Batidas explícitas
por CIRILO DIAS
(SÃO PAULO/SP) - Não foi por falta de aviso. O anfitrião Zé do Caixão anunciou e rogou a praga, “eles fazem o som das pistas. Um som cheio de erotismo e que exala suor”. Mas a platéia insistiu em ficar e presenciar o segundo show do projeto Supernovas, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

Se a premissa de promover uma interação entre gerações não foi cumprida na semana passada, pela falta de sintonia entre um energético Los Porongas e um apático Dado Villa-Lobos, o show desta semana prometia no mínimo algo interessante entre os cearenses do Montage e Iggor Cavalera.

O ex-baterista do Sepultura , que já vem flertando com a música eletrônica com o projeto de electro MixHell (escalado para o Skol Beats desse ano), quase não tem a chance de emprestar suas baquetas ao electro-erótico do Montage. De acordo com o músico, o convite inicial foi para ele tocar com o Madame Saatan (PA), que se apresenta no dia 8 de maio com Pepeu Gomes.


Antes do show, a dúvida: Iggor faria um duo nas programações e batidas eletrônicas com Leco Jucá, ou iria acrescentar um peso mais do que extra com uma bateria de verdade? Do lado de fora do teatro, a resposta chegou em forma de som, ou melhor, de uma bateria sendo espancada com vontade.

A platéia lotou o teatro, em sua maioria por fãs do Montage, e alguns senhores e senhoras – que provavelmente devem ser freqüentadores assíduos de toda a programação cultural do CCBB. Foi apagar as luzes e surge o andrógino Daniel Peixoto, enfiado em um vestido de causar inveja a muita menininha que estava ali assistindo o show.

O mais impressionante do Montage é como eles conseguem deixar o palco pequeno. Enquanto Leco Jucá aperta os botões e programa seu Power Book fazendo caretas dignas de um guitarrista, o dono do instrumento de cordas, Maurício, fica em seu canto, tão à vontade, que parecia estar se divertindo com os amigos – e estava.
Fotos: Bruno Dias
Iggor Cavalera (fundo) em plena sintonia com o electro do Montage
Já Daniel Peixoto, após 22 minutos de berros, ataques epiléticos e muito sexo com o chão do palco, não agüentou e tirou a roupa, não toda como de habitual, ficou apenas de sunga. O suficiente para um casal levantar indignado e ir embora. Problema deles que não acreditaram no aviso do Zé do Caixão.

Iggor Cavalera é chamado para subir ao palco. Assume as baquetas, olha para Leco Jucá, olha para Daniel, dá um sinal de ok, e começa a sandice. A interação e sintonia entre Iggor e Montage é tamanha, que você fica torcendo pro ex-Sepultura se juntar à banda cearense. A energia acumulada no palco consegue incendiar ainda mais os ânimos de Daniel, que não se contém e sai pulando em direção ao público, que estraçalha as gargantas de tanto gritar e aplaudir. “Raio de fogo” ganhou um peso descomunal com uma bateria de verdade.

Mas o importante é que, agora sim, o projeto Supernovas conseguiu mostrar em menos de uma hora de show, que a tão anunciada interação entre gerações, pode garantir a todos, momentos únicos e especiais como foi o Montage com Iggor Cavalera.