PONTO.CE FESTIVAL 2006
por George Belasco, especial para o Urbanaque.
Com um ponto se define. É possível afirmar e travar um diálogo. O ponto também pode excluir e, sendo exclamação, dar ênfase a frases cruéis e preconceitos infundados. Num festival que tem como intuito dar representatividade ao circuito rocker cearense que, se peca por permanecer soterrado numa cidade aonde o ritmo predominante é o forró, tem como mérito o acinte de parir boas bandas e renovar-se periodicamente. Assim foi na primeira edição do PONTO.CE Festival 2006, que aconteceu nos dias 4 e 5 de agosto em Fortaleza/CE.

Trazendo dez grupos de Fortaleza e quatro "de expressão nacional" (Dead Fish, Ludov, Forgotten Boys e Additive), reuniu cerca de 4 mil pessoas na Praça Verde do Centro Cultural Dragão do Mar, situado na Praia de Iracema. Foram pinçadas bandas de estilos variados para dar um panorama do que acontece no rock atualmente. Com um certo delay em relação a outros estados, tipo Goiás e Rio Grande do Norte, o Ceará finalmente adquiriu um evento independente multifacetado. A saber, Fortaleza possui um festival com quase dez anos chamado Forcaos, mas que permanece como um pato feio por ter sido criado fundalmentamente por bandas de heavy metal. O Ponto.CE nasceu mais pop e, desde já, abraçado com o público jovem que assiste MTV e seu rival estadual intitulado TV União. Este último ajudou bastante ao veicular inserts na sua programação com ensaios das bandas, entrevistas e videoclipes. O tipo de coisa que só ajuda a formar público e aumentar a relevância do evento.

A segunda edição já foi confirmada antes mesmo do balanço final do Festival por Rafael Bandeira, um dos organizadores do Ponto.CE e sócio do Hey Ho Rock Bar. "Claro que vamos fazer outro! Nem que seja no peito e na raça", afirmou o produtor.

[4/AGO - Primeiro dia]Certamente o dia de maior público. Cerca de dois mil pagantes chegaram na Praça Verde para ver o hardcore do Dead Fish. Quem se prontificou a chegar no horário marcado (19h) se deparou com os portões fechados e um incessante vai-e-vem de freezers, cervejas e com a passagem de som do Dead Fish. "A Coelce (concessionária de luz do Ceará) nos deu um atraso de duas horas e meia. Ficou tudo pra ser terminado na pressa", justifica-se Bebeco, dono do Hey Ho Rock Bar. "Hoje fomos ao DECOM com nosso advogado e segunda-feira entraremos com um processo".

21h - Banda 9MM | Ironicamente, um festival como o Ponto.CE começou com um cover do Rappa. A banda 9MM chamou para frente do palco uns poucos que foram prestigiar o seu som. Apesar de falar de música autoral e da periferia, as canções próprias do grupo falavam de baladas na Praia de Iracema e de um Ceará que só existe no Fantástico. A banda só impressionou ao dar uma cara Planet Hemp para Sossego, do Tim Maia e Homem-Bomba, de novo do Rappa.

Fotos: Richarley Menescal
Ludov
21h50 - Monophone | Formada a partir de músicos experientes e produtores conhecidos de Fortaleza, a Monophone trouxe o primeiro lampejo pop para o Dragão do Mar. As músicas bem estruturadas e de letras certeiras agradaram pouco o público de franja e munhequeira que começava a chegar.

22h - O Sonso | Já acostumado a vê-los na grade de programação da TV União e com boa quantidade de fãs, o público ensaiou passinhos e recebeu bem O Sonso. Um show bem ensaiado e que oscila entre a MPB e o pop rock sem deixar a bola cair, mostrou que a banda tem um futuro promissor. O único porém da apresentação esteve na equalização do teclado, que ficou soterrado pela guitarra e transformou-se num elemento decorativo.

22h50 - Radio Ilusión | De longe o melhor show da noite. Talvez a única banda do estado a tocar ska. Ora cantando em português, ora em inglês, a Rádio Ilusión acertou em cheio o espírito da platéia. Guitarras pontuais, naipe de metais, pulos no palco e uma versão improvável e bem particular para Walk of Life, do Dire Straits, levaram os xiitas fãs de hardcore a se soltarem e transformarem a frente do palco numa pista de dança. Massa.

23h30 - 2FUZZ | Com dois discos, shows pelo Brasil e pela França e muita bagagem musical, o quarteto 2FUZZ fez um show ultra competente. A banda, apesar de ter um séqüito fiel de fãs, amargava um certo desprezo de outros grupos por fazer músicas em inglês e ter uma sonoridade meio, er, grunge. Deixando estas coisas para trás e com um novo guitarrista, o grupo mostrou um som mais animado e conciso. Infelizmente as canções de "Limen", o novo disco, não foram suficientes pra manter o entusiasmo do show anterior. O público arrefeceu e resolveu esperar pela próxima atração.

00h40 - Forgotten Boys (SP) | Quem ainda estava do lado de fora esperando o tempo passar correu ao ouvir o anúncio da penúltima banda. O Forgotten Boys, que tocou na cidade há alguns meses, criou rodas de pogo e mosh pit com seu punk hard-rock. Mostrando as canções de "Stand By the D.A.N.C.E" e de seus outros discos, os paulistanos fizeram uma apresentação que só não foi melhor por alguns problemas com o mosh pit. Alguns garotos queriam chamar mais atenção do que a banda e atrapalharam a performance do Forgotten.

