natural.

Urbanaque - Isso se deve ao trabalho dos produtores do disco, Daniel Ganjamen [Instituto] e Lúcio Maia [Nação Zumbi]? Eles contribuíram para que vocês chegassem a essa identidade?

Chiquinho - Assim, nós chegamos com as músicas meio prontas na verdade. Para a produção no Mombojó os produtores tiveram um papel de dar uma arrebentada na cara. Nós somos sete músicos com 11 instrumentos que não se repetem. Aí, às vezes você tem que ter uma visão de fora para dar uma revisada nas coisas. Porque a gente tinha uma idéia na cabeça, mas não tínhamos a experiência de estúdio que o Ganja tem, que Lúcio tem - lá dentro da Trama ele já gravou dois discos. E às vezes eles conseguem indicar o caminho mais fácil. Deram uma força tremenda.

Urbanaque - Vocês chegaram a procurar o Kassin [produtor dos últimos trabalhos do Los Hermanos] para produzir o disco?

Chiquinho - Na verdade eu gosto muito dessa idéia de dividir o disco, não gosto da idéia de ter o disco na mão de uma só pessoa. Na verdade o ideal pra gente, quando pensamos em fazer o disco, era usar quatro produtores - Lúcio, Ganja, Kassin e Pupilo [Nação Zumbi]. Mas isso acabou sendo meio inviável, envolvia um custo muito grande. Cada um tem sua agenda, e na verdade acabamos ficando com o que estava acessível no momento. Kassin é do Rio, e a gente ia gravar em São Paulo e acabou não dando certo, mas no futuro ainda pretendemos trabalhar juntos.

Urbanaque - O teclado Hammomd é bastante usado nas músicas. Parece que ele é uma escolha pessoal sua. E na gravação desse disco deu pra usar realmente esse teclado?

Chiquinho - Na verdade eu gravei com ele no estúdio da YB. Foi massa, porque eu acabei usando tudo o que eu tinha em mente no estúdio da Trama mesmo - mini moog, uns pianos, porque no primeiro disco eu usei tudo emulador e lá eu pude usar as coisas de verdade. E essa história do Hammomd é meio que culpa do Del Rey, projeto que temos com o China. Por ali é Lafayette total.

Urbanaque - O nome do disco, “Homem-espuma”, foi escolhido em uma votação na comunidade da Mombojó no Orkut. Como foi isso?

Chiquinho - A gente soltou essa idéia na comunidade. Mas esse já era o nome que tínhamos em mente na verdade.

Urbanaque - Alguém chegou a sugerir “Homem-espuma” lá?

Chiquinho - Acho que alguém que trabalha com a gente que sugeriu esse nome na comunidade. Acabou que, querendo ou não, o Orkut, a Internet, pra nós, são uns termômetros massa. A gente até gosta de saber o que as pessoas estão achando das coisas que fazemos. Esta história do nome, no fim, acabou vindo mesmo da gente. Foi o primeiro nome que nós pensamos, esperamos pra ver outras sugestões, mas acabou ficando esse mesmo, que é nome de uma das músicas.

Urbanaque - Como fica a questão do Creative Commons agora na Trama? Vai dar pra disponibilizar o cd todo pra download?

Chiquinho - Já era pra estar, pra falar a verdade. Tivemos um problema no site. Não queríamos disponibilizar o disco no site antigo. Já era pra estar pra download há muito tempo.

Urbanaque - Mas ele vai ser disponibilizado?

Chiquinho - Uma das condições para que assinássemos com a Trama foi isso. Eles têm se mostrado muito abertos a essas novas mídias.

Urbanaque - A Trama é uma das gravadoras que mais investem nesse tipo de coisa...

Chiquinho - Não sei como a música vai se comportar daqui pra frente. Como que as gravadoras vão conseguir ganhar dinheiro em cima disso. Mas acho que a Trama está bem à frente.

Urbanaque - Como rolaram os convites para as participações do cd novo? Como que vocês chegaram a esses nomes?

Chiquinho - Na verdade, de início acabou sendo uma coisa casual. Como no primeiro disco, que acabou tendo participações de gente que estava aqui em Recife, pessoal mais próximo. Em São Paulo foi bem parecido. Céu foi indicação de Lúcio, eu já tinha participado de outro projeto com ela. Nós precisávamos de uma voz feminina e a voz dela ficou perfeita. [Fernando] Catatau, a gente é bem fã dele. E queríamos que ele participasse de alguma forma no disco. E acabou que ele ficou como co-autor de uma música [“Swinga”], ele gravou no final da música.

