Para levantar poeira
por BRUNO DIAS e MARIÂNGELA CARVALHO - 20/09/2007
(ESPECIAL EM UBERLÂNDIA/MG) - Com três anos de tradição, a edição 2007 do festival mineiro Jambolada promoveu nos últimos dias 14, 15 e 16 uma grande festa na cidade de Uberlândia. Nos dois primeiros dias, um público forte de 7 mil pessoas (3 mil na sexta e 4 mil no sábado) compareceu ao festival que recebeu nomes como Tom Zé, Vanguart, Los Porongas, Astronautas, Superguidis e Nação Zumbi. No último dia o evento foi realizado em praça pública e levou cerca de 3 mil pessoas a levantar poeira nos shows d’O Quarto das Cinzas e, principalmente, no do Móveis Coloniais de Acaju.

A calmaria interiorana, infra-estrutura primorosa e a escalação de headliners de respeito deram ao Jambolada o status de melhor festival do ano até agora. Saiba como foram os três dias de evento.

Sexta-feira, 14 de setembro

O primeiro dia do festival Jambolada foi marcado pelo atraso dos shows. Quem teve a missão de abrir a terceira edição do evento, com quase duas horas de atraso, foi o Vandaluz (MG). Vestidos como monges e destilando sarcasmo, a banda não conseguiu chamar atenção do público que começava a se formar. Em seguida sobe ao palco uma das revelações do rock mineiro, e vencedores do Prêmio Toddy de Música Independente (categoria Banda Revelação), AcidoGroove, da vizinha Uberaba. O nome não diz muito sobre o som da banda, que mistura psicodelia-rural com guitarras indies à Sonic Youth. Um show competente de uma banda que ainda tem muito a crescer no cenário.

O surf-music instrumental do Proa (MG) serviu para colocar boa parte do crescente público para dançar. Eles foram prosseguidos pelo pop rock genérico dos também mineiros do Falcatrua. Vestidos de macacões pretos e exagerando nos clichês, a banda não segurou a onda e conforme o show ia passando, as pessoas iam se dispersando.

Fotos: Bruno e Cirilo Dias
"Vai dormir Tom Zé!!!"

Por causa do atraso o show de Tom Zé foi antecipado. O artista que deveria se apresentar às 22h45, só se apresentou duas horas após o previsto. Para ajudar, Tom Zé e banda enrolaram cerca de uma hora para se ajeitarem no palco, prejudicando ainda mais o andamento da noite.

O público presente parecia não se importar com os atrasos, e lotou a Acrópole durante a apresentação de Tom Zé. No repertório músicas de seu último trabalho Danc - Êh – Sá, e clássicos como “Augusta, Angélica e Consolação” e “Xique Xique”. Mesmo com toda aquela massa presente para vê-lo (muitos foram embora após o show), Tom Zé conseguiu ganhar o prêmio de chato do festival. Tudo isso porque reclamava o tempo todo do público (que não podia fazer nada que não fosse uma ordem dele) e ridicularizou um pobre jovem que pediu uma de suas músicas (sic). Só pode ser a idade.

Por volta das 2h o pessoal do Juanna Barbera teve a infeliz missão de tentar segurar a onda do público, não conseguiram. Nem a seqüência do que há de melhor no indie nacional – Los Porongas, Vanguart, Porcas Borboletas, e Daniel Belleza & Os Corações em Fúria, foi suficiente para segurar a massa.

O Los Porongas, bastante prejudicado pelo som, apresentou seu rock cheio de poesia de forma competente. Eles mostraram aos mineiros músicas de seu primeiro disco, Los Porongas, em pouco mais de 30 minutos. Destaque para a performance vocal/corporal de Diogo Soares e para o guitar-hero João Eduardo.

