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O Rock Ferve!
por MARIÂNGELA CARVALHO - 06/09/2007
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(ESPECIAL EM GOIÂNIA/GO) - Goiânia, como se sabe, é a capital do rock do Centro-oeste brasileiro, terra do pequi e do rock pau duro, ilustrado por bandas que investem em riffões de guitarra bem altos, bateria ensurdecedora e shows pegando fogo. A molecada, adepta da semente “bad ass” plantada na cidade desde o nascimento do maior selo independente do país (a Monstro Discos) segura a onda dos festivais locais e garantem sempre uma festa pra ninguém botar defeito.
Posto isso, a sexta edição do Festival Vaca Amarela, organizado pela Fósforo Records, de Pablo Kossa e João “Suxxx” Lucas, veio complementar o calendário anual dos festivais independentes e fez bonito nos dois dias do evento. Seja pela programação ou pelo público que contemplou os shows, o Vaca conseguiu seus méritos ao medir bem suas atrações escolhendo nomes da fervilhante cena local e outros já mais consolidados vindos de fora, além de selecionar shows maduros e que caem no gosto da galera para fechar as duas noites
Sem manias de grandeza, o festival serve mais como vitrine para as bandas novas e demonstrou um clima bem underground para o rock nacional, que ultimamente vem se gabando de atingir um pseudo-mainstream. Mas marcou presença ao escalar headliners de poder, shows imperdíveis e levar parte da molecada goianiense a levantar os dedos em sinal de rock e bater cabeça até as 4 da madrugada.
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O primeiro dia foi tímido de público e não conseguiu levar o Martim Cererê ao delírio. Com duas horas de atraso, os shows começaram por volta das 7 da noite com as bandas The Hellbenders (Gyn) e Lady Lanne (GO). Na seqüência, Mersault e A Máquina de Escrever (Gyn) e Boddah Diciro (TO) já foram surpresas. Nada de muito excepcional mas ambas mostraram a maior sinceridade no palco.
Os primeiros, com um pós-rock ora shoegazer ora emepebista anos 2000, bem colocado e sem firulas. O Boddah Diciro, (para ficar numa qualificação direta) grunge metaleiro até os ossos, fez bem bonito com duas meninas comandando a banda, uma na guitarra e outra na bateria.
As irmãs Sam e Dídia arrasaram em suas performances e mostraram uma pegada pesada e suja, com as melhores qualidades do primeiro grande estilo dos anos 90: rouquidão, flanelas e certo ar de descaso. Cantadas em inglês, músicas como “Buy your own flowers” não têm nada de pop nem radiofônico mas satisfazem na mesma proporção.
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Fotos: Aline Mil/ Fósforo Records |
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O Dead Smurfs (MG) não conseguiu se apresentar e em seguida foi a vez do Poser Pride (Gyn) subir ao palco e não mostrar orgulho nenhum apesar de ostentar a pose. Não conseguiu se provar no punk nervoso adolescente e ainda vai precisar trabalhar muito em três acordes. Já Diego de Moraes deixou uma ótima impressão. A banda, liderada por Diego, faz o tipo de música que poderia se classificar em “rock de mocassins”. Letras zombeteiras em inglês e português, alguns toques de surf e guitarras mais sacanas, teclado sintetizado e percussão comedida. A riqueza lírica de Diego também é a favor do grupo. Com rimas ricas e uma articulação bem pontuada, o rapaz esbanja habilidade de entreter seu público com muito sarcasmo em faixas como “Sobrevivo” e “Todo Dia”. Faria sucesso se estivéssemos nos anos 80 mas ainda pode se dar bem nos 2000.