Urbanaque - Mesmo sem ter acesso ao encarte do cd dá pra perceber o dedo dele na música.

Chiquinho - Ele fez tudo na verdade, gravou bateria eletrônica, teclado, baixo e guitarra. Era o que ele queria. Deixamos o Catatau bem livre. No final acabou que ficou um pedaço dele.

Urbanaque - Ficou metade Mombojó metade Cidadão Instigado...

Chiquinho - Exatamente.

Urbanaque - Como foi gravar com Tom Zé?

Chiquinho - Na música a gente sempre fazia essa associação com o trabalho dele, do “Estudando o Samba”. No dia de gravar a gente tava meio que desistindo. Aí um belo dia ele aparece na Trama pra uma reunião e a gente foi lá falar com ele. Tom Zé foi extremamente solícito, topou na hora. Aí de alguma forma ele teria que entrar na história. E querendo ou não é Tom Zé, né? Um marco da música, uma grande honra. E [Daniel] Belleza é amigo da gente, se precisar de alguém pra gritar é só chamá-lo. (rs)

Urbanaque – Quando eu ouvi a música pensei: “Não pode ser Tom Zé gritando desse jeito!”

Chiquinho - Dueto Daniel Belleza e Tom Zé, né?

Urbanaque - Como estão rolando os shows? Vocês fizeram São Paulo, Belo Horizonte, depois vão pro Rio de Janeiro...

Chiquinho - Nós fizemos no Sul também, em Porto Alegre, na festa do Trama Universitário. Aí vamos fazer Rio agora, depois voltaremos à Recife porque vai começar a Copa do Mundo. Depois disso vamos começar a marcar os shows, vamos fazer Nordeste.

Urbanaque - Depois da Copa do Mundo, já tem alguma coisa fechada?

Chiquinho - Ainda não, mas em julho queremos passar mais um tempo aí em São Paulo. Porque é mais fácil de trabalhar estando por aí. Queremos rodar pelo país, tocar em lugares que ainda não conhecemos.

Urbanaque - O fato de ter assinado com a Trama facilita na hora de marcar shows?

Chiquinho - A produção de shows é com a gente mesmo. A Trama não tem nada a ver com isso. Eles ajudaram mais a gente na parte de divulgação. A Trama já tem seus caminhos na imprensa. E com a imprensa falando faz a gente chegar mais longe. E sei lá, a gente quer fazer mais shows e queremos tocar em Recife, onde não tocamos ainda. Queremos dar um tratamento especial à Recife.

Urbanaque - Como o pessoal tem recebido as músicas novas nos shows? Qual o repertório que vocês estão apresentando?

Chiquinho - Estamos apresentando um misto, dando prioridade ao disco novo. O que gostamos é de tocar músicas novas. A opção da gente é sempre tentar fazer um misto, mas predominando as músicas novas. E está bem bacana, comparado com o primeiro, está chegando mais rápido na mão do povo. Na verdade ainda não tem oficialmente no site, mas o pessoal tem baixado em outros lugares.

Urbanaque - Vocês estão ou estavam com algumas datas na Europa?

Chiquinho - A gente já fez Europa antes desses shows. Foram quatro shows, dois na Espanha e dois em Portugal. Foi no final de Abril, e acabou que foi um ensaio para os shows aqui do Brasil. Como somos bem desconhecidos lá na Europa, meio que tanto fez tocar músicas novas ou velhas. A gente aproveitou e experimentou bastante. Foi bem bacana.

Urbanaque - Além de um novo disco, nesse meio tempo vocês gravaram uma música pro Tributo ao Odair José. Vocês gravaram “Ela Voltou Diferente”. A escolha partiu da banda ou foi o pessoal do Tributo quem sugeriu?

Chiquinho - Eles deixaram a gente bem livre pra escolher. Era foda porque acontecia da gente falar que queríamos gravar uma música e alguém já tinha escolhido. Ou falavam “essa não pode, porque não é dele”. E foi uma lista até bater nessa que foi bacana.

Urbanaque - E qual a influência do Odair José no som da Mombojó?

Chiquinho - Fica meio que no subconsciente. Acaba que o pai ou mãe da gente ouvia na rádio. Todas as músicas dele você sempre tem a impressão de já ter escutado. Roberto Carlos também é bem assim.