Sexta insólita
por BRUNO DIAS - 27/09/2007
(SÃO PAULO/SP) - Sexta-feira numa cidade como São Paulo opções não faltam, principalmente no que diz respeito a shows. Na última sexta, dia 21, dois projetos de inclusão e disseminação cultural (cada um a sua maneira) eram os atrativos da noite: Antídoto (2º Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito), com shows do AfroReggae, Rappin’ Hood, Paula Lima, Arlindo Cruz e Cesar Lopez, no Itaú Cultural e a Invasão Sueca (projeto realizado pelo coletivo musical Coquetel Molotov em parceria com os produtores suecos da Raw Power UK e o Governo da Suécia, através do Swedish Institute, para divulgar artistas suecos no Brasil) com shows de Suburban Kids With Biblical Names e Maia Hirasawa, no Studio SP.

A noite começou com o Antídoto na Avenida Paulista. Com teatro lotado, e muitas pessoas esperando uma sessão extra do lado de fora do Itaú Cultural, o Antídoto escreveu mais um capítulo na história da música negra do Brasil.

Os anfitriões da noite – AfroReggae – já colocavam todos pra dançar quando chamaram ao palco o rapper Rappin’ Hood. A mistura de samba com hip hop começava ali, em uma versão do clássico “Sou negrão”, cantado em coro pelos presentes.

A roda de samba já estava armada com Afroreggae, Rappin’ Hood e Paula Lima, quando convidaram para entrar na dança o sambista Arlindo Cruz. A partir daí o que era pra ser uma apresentação engessada para gravação de DVD, tornou-se uma roda de amigos.

Arlindo Cruz e Rappin’ Hood protagonizaram o momento mais emocionante e histórico da noite cantando “Muito Longe Daqui”, música que conta o conflito entre polícia e bandido, na ótica dos dois lados. Com todos de pé, aplaudindo e sambando, Arlindo emenda outro clássico do samba nacional: “O Show tem que Continuar”, do grupo Fundo de Quintal.

Fotos: Bruno e Cirilo Dias
"Shut up you bastards!"

Entra e sai de público e a segunda sessão começa com Afroreggae. Logo na terceira música Arlindo Cruz repetiu a parceria com Rappin’ Hood em “Muito Longe Daqui”, para um novo público. Visivelmente sem fôlego, Arlindo não conseguiu emocionar como na primeira vez.

O outro convidado da noite que ainda não havia dado o ar da graça era o cubano Cesar Lopez, que veio ao Brasil tocar sua escopetarra (um fuzil AK-47 transformado em guitarra).

Rumo à Invasão Sueca

Saindo do Itaú Cultural rumo a Vila Madalena para ver o último dia da Invasão Sueca no Brasil.

A noite das diferenças é notada logo na entrada do Studio SP, o público ali era formado por indies modernos, com calças skinny e sneakers no pé. No Itaú Cultural, manos e minas, calças largas e cabelos black. A única semelhança dos dois grupos estava no pé, ambos não abrem mão de um sneaker estiloso.

Quem abriu a Invasão Sueca foi a cantora Maia Hirasawa. Armada apenas de um violão, e em algumas horas de um pequeno teclado, a cantora sueca com ascendência japonesa, destilou melodias doces embaladas por sua voz suave.

Só a qualidade de suas músicas não foi capaz de prender a atenção dos presentes em pouco mais de 40 minutos de show. Em alguns momentos as conversas paralelas chegavam a cobrir o som, principalmente de quem estava no fundo, longe do palco. No começo de uma música Maia chegou a chamar atenção do público, pedindo silêncio. Nem os olhares de repreensão daqueles que estavam a fim de ver o show foram suficientes para acabar com as rodinhas de conversa.

No intervalo de um show pra outro, que durou mais de 30 minutos, uma discotecagem com alguns sucessos indie. O dj parecia mais ansioso que público, pois cortava a maioria das músicas no meio.

Com um público animado (tinha até um grupinho em frente ao palco que não parava de pular, mesmo sem música) a grande atração da noite, Suburban Kids With Biblical Names, tomou conta da festa. O grupo formado por Peter Gunnarsson e Johan Hedberg, ganhou um terceiro membro, Rickard, para sua turnê brasileira.

O som era basicamente violão com algumas batidas eletrônicas. Em “Marry Me” o grupo adicionou um chocalho (outra semelhança com o show do Itaú Cultural) comprado aqui no Brasil, para delírio da galera que acompanhava a banda cantando música por música.

As músicas do show eram em sua maioria tiradas do último disco do SKWBN, # 03, como “Seems to be on my mind”, “Loop Duplicate my Heart” (com uma base eletrônica que colocou todos para dançar freneticamente), “Parakit”, “Trees and Squirrels” e “Noodles”. Entre uma música e outra o SKWBN tocou novas composições que deverão estar presentes em um próximo EP previsto ainda pra este ano.

As diferenças de público e estilo musical presentes no Antídoto e Invasão Sueca desaparecem quando pensamos no resultado dos dois eventos: a disseminação cultural seja ela em uma periferia ou vinda de um outro país distante do Brasil. E claro, a diversão. Todos voltaram satisfeitos para casa.

* Suburban Kids With Biblical Names - "Seems to be on my mind" (Ao vivo em São Paulo)



* Trecho de "Muito Longe Daqui" com Rappin´ Hood, Arlindo Cruz e AfroReggae, ao vivo no Antídoto 2007.