10 Anos de Festa no Porão (do Rock)
por Mariângela Carvalho
(ESPECIAL EM BRASÍLIA/DF) - O Porão do Rock, já consolidado há dez anos e de caráter internacional, mostrou porque recebe a alcunha de maior festival independente do país. Realizado nos dia 1 e 2 de junho em Brasília, o evento obteve sucesso de atrações e público misturando sabiamente atrações estrangeiras, locais, bandas novas de pequeno e médio porte, além de gigantes nacionais.

Com patrocínio da Petrobras e apoio do Ministério da Cultura e do Governo Federal, o festival desenvolveu algumas ações sociais como o Rock Contra Fome que conseguiu arrecadar mais de 10 mil toneladas de alimentos não-perecíveis a serem doados e outras como Use Música, campanha de prevenção às drogas que levou o slogan “não deixe a droga controlar sua vida” às 28 mil pessoas que passaram pelas arenas de shows e o Tudo Limpo no Porão, parceria da ONG Porão do Rock com o Serviço de Limpeza Urbana.

Com uma estrutura de palco, iluminação e telões para ninguém (ou apenas para os mais ranzinzas) botar defeito, o evento contou com um total de 26 bandas e tenda de djs para satisfazer um público fervoroso e na expectativa de comemorar os dez anos de Porão, que já prometia uma grande festa a cada banda confirmada. Apesar das inúmeras burocracias e alguns furos na produção, pode-se dizer que o festival cumpre com muita competência a função de desenvolver e sedimentar as novas produções musicais em plena capital brasileira.

Além disso, e bem longe daquilo que caracterizou Brasília como a capital nacional do rock lá nos velhos anos 80, o Porão do Rock trabalhou com toda uma nova geração de bandas (como o Galinha Preta, Linha de Frente, Lafusa, Supergalo, Móveis Coloniais de Acaju) que dialogam diretamente com um público de mesma idade. Afinal, até quando Brasília viveria de glórias passadas?

Fotos: Clausem fotografia
Lisa agita galera no Porão do Rock.
Mas se é para falar do rock, vamos lá.

1º dia: Um ave! às camisas pretas

Começando com certo atraso, quem fez as honras de abrir o festival foram os Garotos Podres (SP), ícones do punk nacional, que mereciam um melhor horário na programação. Com público ainda reduzido mas nem por isso frio, os Garotos Podres conseguiram entreter uma molecada com seus hinos de subversão, anti-capitalismo e podreiras. Abrindo com “Garotos Podres” e mandando uma sucessão de petardos barulhentos como “Anarquia”, “Vou Fazer Cocô”, “Johnny” e “Papai Noel”, o show foi só um esquenta para o que seguiria noite adentro: muito peso e rodas de pogo descontroladas.

Na seqüência o Allface (RN), uma mistura de peso, emoções e músicas cheias de melodia, segue o estilo emocore com a diferença de não ter chororô e com energia suficiente para deixar sua marca na garotada que já começava a lotar o estacionamento do estádio Mané Garrincha. Depois, o Linha de Frente (DF), adeptos do movimento straight-edge, mostraram um nu metal com hardcore guiado por três vocalistas que aproveitaram os microfones para discursar em prol das causas vegan. O Linha de Frente já fez turnê na Europa e foi uma das bandas classificadas durante as seletivas brasilienses do Porão do Rock.

No embate de nomes pioneiros do movimento punk de São Paulo, era a vez dos Inocentes (SP) subirem ao palco para mostrar um pouco de seus 26 anos pregando a filosofia punk do faça-você-mesmo. Apesar de na bagagem constarem mais de 15 discos, o grupo fez uma apresentação seca, puxada por seus maiores hits e culminando em “Pânico em São Paulo”, o suficiente para formar inúmeras rodas com muitos chutes, porradas e bate cabeça.

Já o Galinha Preta, conhecido nome dos locais, um grind-punk-core com samples de risadas maquiavélicas, discursos falastrões e a simpatia ácida do vocalista Frango, divertiram o público com muitas tosqueiras como uma paródia de “Jesus Cristo” (aquela do rei Roberto) e músicas cantadas em coro como “Roubaram o Meu Rim”, “AEIOU”, “Ego Humano”, “Devo e Não Pago”, além de uma música-homenagem a todos que dependem do transporte público caótico de Brasília. Representando o rock porreta de Goiânia, era hora do Mechanics destilar algumas das faixas de seu mais recente trabalho, Music for Anthropomorphics. Na apresentação, referências a Kiss com “War Machine”, bateria ora progressiva ora hard rock, inúmeros solos de guitarra e muita pose do vocalista Márcio Jr. Apesar de músicas rápidas, bons refrões e alto teor de stoner, o Mechanics não conseguiu a proeza de entreter os presentes, mesmo com ótimas faixas como “Cow”, sobre um caso amoroso entre um “elemento” e uma vaca, ou as trasheiras (sic.) “Sangue”, “Ódio e Vontade de Morrer” e “Second Circle”.