02h - Dead Fish (ES) | O ponto alto da noite havia chegado. Centenas de adolescentes, rapazes e a própria produção do evento se esbaldou no show dos capixabas do Dead Fish. Tocando pela quinta vez na cidade, o grupo espanta ao vivo. O som, operado por um ex-integrante do Korzus, é estupidamente alto e deixa no chinelo qualquer disco lançado até agora pela banda. A apresentação não desce em momento algum o ritmo e só fez concessões para impedir algum acidente na frente do palco. Não deu. Um garoto quebrou o braço ao tentar um pulo imprudente, mas isto em nada atrapalhou o Dead Fish. Tal qual uma locomotiva ladeira abaixo, a apresentação atropelou todos quando foram executadas as canções do disco "Zero e Um". Destaque para a canção "Modificar", cantada em uníssono pela platéia. Três e meia da manhã o público se despediu da primeira noite do Ponto.CE e do Dead Fish. Ufa!

[5/AGO - Último dia]
Parecia que a noite não tinha passado de um pesadelo sonoro. Os ouvidos ainda zumbiam com tanta pressão e todos acreditavam que a noite seria mais tranqüila. Assim o foi, mas não menos divertida. O segundo e último dia do Festival Ponto.CE trouxe um público menor à enorme Praça Verde do Dragão do Mar, mas com uma tolerância maior às diferenças. Com chamadas ao vivo do local, a TV União incentivou os indecisos que não tinham programa para a noite de sábado e, assim como na noite anterior, ofereceu vários videoclipes legais nos dois telões que ficavam nas laterais do palco. Foi muito mais interessante que os discos sem noção que normalmente rolam nos PAs, sempre trazidos por algum Técnico de Som.

19h30 - Et Circenses | Sem maiores atrasos, o Et Circenses teve a ingrata missão de abrir a noite. A apresentação foi consistente e deu a certeza de que este grupo, antes uma banda cover em festas universitárias, está no caminho certo ao fundir temas circenses, rock setentista e chanson francesa.

20h10 - Plastique Noir | Munidos de uma drum machine, músicas macabras e um vocal cavernoso, a Plastique Noir foi o destaque local da noite. O gothic rock/darkwave feita pelos rapazes impressiona mais pela qualidade das canções que pela originalidade. Mas já que o rock é um gênero derivativo, quem há de censurar este que é, desde já, o maior grupo de darkwave do norte/nordeste? Airton Nepomuceno e sua trupe, que acabaram de gravar o disco "Urban Réquiens", estão de malas prontas para uma série de shows na capital paulista e certamente não farão feio na cidade cinza. Este show provou isso.

21h - Capones | Puque roque bubblegum com um naipe de metais. Músicas grudentas até a raiz, mas sem vínculo formal com o ska, fizeram a festa do público no show do Capones. Com 7 anos de formação, o grupo trouxe o público pra frente do palco e desfiou canções como Não Bebo Porque É Rosa para alegria dos presentes. Uma apresentação bem despojada que contou com as estripulias do baterista Roger, um dos melhores no gênero, atrás do seu kit ou pulando pelo palco.

21h50 - Triarchy | Ainda está para aparecer alguém que explique o motivo desta banda ter entrado na programação. Uma apresentação robótica e fraca do Triarchy deixou no ar a impressão de que eles não estavam em sintonia. Melhor sorte na próxima.

22h40 - Switch Stance | O vocalista da Switch Sance, Maurílio Fernandes, foi o cara que fundou a Empire Records e que, ao lado do Hey Ho Rock Bar, tornou possível a realização do festival. Se fosse apenas por isso, sua banda já teria lugar garantido, mas o fato é que o grupo é uma referência no hardcore local e, com três discos e vários videoclipes lançados, arregimenta uma legião de fãs. Refeito do susto causado pela banda anterior, o público compareceu uniformizado, com faixas e dando gritinhos no microfone. A despeito do que se diga, o hardcore melódico do Switch Stance ainda tem pano pra manga. Destaque para as músicas Aquela Estrada e O Mágico e para o mosh surreal dado por Maurílio antes de Sempre Sincero.

00h - Additive (SP) | Mais hardcore? Sim, mas dessa vez egresso da cidade de São Paulo. Problemas de equalização sérios marcaram o show do Additive e deixaram a impressão de que a banda estava fora de sintonia. Show meramente regular e que chamou mais a atenção pela quantidade de garotas que cantavam as canções e tentavam se jogar do palco.

01h - Ludov (SP) | Repleto de carisma e contando com músicas que trazem um sorriso no canto da boca, o Ludov fechou o Festival Ponto.CE com chave de ouro. Deu vontade de que houvesse um terceiro dia. As músicas do disco "Exército das Pequenas Coisas" funcionam muito bem ao vivo e, apesar da mudança recente de baixista, a banda fez um show muito coeso. Como quase todas as bandas fizeram cover durante o evento, o Ludov não deixou Fortaleza ficar sem uma providencial versão de Top Top, do Mutantes. Aproveitando a passagem pelo nordeste, eles fizeram o teste de uma música nova chamada Ciência. Ela entrará no próximo trabalho dos paulistanos, a ser lançado ano que vem? "Provavelmente sim", entregou a vocalista Vanessa pelo microfone. Um fato curioso é que, em todas as outras apresentações os fãs tentam pular ou correr pelo palco ensandecidos, mas os do Ludov querem mesmo é tascar beijocas. Quem explica isso? A canção Dois a Rodar, sucesso na TV União, chamou a atenção pela quantidade de grupos formados para... Rodar! Esses fãs do Ludov, além de muito amáveis, são muito felizes. A banda agradeceu várias vezes a alegria e recepção amável e encheu o palco com a equipe de produção para dar o adeus do Ponto.CE Festival 2006.