A Novidade do material
por Hígor Coutinho, especial para o Urbanaque
(ESPECIAL DE GOIÂNIA/GO) - Na madrugada do domingo, voltando para casa depois de finda mais uma edição do Bananada, fumando o último cigarro e pensando no que havia acontecido nas noites dos últimos três dias, alguns temas dominavam meus pensamentos:

O primeiro deles: O melhor e o pior show do festival haviam sido, pasmem, o mesmo! Misturados pela mesma banda em quarenta minutos de extremos opostos.

Segundo: Se no Bananada do ano passado o sucesso do novo formato, que coloca bandas locais como headliners, foi retumbante, esse ano a coisa não foi assim tão boa. Os teatros ainda receberam um público razoável no último show de cada noite, mas nada comparado àquela apoteose hiperbólica de MQN, Violins e Rollin Chamas, que fecharam os três dias da edição 2006. E ano que vem? Quem vai ter cacife para fechar o festival? Ou o jeito vai ser mesmo – solução pra lá de razoável – repetir figurinha?

Terceiro: Caralho, como era bom aquele misto gigante! Principalmente o de hambúrguer (de hambúrguer!!) – que era servido com duas carnes e uma boa porção de queijo –, devorado perto do final da noite, acompanhado da onipresente coca-cola (que no caso era pepsi mesmo), e, após ingerido, coberto com um belo e reconfortante capuccino quente com chantilly. Esperava ansiosamente por uma banda ruim no final da noite, para gastar meia hora tranqüila na barraca do Café Não-Sei-O-Quê.

Joguei o cigarro fora enquanto enfiava a chave na porta de casa, dei duas voltas, entrei e joguei a mochila no sofá, rastejei até o quarto e me deitei quase ouvindo a voz da mamãe (que morreu há dez anos) me mandando levantar e escovar os dentes antes de dormir.



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Entrei no Martim Cererê depois de ser revistado com desconfiança pelo trio de (in)seguranças, e descobri que pela primeira vez na vida havia chegado no festival antes dele começar de fato. Fui conversar com o pessoal, tomar uma cerveja e esperar pelo show do Diego de Moraes, que eu já havia visto numa festa da revista Decibélica e nuns vídeos do Youtube.

Duas latinhas e muitas risadas depois, as portas do teatro Pyguá foram descerradas, abrindo oficialmente, com discurso do Fabrício Nobre, o Bananada 2007.

O Diego de Moraes, dessa vez ancorado por uma banda (da outra vez era apenas ele e seu violão), engatou seu espetáculo estrambótico de jovem-guarda de protesto e rock punk involuntariamente concretista para uma sala bem freqüentada, mas não cheia. Muita gente “importante” tem falado no Diego, desde os últimos meses do ano passado, e o garoto tem mesmo muita coisa pra dizer, ainda que aparentemente esteja meio perdido dentro desse “novo mundo”. Já dizia o Décio Pignatari:



Fotos: Lidiane Satiê
Mestre Laurentino roubando a cena no Bananada
A novidade, novidade do material
e do procedimento, é indispensável
a toda obra poética.


E se o trovador-caipira-indie de Senador Canedo tem um viço lírico forte, e uma verve musical das mais viscerais (na falta de um adjetivo melhorzinho), tem que tomar muito cuidado para não se prender ao panfletarismo discursivo chato e minimalista, que ocupou praticamente todos os intervalos das músicas do show. De resto, as boas canções, cheias de peçonha e intenção, ainda precisam se entender com a tosquidão dos vocais.

Depois do rock grave do Golsfish Memories e dos candangos sensíveis do Watson, a mineira Monno ocupou o tablado do teatro Yguá e fez o melhor show da noite. As melodias derramadas, os porres instrumentais, a tristeza escondida por entre as camadas de guitarra, enfim, todos os adoráveis clichês que quando associados com talento nunca erram, estavam lá e aglomeraram o público que começava a crescer. Qualquer comparação com os conterrâneos do Valv, não é mera coincidência. O único EP do grupo, que conta com sete canções, dentre elas as prediletas “#1”, e “Lugar Algum”, está inteiro disponível no site da turma: www.monno.com.br

Avançando algumas horas noite adentro, o Coletivo Rádio Cipó pôs abaixo a cúpula acústica do teatro Pyguá, onde a massa disforme de carne suada se debatia satisfeita sob regência de Mestre Laurentino e Ruy Montalvão. O mistifório de dub, rock e regionalismos nortenhos pode soar, assim descrito, como tantos engodos de “resgate cultural” moderninho espalhados pelo território nacional, mas a receita dos paraenses, incrivelmente, funciona.