Para satisfazer a onda emo – já que Brasília conta com alguns casos bizarros de suicídio em shopping centers por moleques pejorativamente emos – o Dance of Days (SP), “precursores” do movimento emocore nacional e de qualidade que não se duvida, parecia estar em casa, em pleno Hangar 110, recebendo uma resposta incrível do público que, entre histeria e comoção, cantava a plenos pulmões os sucessos de 10 anos de estrada da banda. Talvez o maior grupo deste segmento no Brasil, o Dance of Days fez uma apresentação impecável que pegou de surpresa inclusive quem não esperava um show tão maduro, consciente e de eficiência sem igual. Já os argentinos Satan Dealers, apesar de serem uma das atrações importadas do Porão do Rock, foi recebido com frieza pelo público. Da geração proto punk calcada em referências como MC5, os argentinos até se esforçaram mas não conseguiram arrancar uivos nem muitas palmas. É arriscado dizer, mas talvez a melhor parte do show tenha sido a versão de “Bette Davis Eyes”, guiada por gaita e meia-lua.

Para provar que Brasília não tem somente uma boa nova safra de bandas e se responsabilize por ser berço de uma ótima geração do rock nacional, os locais Zamaster provaram que música tosca e ruim é feita em todos os lugares, apesar de contarem com um séqüito fiel de fãs e hinos locais como a nada saudável “Cerveja e Beck”. Para compensar, os gajos do Born A Lion (Portugal) subiram ao palco para mandar seu rock garageiro, com nuances de blues, stoner, Johnny Cash e Black Sabbath. Simpático, o trio português conseguiu chamar atenção com músicas de seu primeiro disco John Capitain e um trabalho instrumental minucioso por parte do vocalista/baterista Rodriguez em “Lonely Guy”, “My Black Horse” e “67 Cadillac”, tendo como ápice o slide-guitar de Melquiadez com participação no vocal de Fabrício Nobre (MQN) em “Holy Trap”.

Daí para frente, o Porão do Rock se incumbiu de levar ao público shows como Harllequin (DF), Tuatha de Danann (MG) e Angra (SP), muito aguardados pelos metaleiros de plantão e seguidores das vertentes do rock trabalhado ao extremo, cheio de classicismos e (por que não?) alguns unicórnios e outras figuras mitológicas superpovoando o primeiro dia das festividades brasilienses.

2º dia: Protetores de ouvido, por favor A segunda noite prometia uma sucessão de barulho, festa e som no talo. Já no primeiro show o público era bem maior que no dia anterior e começou com o rock de forte apelo pop e calcado na MPB feito pelo Lafusa, banda local formada em 2004 que criou seu próprio estilo, apadrinhado de “Fusiquê”. Bem novinhos, os integrantes mostraram carisma, harmonia e ligação forte com o público já dominado em shows anteriores da banda. Já o Macaco Bong (MT), que vem se consagrando em todo o território nacional fazendo-se presente em inúmeros festivais, pisou pela primeira vez nos palcos do Porão do Rock e conseguiu deixar atônitos alguns dos desavisados sobre o poder do trio instrumental. Num show mais técnico, detalhista e concentrado, os Bongs mostraram toda a virtuose da guitarra de Bruno Kayapy, a eficiente bateria de Ynaiã e a volta de Ney Hugo ao baixo. Se é que se pode dizer isso, o Macaco Bong é dos grupos mais sensuais nos palcos independentes sem precisar fazer pose ou sofrer de umbiguismos apelativos, sendo também um dos mais impressionantes em termos técnicos, fazendo o trio beirar a quase perfeição sonora.

Vindos de São Paulo, o Rock Rocket ajudou a botar fogo ao despejar seus inúmeros hits fáceis e certeiros num set rápido, com músicas como “Lili”, “Cerveja Barata”, “Ninfomaníaca” e outras que fizeram a cabeça da molecada que cantava junto e explodia a cada menção honrosa à cerveja e mulheres. Na seqüência era a vez do Superguidis. Assistir a um show que se repete desde abril do ano passado já não causa mais surpresa, a não ser para os novos fãs do grupo. No set, músicas em excesso do primeiro trabalho como “O Raio que o Parta”, “Piercentagem”, “O Véio Máximo”, “Spiral Arco-Íris” e “Malevolosidade”. Para não cair absurdamente na mesmice, os garotos mandaram “Mais do que isso”, música do novo disco, a ser lançado em breve. A música é boa e o refrão é tão grudento quanto podem ser os refrões do Superguidis: “eu quero fazer tudo que você faz, mais do que isso sei que não sou capaz”, mas não foi o suficiente para ganhar um típico “boto fé!” candango. Uma pena, diga-se.