Por volta das 4h (!) os cuiabanos do Vanguart destilaram sua máquina de hits nos que resistiam ao atraso: “Cachaça”, “Just to See”, “Hey Yo Silver”, “Miss Universe”, “Para Abrir os Olhos”, e uma versão anárquica de “Semáforo” (com participações do coração em fúria Rangel, Daniel Belleza, e integrantes do Porcas Borboletas, num total de 11 pessoas no palco). O que pode se observar nessa apresentação do Vanguart foi a qualidade do teclado bem mais definido e nítido, e algumas "experimentações" vocais de Hélio Flanders. Eles conseguiram levantar o festival às 4h da manhã.

Embalados pelo bom show dos cuiabanos, os donos da festa, Porcas Borboletas, mais uma vez cumpriram com sua função – entreter e agitar. A banda fez um show com o repertório baseado em seu primeiro disco, Um carinho com os dentes, e provaram porque são os responsáveis por colocar Uberlândia no mapa da música brasileira.

Já eram 5h quando Daniel Belleza & Os Corações em Fúria tiveram a ingrata função de fechar o primeiro dia do Jambolada. Antes do show o baixista Rangel já mostrava sinais de cansaço, mas principalmente, de desolação por ter que tocar com tanto atraso. O show foi curto, e devido ao horário, quase 6h, foi interrompido, causando revolta nos músicos que haviam viajado mais de 8h para chegar em Uberlândia.

Sábado, 15 de setembro

No segundo dia o calor era intenso em Uberlândia e o festival prometia receber mais público. Com mais de uma hora de atraso, os shows começaram com o quinteto mineiro Um Bando e o Fim da Quadrilha e foi prosseguido por The Dead Lover’s Twisted Heart, banda promissora de Belo Horizonte. Cantadas em inglês, as músicas vão do rock cru a nuances folk, country e indie. Com um trabalho instrumental primoroso o Dead Lover’s consegue ainda juntar um vocal eficiente, de timbres diferentes e não deixa nada a desejar em cima do palco. Partindo para o peso e escancarando influências de Metallica e Misfits, o Super Hi-Fi (RJ) até tentou, mas não conseguiu convencer. Mesmo com covers como “Die Die My Darling” e incitações explícitas à pancadaria metaleira, o público se manteve calmo e o show foi fraco. Aliás, este é o primeiro festival sem rodas de pogo, headbanging e outras exaltações físicas.

Já o Estrume’n’tal, de Belo Horizonte, subiu para mostrar seus 10 anos de instrumental calcado em surf e rockabilly. Bom para assistir sem compromisso, prestando atenção às guitarras rápidas e solistas e acompanhar a bateria carregada. O Dead Smurfs (MG), banda da casa, destilou seu set rápido e rasteiro, com momentos hard core e outros punk sujo. O som, de pegada sarcástica e a performance explosiva animou os presentes, que a esta altura já lotava consideravelmente o espaço da Acrópole, teto dos dois primeiros dias do festival.

De macacões amarelos e o niilismo do nome de seu último disco (O Amor Acabou), os Astronautas (PE), que se apresentaram como trio tendo na bateria o conterrâneo Perna, mandaram bronca em pouco mais de 30 minutos de show. Misturando faixas de seus três trabalhos, todas as qualidades industrias e eletrônicas do grupo foram mostradas novamente para o público de Uberlândia, que pôde vê-los na primeira edição do Jambolada. Aplaudidos em massa pelo público (que já era grande e bastante satisfatório) e altamente assediados no backstage, os Astronautas foram seguidos pelos brasilienses Supergalo. A formação mais duvidosa e improvável do atual rock nacional não faz nada de novo ou revolucionário, no entanto serve bem como entremeio de festivais, misturando diversos estilos e levando o público na lábia. O show serviu pelo menos como intervalo para esperar outro super que viria a seguir.