O Shakemakers (Gyn) subiu para mostrar um pouco de seu rock influenciado por Metallica e Queen e foi seguido pelo caipiresco Chapéu, Cervejas e Frustrações (Gyn) . O rock político/diplomático feito por Pablo Kossa e sua trupe é descolado (sem ser pejorativo), irônico e incita aquele teor “faroeste” produzido pelas capitais do cerrado. No palco, muita habilidade e graças: camisetas de futebol, chapéus, vinhetas tira-sarro de redes de TV, funk com reco-reco (!). Até “Explode Coração” (aquela famosa da Globo) foi tocada como sambão carnavalesco. As locais Yglo e Seven fizeram o meio de campo, botando ainda mais peso na programação do primeiro dia.
Já o Trilöbit (PR) despertou o público para outras referências. De Depeche Mode a Planeta dos Macacos, o (atualmente) quarteto de Londrina mostrou novamente suas qualidades interplanetárias num show classe. Os samples eletrônicos junto à cozinha precisa e o teor ‘ficção científica’ passam o recado: rock muito doido. Vale de tudo, de micagens em geral a vocais industrializados, futebol, bolas de plástico (devidamente chutadas ao público) e um instrumental bem trabalhado. Junte locuções descabidas, comentários infames e qualidades circenses: um show de verdade. No outro palco era hora dos diabólicos brasilienses Satanique Samba Trio mostrarem seu repertório variado, passando do metal ao sambinha, com guitarronas e cavaquinho alternados.
O Mechanics (Gyn) , um dos mais antigos e presentes grupos de Goiânia vai bem e manda avisar que se recusam a acabar. Para isso mostraram todo seu hard rock “fudido” e porreta, embora a platéia estivesse morna em quantidade e emoção. Não mais acalorada foi a apresentação do Vanguart (MT). O expresso cuiabano subiu para um show curto, divulgando o primeiro disco lançado pela revista Outracoisa. O set, calcado em “Vanguart”, e o show curto não permitiram à banda mostrar tudo o que sabe nem um repertório mais diversificado. No entanto faixas como “Spanish Woman”, “Semáforo”, “Be Loved” e “Hey Yo Silver” serviram para ilustrar uma interação ainda maior (se isso é possível) entre os integrantes. Momentos mais jam session e muita desenvoltura adquirida em palcos do país todo mostram porque o Vanguart está preparado para ir além do circuito independente.
Para fechar a primeira noite, Kid Vinil e Magazine (SP) deram um show a parte ao mostrar muita maturidade sem perder o fôlego. O retro-punk-psicodélico (?) caracterizado pelo rock sacana pincelado com Jovem Guarda e punk 77 foi visto por poucos, mas dançado pela maioria. Entre covers de Ramones e Iggy Pop, passando por Erasmo Carlos e hits perdidos como “Glub Glub” e “Eu Sou Boy”, o show fechou a primeira noite do Vaca Amarela.
No sábado era esperado um maior público e muito mais adoração ao peso nos palcos do festival. Já o começo, com a banda Infalíveis (Gyn) e a influência de guitar heroes como Jimi Hendrix já dava a deixa para o que seria o segundo dia de Vaca. Seguindo com Chilli Mostarda, trash/black metal trazido de Cuiabá, Futura (Gyn) e seu hard core cru de seguidores adolescentes e carga emo e a banda Baltazar (Gyn), que tocou no lugar da Maria e Seus Malucos (Catalão – GO).
O primeiro show que já contava com público considerável e muito headbanging foi o Uganga.(MG) com seu metal cavalar, puxado por solos intensos de guitarra e bateria carregada. Na seguida o Montage foi catártico. A influência do “deus andrógino” Daniel Peixoto, junto aos trabalhos eletrônicos de Leo Jucá e a ajuda de Carlos Gadelha (O Quarto das Cinzas) na guitarra pirou a molecada presente no show. Abrindo com “Money, Success, Fame, Glamour”, os cearenses despejaram carisma e entorpecimento sexual em cima do palco. Com os hormônios a flor da pele, o show teve direito até a (semi) strip-tease por parte de duas meninas da platéia. As músicas “Benflogim pra Mim”, “I Trust My Dealer” e “Raio de Fogo”, pedidas desde o começo da apresentação, foram recebidas aos uivos e delírio, junto com um “funk novo para baixar o nível”, que berrava desesperadamente “shake your ass”.
