Do avesso
por LEONARDO DIAS PEREIRA
(SÃO PAULO/SP) - As posições hierárquicas de uma escalação de festival foram totalmente invertidas na primeira noite do Ampli Volume 3, que acontece anualmente na choperia do SESC/Pompéia. Os veteranos do Golpe de Estado que supostamente deveriam ser a principal atração, devido aos 20 anos de batalha no underground e pelo lendário baterista Paulo Zinner, fecharam a noite para uma parca platéia que não estava necessariamente muito interessada no hard-rock dos paulistanos, mesmo a banda tocando voluntariamente.

Ensanduichados, os paraibanos do Zeferina Bomba souberam fazer bem o meio-de-campo, com uma apresentação que variou do vigor para a pura chinelagem. Entre uma porradaria e outra, os integrantes tiravam sarro entre si e um chimbal mal armado virava motivo para piadas com a platéia, que estava meio dispersa, preocupada em tomar um chopp ou batendo papo. Mas nada justifica a horripilante versão de "Aneurysm" do Nirvana. Completamente desnecessária.

E quem por fim, ou melhor, por início, ficou com todas as atenções foi o Coletivo Rádio Cipó, banda paraense que se auto-intitula "um núcleo de produção de mídia sonora, aliado à tecnologia de áudio digital caseira, na produção de pesquisas sonoras experimentais". Ideologias à parte, os seis integrantes da banda - que conta com DJ/programador e um percussionista - mostraram para quem ia chegando ao evento uma boa mistura de reggae, dub, rock, rap e carimbó, ritmo que predomina nas periferias do Pará. Um pouco antes de terminar, a banda chamou ao palco Dona Onete, cantora de carimbó, a Shirley Bassey do Pará (tocaram "Amor Brejeiro", intenso e entorpecente) e Mestre Laurentino, conhecido como o roqueiro mais velho do Brasil.

Fotos: www.myspace.com/coletivoradiocipo
Ambos são estrelas do projeto Terruá Pará, idealizado pelo antropólogo Hermano Vianna, que aconteceu ano passado na capital paulista. Mestre Laurentino inclusive fez e tocou uma música especial para São Paulo, por ocasião dessa visita. Depois de ver tanta vitalidade e ecletismo musical, o lance era mesmo sentar-se à mesa e pedir um chopp.