É claro que muita da atenção dispensada ao grupo é culpa da excentricidade de Mestre Laurentino, que aos oitenta e dois anos, ocupa o tablado com uma presença de palco tão alcoólica e elétrica que causaria arrepios de inveja da grossa em Keith Richards.

Depois do show, fui falar com o tio. Deu pra sacar que ele já está escolado nessa de popstar, de impressionar as massas, por que foi só ligar o gravador que ele tomou a “entrevista” para si, engatou o piloto automático e, entre um gole e outro de vinho barato, declamou em alto e bom som o release decorado:

”Meu nome verdadeiro é João Laurentino da Silva, mas na música sou conhecido como Mestre Laurentino. Sou reconhecido como o roqueiro mais antigo do Brasil e do mundo. Em São Paulo , no Ibirapuera, eu já me apresentei com a minha banda, a Coletivo Rádio Cipó, onde estou desde o começo. Fui sucesso lá , me apresentei no Acre, na França, Goiânia, Rio Grande do Norte, Martinica, Ceará. Fizemos agora outra filmagem pra Inglaterra e fomos convidados pra Espanha e pra Portugal. Agora o pessoal da América quer me levar pra lá, mas eu á escabrunhado porque aquela música ‘Lourinha Americana’, eu fiz pra sacanear com os americanos. O americano não gosta do negro né? E agora querem me levar pra lá pra gravar música comigo (risos).

Achei a rapaziada de Goiânia bacana. Me acolheram muito bem, é uma recordação que eu guardo dentro do meu coração. Em todo lugar que vou, eu sou muito bem recebido, com todo amor e carinho.

A minha bebida é vinho, meu filho. O vinho me dá saúde e a felicidade que eu tenho pra todos vocês. Sigam o caminho de vocês na música, pra vocês serem feliz (sic)”
.

Lá atrás no relógio, já haviam se apresentado o punk cru do Sangue Seco, a barulheira pretensiosa e diáfana do Dell O’ Max, o show de humor sem graça da Dimitri Pellz, a expiação sanitizada do Barfly (que cometeu “Steady As She Goes”, do Raconteurs), a inventividade estéril da carioca Super Hi-Fi e o hardcore telúrico dos pernambucanos do Devotos.

Depois do Coletivo Rádio Cipó selar suas rimas, a Shakemakers acendeu a massa na sala ao lado, transformando o teatro Yguá em pista de dança. O rock clássico, básico e desbundado do quarteto de veteranos, ainda contou com participação especial de Lucas Cão, guitarrista da perna quebrada, e explodiu em êxtase no hit local “Rock n’ Roll É Bom pra Mim!”. Suor, muito suor.

Na seqüência veio o Violins com o show que divulga o ótimo e recém-lançado Tribunal Surdo. A luz mortiça que agasalhava a banda de frente para a arena lotada, combinou bem com as atmosferas noturnas e nefastas que permeiam as canções do novo disco, repleto de violência, insanidade e bizarrice. Depois de “Anti-Herói pt.1” e ‘Grupo de Extermínio de Aberrações”, presentearam os fãs mais veteranos com “Perfume”, do primeiro EP, Wake Up and Dream, e com a nova versão de “Glória” (do track list de Grandes Infiéis) presente nas Rocklab Sessions, registradas no estúdio de mesmo nome e de propriedade do alardeado coffe máster Gustavo Vasquez, baixista do MQN.

E para dar um fim ao começo, a apresentação caótica (no bom e no mau sentido) dos Mechanics, que agruparam as últimas centenas de exauridos e obstinados humanos, prolongando os decibéis até mais tarde, mas... Nessa, eu já tava em outra!

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Saturday Night Live!

Um pagode no Bananada! Eu não tava acreditando, mas em algum lugar estava rolando uma roda de pagode. No meio da barulheira elétrica que escapava do teatro dava para distinguir o baticum afro-decadente. Me levantei da mureta, dei o último gole na coca-cola, joguei longe a lata e fui investigar. Atravessei o pátio lotado de adolescentes de preto e, seguindo o som, fui parar no bar. Pablo Kossa, crooner dramático do Chapéu, Cerveja e Frustrações, puxava o samba que reunia algumas dúzias de humanos empolgados pelo nonsense e pela birita. Entendi tudo.

