Sem surpresas
por BRUNO DIAS - 11/09/2007
(ESPECIAL EM CUIABÁ/MT) - A quinta edição do festival Calango, realizado entre os dias 31 de agosto, 01 e 02 de setembro, no Museu do Rio (região portuária de Cuiabá), foi marcada pela consagração de ícones da nova música nacional, como Móveis Coloniais de Acaju (DF), Vanguart (MT), Montage (CE), Macaco Bong (MT) e Daniel Belleza e os Corações em Fúria (SP). Ao mesmo tempo o festival, que sempre aposta na divulgação de novos nomes, não trouxe nenhum destaque, pelo contrário, o que se viu foi uma série de bandas mal escaladas e "verdes".

Sexta-feira, 31 de agosto

O festival começou com um atraso de quase 1h30 e diferente da edição 2006, teve um início sofrível. A qualidade sonora só foi melhorar na sexta banda, Carolina Diz (MG), mais um ótimo grupo da nova cena mineira. Antes, ZEN-FIM (MT), AOXIN (MT), UNCHRONICS (GO), Parkers (MS), e principalmente Jhonny Alfredo e os Neurônios Mongóis (GO), judiaram dos ouvidos dos poucos presentes no começo da noite.

Que parecia perdida senão fosse a apresentação dos mineiros do Carolina Diz. Cravo Carbono, da efervescente cena paraense, misturando rock, guitarrada, e outros ritmos regionais, deu novo gás a noite. Outro destaque positivo foi o show do Camundogs (AC), que já vem se destacando nos festivais por onde passam, seguindo a trilha aberta pelos conterrâneos do Los Porongas.

Os goianos do The Rockefellers salvaram o nome do estado e principalmente de Goiânia, a Detroit brasileira, após a constrangedora apresentação de Jhonny Alfredo e os Neurônios Mongóis. Stoner rock garageiro, com direito a chapéu de cowboy.

Devido ao atraso e a necessidade de voltar para São Paulo, os paulistanos do Debate adiantaram seu show. Uma das atrações mais conhecidas e aguardadas da noite, o pessoal do Debate fez um apresentação regular, talvez pela pressa de ir embora. Resultado: um show frio e apressado.

Maldita (RJ) e Revoltz (MT) fariam então os dois shows mais animados e festejados da noite. O primeiro com influências satânicas, uma espécie de Nine Inch Nails dos trópicos, tanto no visual quanto na sonoridade, beirando o metal, fez o público (com faixa etária entre os 12 e 18 anos) ir ao delírio. Já o Revoltz fez o melhor show da primeira noite. Banda residente em São Paulo, mas com raízes cuiabanas, tocaram em sua maioria músicas do primeiro disco, Beijo No Escuro.

Fotos: Bruno Dias
"Toca Rauuuuuuuuuulllllllllllllllll"

Para fechar a longa e cansativa primeira noite do Calango, os cuiabanos do Hellzen substituíram o Fuzzly (MT), e a grande atração internacional da noite Supersônicos (Uruguai). Os uruguaios conseguiram agitar os poucos que ficaram para vê-los com sua surf-music-espacial, fechando bem o primeiro dia.

Sábado, 01 de setembro

O segundo dia do festival prometia ser melhor devido à escalação das bandas, só que o começo praticamente repetiu a noite anterior com bandas pouco inspiradoras e um atraso de quase duas horas.

O pessoal do Mr. Jungle (RR) proporcionou uma das coisas mais impressionantes do festival, e não foi durante o show em um dos dois palcos montados na arena, e sim numa barraca, apelidada de "palco 3", onde o público, e obviamente as bandas, podiam apresentar seus dotes musicais. E não é que o pessoal do Mr. Jungle conseguiu atrair mais gente ali (tocando sucessos de Pearl Jam, Alice in Chains e AC/DC), do que no próprio show?

Substituindo o Stereovitrola (AP), o pessoal do Cravo Carbono, sob a alcunha de Suposto Projeto, mostrou a famosa guitarrada paraense pra molecada presente. Conforme a noite ia passando os shows iam melhorando. Manacá (RJ), liderados pela linda e performática vocalista Letícia Persiles, fez jus ao posto de uma das revelações do ano com sua mistura de indie rock com MPB. Letícia teve que repreender a garotada da turma do gargarejo que insistentemente pedia para a bela donzela levantar a saia.

Em seguida Terminal Guadalupe (PR) mostrou que valeria a pena agüentar o restante da noite com um dos shows mais intensos e pesados do festival. E olha que os caras nem precisaram de muita pompa, vestiram os habituais uniformes de motorista/cobrador de busão, e mandaram ver.

Tirando os shows de The Melt (cópia mal feita de Wolfmother), Supergalo (falar o que de uma banda de ex-Rumbora e ex-Raimundos?) e Mandala Soul (projeto social legal, mas no quesito música, ficaram presos aos clichês da black music), o restante da noite só foi melhorando.

