Enigmas d'O Quarto
por LEONARDO DIAS PEREIRA - 30/08/2007
(SÃO PAULO/SP) - Aos poucos, a banda cearense que atende pelo enigmático nome de O Quarto das Cinzas cava o seu espaço no imaginário das pessoas que acompanham a cena independente. Ao lado do Montage (escalado para o Tim Festival 07), o trio composto por Carlos Eduardo (guitarra e programação), Raphael Haluli (baixo) e Laya Lopes (voz) é um dos maiores expoentes da nova música eletrônica brasileira. Os primeiros partem para uma linha mais agressiva, o electro-rock. Já O Quarto das Cinzas aposta em texturas sonoras e dialoga com o trip-hop de Portishead e congêneres. O desencadeador de toda visibilidade alcançada por eles foi a apresentação no Abril Pró-Rock deste ano, sucedido pelo lançamento do excelente EP A Chave e a inevitável mudança para São Paulo, onde em pouco tempo se inseriram no circuito de shows. No bate-papo que a banda teve com o Urbanaque você vai perceber que apesar de todos os frutos colhidos até então, eles não se iludem e tampouco desistem ante os tropeços do tortuoso percalço do reconhecimento:

Urbanaque - O quarto das cinzas surgiu de um projeto de vocês com o Leco Jucá?

Laya - Eu conheci o Leco (Jucá, DJ do Montage) num espetáculo de dança, ele foi chamado pra fazer a trilha, ele e o David, que produziu nossas demos. Ele produzia na casa dele, no quarto dele, tocava baixo e o Leco percussão. Na época ele tinha um projeto, tipo drum´n´bass, ao vivo mesmo, tocavam os instrumentos, não era eletrônico, na hora ele fazia um rock doido. O Quarto começou nesse clima.

Carlos - Antes a gente tinha outra banda, meio dub, mas já tinha algumas coisas de trip-hop. Aí era esse núcleo.

Laya – A gente tocou mais uns dois anos com o Leco. Ele saiu ano passado, quando veio pra São Paulo.

Fotos: Beatriz Pontes/ Divulgação
Urbanaque - E a banda foi uma extensão desse espetáculo?

Carlos – O quarto começou com essa história do espetáculo, isso foi um adendo, que a gente ia fazer um negócio além do Quarto, aí quando a gente se conheceu, viram que ela (Laya) cantava e tal, e foi coincidindo sabe. Foi bem na hora que o David comprou o computador, ficou produzindo coisas em casa, e como tinha esse lances.

Laya – A gente se conheceu no processo do espetáculo, não tinha nada a ver com o Quarto, a gente tocava músicas da companhia, do Candomblé, a maioria eram coisas da companhia mesmo. O quarto começou nesse clima. A gente pegou o David, o Leco tinha feito umas bases no groove box, aí eu improvisei, e foi nosso primeiro encontro. Aí o David tinha feito uma música – a música da Trama Virtual – e no outro [encontro] foi outra música, e no outro mais uma... Eu pegava um caderno de poesias e improvisava. Tanto que nossas primeiras músicas,são instrumentais, a gente fazia músicas de improviso nos shows. Quando tinha show, nosso repertório era escrito assim: música, improviso, música, improviso...

Urbanaque - Tem um lance meio teatral no show de vocês?

Carlos – Na verdade era um lance de projeções que rolavam, figurino...

Laya – Essa coisa teatral nunca foi pensada, isso existe até hoje na minha postura, todo show eu me produzo, incorporo um personagem, coisa que os meninos não fazem - mas poderiam, né? (risos). Eu queria fazer o figurino da banda toda, igual a Rita Lee fazia nos Mutantes. Só o Carlos que eu peço pra vestir uma camisa mais bonita. Não é imposto pra banda, é mais um lance meu. A gente usa uns elementos cênicos, tipo um mosquiteiro, que usamos no Abril Pro Rock, que foi um artista plástico que trabalhava com a gente lá em Fortaleza. Então são coisas nossas, não somos uma banda teatral.

Urbanaque - Tem uma história de que a groove box de vocês foi roubada e que tiveram que refazer todas as músicas...

Carlos – Na verdade ainda está sendo tudo refeito. Primeiro foi um lance do laptop. Roubaram ele, e até então não tinha sido um problema sério, além do fator financeiro. Não tinha nada pronto ainda, só umas coisas que eu tava fazendo - e que gostaria de reaver (risos). Todas as bases estavam na groovebox, e pensamos ainda bem que não levaram, senão a gente tava fudido. Aí, quatro dias antes do Abril Pró-Rock roubaram a groovebox e fudeu tudo. Tivemos que fazer todas as bases pensando no show do Abril...

Raphael – Tinha algumas coisas que estávamos pensando em usar na gravação do EP. Aí a sorte foi que aproveitamos para gravar as bases do show do Abril e do EP (“A Chave”). Fizemos algumas coisas do zero, e o pessoal da produção já estava com a gente pro show do Abril. Foi uma provação muito grande, porque era uma expectativa tão grande pra fazer o show, e pensamos, “caralho, vamos ter que fazer”

Carlos - Tirando a coisa ruim, teve o lado de aprender a superar mesmo. Eu lembro que na gravação, a gente tinha só cinco músicas, e era muito pouco pra um EP, e estávamos na casa de uma amiga, na hora que fui arrumar a pedaleira, ela não acendeu. Pensei: “não dá nada, deve ter um foot switch”. Já estava zen total... (risos). Ai, fomos ver e era um fio solto, mas eu tava pronto para o que der e vier.