O Montage, de qualidades únicas, foi sucedido pela Patife Band, respeitável grupo de São Paulo e o rock progressivo feito em cima de loops e viradas esplêndidas de bateria. Para acalmar os ânimos, o quarteto curitibano Charme Chulo, parte do casting da Fósforo Records, mostrou seu rock sertanejo num set calcado no primeiro disco, homônimo. Cantadas pela galera, faixas deste e também do primeiro EP do grupo foram responsáveis por fazer do primeiro show da banda em Goiânia um momento único. Jovens mas competentes, os integrantes são habilidosos e carismáticos ao juntar viola caipira e referências de Joy Division e do rock inglês no geral. Uma das bandas mais importantes e conhecidas da atual cena de Curitiba, o Charme Chulo mostrou no palco uma boa evolução em seu show, sem perder o jeito caipira de se encarar o rock.
As locais Woolloongabbas, Technicolor e Bang Bang Babies vieram rechear a metade da programação com muito rock pesado acompanhado pelo público que já era forte e aguardava as atrações vindouras. O Revoltz (MT), que teve seu primeiro disco lançado pela Fósforo, subiu ao palco para mostrar seu power pop recheado de new wave, teclado bem dosado, um excelente trabalho de bateria e o carisma de seus integrantes. No repertório, faixas como “Hey You”, “Arnoldileine”, “Mr. White”, “Você não vai me conquistar”, “Ina” e (a que dá nome ao disco) “Beijo no Escuro” fizeram a galera dançar e se divertir com as nuances do melhor que se pode ter de uma banda com integrantes espalhados por todo o país.
Mais de uma da manhã, era hora de ver Johnny Suxxx and The Fucking Boys (GO) botar a casa abaixo com o rock garage-glam protagonizado por João Lucas e seus quatro fucking boys. O lixo e o luxo se encontram nesta que é das mais promissoras bandas goianas e também um dos shows mais acalorados no independente atual. O repertório calcado no disco “Make Up and Dream” foi cantado e seguido pelos presentes, que tiveram o estupor de gritar a todo pulmão faixas como “Back Home” e “Feel Her Falling”. Também da cena local, era a vez do Goldfish Memories que, embora tenha sido formado em 2006, não sofre de imaturidade ou pouca vontade. O quinteto segue a linha goiana de rock, com riffs distorcidos, bateria violenta e vocais em inglês. Algo da podreira grunge e algo do chapado stoner rock. Desnecessário comentar a recepção do público, que já conseguia lotar inteiramente os teatros do Martim Cererê e se esbaldava a cada show.
Para o final foram reservados shows quentes, que fervem em qualquer situação e em qualquer cidade. Em Goiânia, então, é festa na certa. Primeiro foi o Tequila Baby (RS), já consagrado por seus 13 anos de punk rock por todo o país e com fãs fiéis, seguidores do rock pesado proporcionado por três acordes. Muitas rodas de pogo, stage diving e espírito punk 77 anunciaram o quase final do festival. Quem teve as honras, e as manhas, de encerrar as atividades do Vaca Amarela 2007 foi o Bidê ou Balde (RS). No palco, seis integrantes tresloucados e entorpecidos pela vibração de quase 1.500 pessoas aglomeradas para ver um dos shows mais divertidos do rock nacional. Misturando músicas de seus três discos, o set foi hit atrás de hit: “Melissa”, “Mesmo que Mude”, “É preciso dar vazão aos sentimentos”, “Antipático”, “Cores Bonitas”, “Ricochet” e muitas outras, que estenderam a programação até mais de 4h30 da madrugada.
Depois de dois dias de festa era hora de voltar pra casa, confirmando mais uma vez que Goiânia é a capital do rock e nada melhor do que presenciar tudo isso de perto.
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