Enquanto isso, dentro do teatro Yguá, o Mestre Laurentino – o tiozinho de 82 anos do Coletivo Rádio Cipó – invadia o palco e roubava as atenções no show da Motherfish,. A platéia, até então apática, porém atenciosa, passou à ovação zoológica, se divertindo com a performance do pop-star octogenário e relegando a apresentação do Motherfish à condição de coadjuvante do freak-show.

Depois desse mashup involuntário (pelo menos pra Motherfish), a pernambucana Vamoz! Me deu um descanso pro mistão de hamburger da noite: Vocês não conseguiram um baixista? Ok, quando arranjarem um, (não) me avisem.

Já o show do Udora foi o protagonista do primeiro daqueles temas que martelavam minha cabeça lá no começo do texto, lembra?

A nova (terceira!) fase da banda, que soa como uma tentativa de emplacar na trilha-sonora da próxima temporada de Malhação, não poderia ficar mais deslocada e vulgar, espremida nos mesmos quarenta minutos em que as músicas dos maravilhosos primeiros discos, ainda em inglês e sem apelações desonestas.

Abriram a apresentação espertamente com “Fade Away”, primeiro single do amado Liberty Square, e colaram “Pieces” bem na seqüência. Com a platéia conquistada, começaram a enumerar os excrementos que essa nova formação quer que engulamos.

Se o Gustavo Drummond quer mesmo impor seu novo, err, “repertório”, devia abandonar seu passado, por que enquanto misturar coisas chulas como “Guerrilheiro Só” e “Por que Não Tentar de Novo”, com glórias pretéritas da categoria de “Burn My Hand” e “Drain” (encadeadas maravilhosamente no show), “4D” e “Beautiful Game”, vai estar sujeito às comparações desfavoráveis que tanto o incomodam.

Portanto, diante de tanta contradição decretei: o Udora fez o melhor e o pior show do festival. Eram duas bandas diferentes, ocupando os mesmos corpos, mesmos instrumentos e mesmo palco. Impressionante!

Lá atrás, no começo da noite, já haviam tido vez as locais Chapéu Cerveja e Frustrações, e Envy Hearts, além da amazonense Mezatrio.

O quarto show da noite foi da 2Fuzz – velha conhecida do amigo aqui –, que está lançando seu segundo disco, Límen, e desembarcou em Goiânia pela primeira vez. Misturando as novas canções com outras da estréia em disco, Amousía de 2005, os cearenses tramaram bem suas explosões guitarreiras, inspiradas no grunge e no pós-tudo desse novo milênio (que começou em 1997), arrancando aplausos entusiasmados da multidão que começava a se formar.

Seguindo, a Black Drawing Chalks sacudiu suas cabeleiras no palco do teatro Pyguá, antes da Pública despertar sua receita bretã de rock com pianos. O quinteto que chamou a atenção de boa parte da crítica no ano passado com Polaris, primeiro disco dos guris, fez com que centenas se enternecessem com as melodias tristemente juvenis, carregadas de uma lisergia branda e amistosa. Destaque para o ótimo single “Long Plays”, que evoca Arnaldo Baptista, Brian Wilson e John Lennon. Com sotaque gaúcho!

Antes de o Mestre Laurentino roubar a cena no show do Motherfish (lembra?), a carioca Rockz se valia de toda a modernidade roqueira dos novos tempos e botava o povo pra dançar com suas canções frenéticas e inspiradas no rock fashionista de Franz Ferdinand e Arctic Monkeys.

E de volta lá pro fim da noite, era a vez dos Born A Lion.

Se valendo, involuntariamente e a priori, da curiosidade gratuita e idiota que os brasileiros nutrem por estrangeiros, os colegas lotaram a arena do Yguá. Poderia emendar aqui uma piadinha de português, para ilustrar o meu estado de espírito, e dizer que o caldo psicodélico negro dos lusitanos não justificou tamanha atenção antecipada. Mas não, não vou dizer. Estão falando por aí que o trio joaquim é a última bolacha do pacote e eu, que acho o contrário, vou ficar mesmo é calado.