Urbanaque - E os shows? Como têm sido?

Laya – As pessoas receberam muito bem a banda. O pessoal do interior principalmente. Tocamos em São Carlos e foi muito bom. Acho que o pessoal do interior sente necessidade de coisas novas, aqui (São Paulo) você toca e as pessoas ficam paradas, de braços cruzados, não sei se é uma coisa daqui. Acho que o paulistano tem um leque tão grande de opções que ele fica meio perdido em tudo...

Carlos – Nós gostaríamos de tocar mais no interior pra ver se é uma coisa daqui da capital ou do interior.

Urbanaque - E outras bandas boas de Fortaleza?

Laya - Tem muita gente pra vir pra São Paulo ainda, mas estamos muito bem representados. Tem o Fósforo, Café Colômbia, O Sopro, George Belasco e o Cão Andaluz, tem coisas muito diferentes...

Urbanaque - E essa cena eletrônica que esta se formando em Fortaleza (CE)?

Laya - Pois é, a gente está num gás, é muito louco, né? Até então a gente só conhece o Montage (escalado para o Tim Festival 07), a galera do Leco, rola mais coisas individuais. Galera que faz seu próprio som, rola mais Dj, interpretar igual a gente faz, não sei se tem mais...

Urbanaque - E esse ano, como tem sido? Festivais?

Laya - No primeiro semestre, fora o Abril, tocamos também no Festival Fora do Eixo que rolou aqui em São Paulo.

Raphael - Neste segundo semestre já temos presença confirmada no Festival Calango em Cuiabá (MT) e no Festival Jambolada em Uberlândia (MG), estamos fechando participações em outros festivais ainda esse ano que serão divulgadas tão logo sejam confirmadas. Temos muitos planos de tocar no interior de São Paulo, pois sentimos nos lugares em que tocamos o quanto somos bem recebidos e o quanto as pessoas estão abertas a música d´O Quarto. Os festivais também são ótimas oportunidades de levar a nossa música para outros estados, além de nos darem a possibilidade de conhecermos novos públicos e também novas bandas, novos produtores, jornalistas e todos aqueles que farão parte e nos auxiliarão nessa caminhada d´O Quarto das Cinzas. Nossos planos de viajar estão a todo vapor e boa parte deste ano de 2007 foi e está sendo dedicada a isso.

Urbanaque - Pensam em versões em inglês?

Carlos - Sim, porque tem uns canais que compram mais versões em inglês, e não vejo problemas...

Laya - A nossa música é feita em português, mas a gente pode fazer em inglês pras pessoas entenderem as letras.

Urbanaque - E como anda o processo de composição para um futuro disco cheio?

Raphael - Estamos trabalhando em diversas músicas novas. Acredito que temos material para fazer uns dois discos completos, porém essas músicas ainda passarão por um processo de maturação até chegar à forma final delas, em que podemos dizer: "isto faz parte do Quarto." Estamos reunindo um material de primeira, peneirado, para o nosso primeiro disco cheio. Como trabalhamos com elementos eletrônicos, estamos sempre pré-produzindo coisas e junto com produtores parceiros. No momento estamos divulgando o EP A Chave, através das nossas apresentações, ele foi lançado em abril e consideramos que muitas pessoas ainda não tiveram a oportunidade de ouvi-lo.

Urbanaque - Mas é curioso vocês virem da terra do sol e fazer um som caracteristicamente triste e melancólico...

Carlos - Pois é, tocamos no Grazie a Dio, e umas minas vieram depois do show e falaram pra gente que conseguíamos fazer trip hop nacional (com cara de interrogação).

Urbanaque - O som de você me lembra bastante Goldfrapp...

Carlos - Sim, tem muita influência de Goldfrapp. No começo quando a gente ia fazer as gravações, a idéia do David era de ser um trip-hop cru, puro, sem rock and roll.

Urbanaque - E vocês seguiram uma linha boa, mais pop...

Carlos - Com a saída dele (David), eu entrei, a gente modificou e se adaptou naquilo que queria sentir, e ficou mais nosso, mais nossa cara. Não deixou de ser reconhecido como O Quarto das Cinzas.

Laya – Eu acho que nossa idéia não tem limite, é o lugar das transformações, O Quarto das Cinzas. Eu não quero ter rótulo, fazer música tal. Quero fazer o que me der vontade, quero ter liberdade de fazer aquilo que é bom no momento...

Urbanaque - O tempero sempre será eletrônico?

Laya - Sim, tem que manter a identidade. Mas você pode usar outros elementos, assim como a Björk fez com aquele disco que é só voz (Medúlla, 2004). Não tem limite, não tem regras.


* Ouça músicas d'O Quarto das Cinzas: www.myspace.com/oquartodascinzas.