Cabaret (RJ), com visual exótico e som glam-brega, conseguiu animar a galera com um show intenso, marcado pelos chiliques (no bom sentido) do vocalista Marvel. Macaco Bong mais uma vez mostrou competência no palco com sua performance instrumental-porrada. O mais impressionante é ver o show deles e saber que os caras conseguem mandar bem no palco e ao mesmo tempo fazer toda correria trampando como roadies do festival. Assim como o Debate no primeiro dia, o Pública também ficou abaixo das expectativas. Com um show calcado no álbum Polaris, a banda não conseguiu segurar a onda e em alguns momentos chegou a desafinar, nem a bela "Long Plays" escapou.

Fugidos de alguma catacumba da época em que o metal farofa dominava o mundo, mais uma vez o Lord Crossroad (MT) foi escalado como penúltima banda da noite, em 2006 aconteceu a mesma coisa. Tartarugas ninjas, gatos pretos, nada disso foi capaz de mandar embora o público que esperou até às 4h para ver os brasilienses do Móveis Coloniais de Acaju.

O Móveis fez mais um ótimo show com direito a música de Raul Seixas ("Como Vovó Já Dizia (Óculos Escuros)"), Portishead ("Glorybox"), além das clássicas "Seria o rolex?" e "Copacabana", esta última com a tradicional roda, o momento "hippie" do show. Por volta das 4h45, ao som de mais um, o Móveis encerraria a segunda noite do Calango.

Domingo, 02 de setembro

Pela escalação a última noite do Calango prometia, e apesar do pequeno público, foi o dia com a maior regularidade de shows.

O começo mais uma vez foi desanimador, dessa vez com uma seqüência de bandas de Hard Core. A coisa começou a se diversificar e a melhorar com o show dos cariocas do The Feitos. Eles tocaram músicas de seu recém-lançado primeiro disco, Na Cabeça da Chorona!!!!!!!, e conseguiram animar os presentes, apesar de ainda estarem um pouco inseguros no palco.

A seqüência que viria mostrou uma incrível diversidade. Primeiro com O Quarto das Cinzas (CE), mostrando seu trip-hop dançante. Apesar de terem sido prejudicados pelo som, que insistia em paular as bases eletrônicas e deixar o vocal de Laya Lopes estridente, O Quarto agradou os presentes, que estranharam um pouco a sonoridade da banda.

Velhos conhecidos da cena local, Daniel Belleza e os Corações em Fúria (SP), fizeram uma das apresentações mais animadas do festival. Daniel Belleza incitou a massa logo no começo, com um discurso panfletário, fez com que os presentes derrubassem a grade que separava palco e público (quase ferindo alguns dos jornalistas, os mesmos para os quais eles disseram não se apresentar, e que estavam trabalhando no local). Com o público perto de si, corresponderam as expectativas daqueles que foram vê-los.

Em meio a essa seqüência mais algumas bandas locais se apresentaram, como foram os casos de Branco ou Tinto e Boneca Inflável, ambas sem grandes surpresas.

O show mais inusitado ficou por conta do tecladista Astronauta Pingüin (RS), acompanhado dos Corações em Fúria Jeff Molina (bateria) e Jhonny Monster (baixo). Pingüin tocou versões instrumentais de "Um Lugar Do Caralho" de Júpiter Maçã, "Smell Like Teen Spirit", do Nirvana. Depois ele assumiu o baixo, trajando uma calça de oncinha coladinha (sic), para fazer um tributo a cantora Madonna - um luxo!

Os cearenses do Montage com certeza são hoje, ao lado de Vanguart e Móveis Coloniais de Acaju, uma das bandas mais fascinantes do cenário. Liderados pelo vocalista andrógino Daniel Peixoto, conseguiram movimentar uma legião de fãs cuiabanos para vê-los. Músicas como "Raio de Fogo", "Floor, Floor" (com participação de Laya Lopes, d'O Quarto das Cinzas), e "Money, Success, Fame, Glamour", levaram público, e principalmente, Daniel Peixoto a loucura.

Poucos entenderam a performance da Patife Band, mas aqueles que foram até o palco assistir de perto uma das lendas vivas do pós-punk paulistano saíram recompensados. O som minimalista, beirando o tribal, contrastava com o desempenho de Paulo Barnabé, que cantou e tocou bateria. Genial!

O show mais esperado da noite durou pouco, mas foi intenso. Após meses sem tocar em Cuiabá, os queridinhos da cena local, Vanguart, mais uma vez mexeram com a massa. Liderados por Hélio Flanders, tocaram músicas de seu recém-lançado primeiro disco, Vanguart. Todos os hits estavam lá "Cachaça", "Semáforo", "Los Chicos de Ayer", "Enquanto isso na lanchonete", "Miss Universe", e "Hey yo Silver", e foram cantados em uníssono pela platéia, formada em sua maioria por adolescentes. Nem mesmo os pedidos de Hélio Flanders foram suficientes para esticar um pouco mais o show.

Pra fechar o festival, assim como no ano passado, mais um grupo gaúcho veterano, Tequila Baby. Com um punk rock ao melhor estilo Ramones, inclusive no visual, os gaúchos conseguiram fechar bem a quinta edição do Calango, mantendo algumas pessoas animadas e presentes para vê-los. Talvez se a produção tivesse colocado o pessoal do Vanguart para fechar, o final teria sido mais intenso. Até ano que vem!