Divulgando o segundo disco A Amarga Sinfonia do Superstar, o Superguidis (RS) subiu para um set curtíssimo de apenas sete músicas (outras duas foram limadas do repertório) e se mostrou o bom e velho Superguidis do começo. Abrindo com “Por Entre as Mãos”, a set foi de matar: “Mais do que Isso”, “Spiral Arco-Iris”, “Apenas Leia”, “Malevolosidade” e “A Exclamação”. Não é preciso nem comentar a desenvoltura e habilidade que os garotos têm no palco, muito menos a capacidade de entreter a molecada que acompanhava tudo muito de perto e formava uma massa humana para receber pela primeira vez o Superguidis em Udi. O maior destaque foi a voz de Andrio Maquenzi, cada dia melhor.

O chamado anarco-pop feito pelos mineiros Antena Buriti também foi bom. De capuzes e letras de contexto social, o grupo uberlandense teve a missão de anteceder o show da Nação Zumbi e mostrou bastante potencial. Sintetizadores e grande dispêndio de energia, guitarras saturadas e muito da ginga hip hop fazem o Antena soar na praia de Cypress Hill e congêneres.

Para fechar a primeira etapa do Jambolada (nos palcos do clube Acrópole) era hora de subir ao palco a Nação Zumbi. Depois dos 11 anos que se passaram desde que estiveram por lá pela primeira vez (ainda com Chico Science), a Nação foi recepcionada com o maior ardor possível e respondeu na mesma moeda. No show nada de novo, músicas do último disco, Futura, foram intercaladas com clássicos como “Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada”, “Manguetown”, “Macô” e “Maracatu Atômico”, no entanto show da Nação é sempre espetáculo. A virtuose riffeira de Lúcio Maia mais os trabalhos de percussão e a experiência de palco de Jorge Du Peixe garantem sempre a qualidade máxima. Talvez um dos melhores shows feitos pela Nação Zumbi em 2007.

Domingo, 16 de setembro

Já no domingo o Jambolada seria mais lo-fi, acontecendo na praça Sérgio Pacheco e com entrada gratuita. Logo ao chegar já dava para sacar como seriam os shows: palco montado embaixo de uma árvore, feira de artesanato, praça de alimentação e um público bem diferente: famílias inteiras, crianças, idosos e um certo teor hippie escaldado sob o sol forte. O público, sem preconceitos e julgamentos opinativos sobre o atual cenário independente, recebeu todas as atrações com muitos aplausos e em clima de festa.

Quem teve a função de iniciar as festividades do último dia foram os mineiros Quarto de Tom, seguidos pela dupla radicada em São Paulo Duofel. Os dois “tiozinhos” que já encaram a estrada há 30 anos deram um show de maneirismos nos violões e deixaram muitos dos roqueiros presentes babando nas composições serenas e nos arranjos instrumentais bem talhados. Na seqüência, o músico Makely Ka, acompanhado de uma competente banda de apoio, também arrancou admiração dos presentes.

Já os cearenses O Quarto das Cinzas se aproveitaram do sol das cinco da tarde para destilar seu set de músicas contemporâneas misturadas com artes plásticas, danças e programações eletrônicas. A sobriedade do show junto com a candidez da vocalista Laya Lopes entorpeceu o público, que, desavisado, pareceu se surpreender demais com a apresentação. Já o clímax, na música “Circulares”, foi acompanhado no vocal por Diogo Soares, do Los Porongas. Um dos momentos mais sublimes do festival.

Para fechar as atividades do Jambolada 2007 o Móveis Coloniais de Acaju prometia levantar a poeira vermelha da praça. Com sorrisos estampados no rosto e a satisfação nítida de ter a incumbência de fechar mais um festival, a grande banda de Brasília chocou os presentes com suas misturas variadas de funk, samba, ska e tudo que você puder imaginar.

Do começo com “Menina Moça” até a paródia final com a cantiga “Se Essa Rua Fosse Minha”, o que se viu foi a alegria injetada em cada uma das 3 mil pessoas que acompanhavam ali uma das melhores bandas do país. A famosa roda em “Copacabana” foi climão total, “Aluga-se-Vende”, “Perca Peso, “Seria o Rolex?”, “Sadô-Masô” e muitas outras rechearam a apresentação de uma hora e deixou a todos extasiados. Belo final para um festival que promete crescer ainda mais.