São Paulo grunge
por LEONARDO DIAS PEREIRA
(SÃO PAULO/SP) - O aumento da temperatura na sexta-feira de uma semana que foi considerada uma das mais frias do ano não foi suficiente para que os grunges, tribo que faz aparições esporádicas por motivos óbvios, deixassem os seus casacos de flanela xadrez nos armários. Tudo para estar devidamente paramentado para ver a terceira aparição em terras brasilis da banda mais injustiçada do movimento que tomou de assalto o mundo da música no começo dos anos 90: os americanos do Mudhoney.

Ao contrário da última passagem, quando serviu de boi de piranha para os conterrâneos do Pearl Jam, o Mudhoney tocou em um local adequado para o tamanho da banda, no Clash Club, um galpão amplo com decoração rubro-negra sóbria, cravado na Barra Funda, que teve a sua capacidade-limite de mil pessoas atingida – na entrada uma placa de “Ingressos Esgotados” desanimava os retardatários.

Por volta de 22h15, a banda adentrou ao palco e assim que os primeiros acordes de “You Got It (Keep It Out of My Face)” foram ouvidos, a multidão iniciou um festival de crowd-surfing que perdurou por todo o show e em certos momentos nos remetiam à algum inferninho da Seattle dos anos 90. Em seguida, o hit “Suck You Dry” aumentou ainda mais o ânimo do público, a ponto de alguns malucos improvisarem um stage-diving de um amplificador, deixando a segurança aturdida. Aliás, um comentário a respeito do público se faz necessário: dava pra ver gente das mais diversas faixas etárias, desde pais acompanhando os filhos; adolescentes e pós-adolescentes que não tiveram a oportunidade de vivenciar a “experiência grunge”, mas desfilavam felizes da vida suas camisetas de todos os ícones de Seattle; até alguns tiozinhos.

Após o início acelerado, a banda apostou em músicas arrastadas, como “Where Is The Future” e “Sweet Young Thing A’int Sweet No More”, o que acabou dispersando um pouco a galera. Passado quase uma hora, a banda estendeu uma bandeira do Brasil com os dizeres “Superfuzz Bigmuff”, retribuindo a energia passada pelo público.
Fotos: Cirilo Dias
Mark Arm esquentando a voz
O hit “Touch Me I’m Sick”, como não poderia deixar de ser, foi entoado em uníssono, e “In ‘N’ Out of Grace” encerrou o primeiro bloco do show.

Ao voltarem para o bis, o baixista Guy Maddison soltou um “Vocês são foda” em português macarrônico, mas nem precisava disso: a noite já estava ganha. Dentre as seis músicas do primeiro bis, uma inédita: “New meaning”. A banda saiu novamente, e algumas pessoas começaram a evadir o Clube Clash. Porém, para surpresa de todos - principalmente de quem já tinha saído e não podia retornar - o Mudhoney retornou para um segundo bis de três músicas. "Here Comes Sickness" fechou a noite, deixando tanto a banda quanto os presentes satisfeitos e com a certeza de que durante quase duas horas, a Barra Funda foi um pedacinho de Seattle.