Antes do MQN novamente incendiar a massa, os Trissônicos tentaram despentear a poesia e fizeram o show inofensivo de sempre.

Depois do MQN novamente incendiar a massa, a “headliner” Valentina não conseguiu segurar a grande maioria dos exaustos, e fez a última apresentação da noite entornando seu mix de guitarras furiosas com androginia performática para uma platéia esquálida, enquanto eu procurava pelas chaves de casa na mochila, angustiado por mais algumas horas de sono.

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Eu Sou Melhor Que Você!

No domingo, o trio local Dom Casamata e A Comunidade abriu a derradeira etapa da festa com grooves finos e rasantes psicodélicos, azeitados com referências superlativas, que raspam na sutileza brasileira de um João Donato e nas colagens chapadas de um Lee ‘Scratch’ Perry da vida. Já dá pra dizer, sem medo de errar, que é a melhor banda instrumental de Goiânia.

Depois da meia hora de tensão muda da trinca, as também locais Woolloongabas e RPDC seguiram o cronograma, e depois da paulistana Slot reformular em japonês a receita dos Forgotten Boys, o Galinha Preta tomou conta de tudo.

O crust-core (!?) esporrento e humorista dos brasilienses lotou a arena do Pyguá, e botou a molecada pra rodopiar e esgoelar várias canções junto com a banda. Um fã mais caloroso foi convidado a subir no palco e assumir o microfone na concretista “A,E,I,O,U”, e quase chorou de emoção. Fenomenal!

Nem bem a Galinha Preta calou suas desgraceiras, e a jovem guarda água-com-ácucar da paraense Stereoscope me manteve longe do Yguá, antes da Banzé ocupar o palco do Pyguá e, no ponto alto do show, fazer uma versão meia-bomba de “Eu Sou Melhor Que Você”, do grande, e não menos desconhecido, Mulheres Q Dizem Sim.

Logo após o fim da chatice “cabeça” do Mersault e a Máquina de Escrever, a Elma perfilou seus petardos calados, cheios de riffs pesadíssimos e cozinha extata. Não deu nem pra sentir falta de alguém berrando por cima da muralha sonora dos paulistanos. Quem disse que metal do bom não pode ser instrumental?

Perto do fim da festa, músculos em frangalhos pelos três dias de maratona, a Graforréia Xilarmônica encheu de gente curiosa a cúpula do Pyguá. Formada em 86 nos pampas, pelos irmãos Birck e por Frank Jorge, extinta em 2000 e de volta à ativa há dois anos, a Graforréia nunca atingiu sucesso comercial, mas adquiriu status de cult-band, e já foi gravada por gente importante do pop, como Pato Fu, que incluiu “Nunca Diga” no track list de Televisão de Cachorro, e abre o ótimo Ruído Rosa com “Eu”, as duas dos gaúchos. No show, além do hit involuntário “Eu”, fizeram pares de ouvidos felizes com discretos clássicos, como “A Técnica do Baixo Elétrico”, “Empregada” e “Eu Digo 7”.

Na seqüência era a vez do gringo mascarado Daddy-O-Grande reger os paulistanos Dead Rocks na causticante surf-dancefloor em que se transformou a arena do Pyguá. Acompanhei a festa consumindo o mistão de hamburger da noite, sentado em frente à porta do teatro e vendo o espetáculo por entre as cabeças dançantes. Quem estava lá dentro parece ter gostado.

A série final de shows desse Bananada 2007 eu deixei pro ano que vem. O corpo exaurido, somado ao fato de já ter assistido ao Johnny Suxxx – que está se revelando mesmo uma grata surpresa –, e aos Rollin Chamas – que jogam em casa com a mesma desenvoltura do MQN – muitas vezes, estimularam meu retorno antecipado para o conforto do lar.

Já o último show da noite (que protagonizaria o gran finale do Bananada) o do Desastre, eu dispensei sem peso na consciência. Além de não perceber a menor graça no crossover obtuso e anacrônico do quarteto punk-rock, estava ansioso para repousar a carcaça e recuperar o fôlego para a segunda-feira. Afinal, se punk not's dead, time ainda is money. Boa Noite!

* Hígor Coutinho também é colaborador da revista Decibélica e edita o blog Goiânia Rock News - http://goianiarocknews.blogspot.com