Seguindo, o show do Cromonato (DF) serviu como termômetro para medir a relevância das produções locais e a aceitação do público, saindo, certamente, com o jogo ganho. Promovendo o primeiro disco lançado há pouco entre parceria do Coquetel Molotov (PE) e Monstro Discos (GO), o Vamoz! (PE) mostrou seu Damned Rock’n’Roll de forma astuta, pesada e sem baixo. Com duas guitarras bem altas e poderosos riffs no melhor estilo rock no talo, o trio tem muitas das características que podem levá-los à rápida ascensão no rock independente, só resta saber se eles conseguirão trabalhar isso de maneira correta.

Até então, o estacionamento do Mané Garrincha já contava com um público a perder de vista, disperso por toda a arena do Porão do Rock mas atento às próximas atrações. O MopTop (RJ), com seu rock 00 foi recebido ao urros pela platéia mas com certa frieza por parte da própria banda. Talvez a parcela que cabe a eles como os Strokes brasileiros esteja somente nas guitarras, afinal músicas como “O Rock Acabou”, “Tudo Igual” e “Paris” estão no ponto exato da mistura de influências e referências que qualquer banda surgida em pleno século XXI deve ter – tirando, é claro, aquelas que vivem do passado, como toda a leva de grupos 60’s.

Tocando em casa e se revelando como destaque no festival, o Supergalo mostrou bastante vigor sem precisar de novas fórmulas para o rock ao juntar uma gama absurda de estilos, talvez derivados dos antigos trabalhos de seus integrantes (Fred, ex-Raimundos, Alf, ex-Rumbora e Marcelo, ex-Maskavo Roots). Ainda sem disco lançado, o Supergalo aparenta ser um dos fortes nomes de Brasília em sua segunda (ou terceira) geração de rock, apesar de ainda não te caído nas graças do público que os recebeu com certa frieza. Por outro lado, o festival já atingia seu ápice e prometia uma sucessão de shows memoráveis e ensurdecedores.

No palco, era o momento de ver o Móveis Coloniais de Acaju fazer uma verdadeira festa no melhor estilo fanfarrão que 10 integrantes podem proporcionar. Desnecessário dizer que o público já estava indo à loucura. Juntar isso a um show do Móveis é quase uma covardia. O que se viu foi um grande dispêndio de energia, de público e banda, num set calcado em Idem, primeiro disco da banda. “Perca Peso”, “Aluga-se-Vende”, “Seria o Rolex?” foram somente parte do circo armado pela fanfarra de ska/MPB/funk/soul. Impressionante é o poder exercido pelos integrantes na platéia atônita, seguidora dos contorcionismos, danças e requebrados do vocalista André Gonzáles. Poder exercido também pelo naipe de metais, talvez o carro-chefe da sonoridade peculiar da big band. Mas incrível mesmo foi presenciar a “rodinha” (um eufemismo, afinal em 40 mil m² de arena formou-se uma rodona) que se abriu no final da apresentação, puxada por Xande (trombone) - já completamente entregue à loucura e no meio da galera – e Gonzáles, levantado nos ombros de algum seguidor fiel, agitando com “Copacabana”. No final, o que aconteceu foi, de fato, “uma coisa louca” – palavras da própria banda.

Daí para frente, era hora de cuidar dos ouvidos e se manter a boa distância dos amplificadores. Para a final do Porão do Rock, shows de Bellrays, Nação Zumbi, Sepultura e Mudhoney.

Liderado pela surpreendente Lisa Kekaula, o Bellrays não decepcionou as expectativas e mostrou como funcionam seus tons de soul, rock e uma voz poderosíssima. Não vamos entrar nos méritos de Lisa ser afinada ou não ou da qualidade do grupo, porque, embora o show tenha sido “tudo aquilo”, alienação gringa é de deixar qualquer brasileiro doido da vida. Na coletiva de imprensa que aconteceu depois da apresentação, questionados sobre a sensação e as impressões de ter participado de um festival no Brasil do porte do Porão do Rock, a resposta foi um tanto quanto falha: “Ah, essa empresa de petróleo de vocês é muito bacana por apoiar um festival de rock”. Mas, hein?!

Para compensar, dois dos maiores produtos musicais de exportação da nossa música, Nação Zumbi e Sepultura, mandaram bem – como já de praxe. A Nação, com seu tribal eletrônico rebatia direto no estômago, fazendo-se sentir os bumbos no fundo da garganta. Na mesma linha sinestésica, era a vez de um Sepultura recauchutado pelo novo baterista Jean Dolabela mostrar porque se consagrou no exterior. Apesar de não contar mais com os irmãos Cavalera, a expressividade do Sepultura já está há muito tempo solidificada e presente no imaginário coletivo dos inúmeros seguidores, que foram ao delírio na trinca “Roots, Bloddy Roots”, “Territory” e “Arise”.

Como se não bastasse a barulheira toda, o festival ainda seria encerrado pelo Mudhoney. Os hinos “Touch Me, I’m Sick” e “Suck You Dry”; algumas camisas de flanela na platéia; a voz de gralha de Mark Arm; e a beleza que é ver alguns de seus ídolos num palco tão perto. Talvez o show não tenha significado tanto musicalmente, por outro lado, fez a alegria dos grunges do cerrado.