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Histórias incríveis
por MARIÂNGELA CARVALHO - 17/10/2007
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Não se importe com a narração fictícia proposta pelas esquisitices e experiências pessoais. Atente-se aos detalhes corriqueiros e a riqueza de informação na prosa do viajante Sebastião Estiva. Ele já esteve em muitos lugares e viu bastante do Brasil. Por enquanto é a vez de retratar mais sobre o estado do Paraná.
Neste faixa-a-faixa feito a convite do Urbanaque, Sebastião Estiva dissecou em pormenores a construção das verdades, mitos e falácias do estado sulino mais cool do país e lança agora pela Peligro Discos o primeiro disco “real”: Meu Paranã: Verdades, Mitos e Falácias. Piadas internas que viraram música e texto mais as súbitas ondas de ataque guerrilheiro-psíquico de Estiva dão ao trabalho certo status para figurar em listinhas de melhores do ano. A produção foi cautelosa, assim como os diversos arranjos e barulhos em background. Para ouvir com fones e saborear as mil delícias que são as inventividades dessa banda (?), grupo (?), trovador solitário (!).
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A voz ora sussurada ora supersônica, refrões melodiosos, colagens televisivas de heróis populares, qualidades do grunge, do britpop, do indie e algumas das melhores referências musicais dos últimos tempos são apenas um pouco do potencial mostrado por Sebá.
De histórias militares ao puro escracho, entre as 14 faixas você vai ouvir viagens eletrônicas, narrações cósmicas e outras descrições sobre o tempo/espaço em que o disco foi concebido e pensado.
Shows esporádicos, ensaios corriqueiros e até a promessa de um Mojo Book (coleção de e-books inspirada em discos) dão vida longa a Sebastião Estiva e suas mirabolantes pirações musicais. E que venham então os discos sobre Roraima (Monte Roraima), São Paulo, Pernambuco (Pernambeat) e Bahia, ainda engavetados nas mentes criadoras por trás do fenômeno que circunda o mito, no sentido mais extraordinário da palavra.
Por enquanto, conheça as faixas de Meu Paraná mais a fundo.
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Um Delicioso Almoço em Família No Madalosso - Propus neste disco uma ligação entre o meio ambiente antrópico e o litorâneo, com duas faixas instrumentais: Madalosso remete ao famoso restaurante de Curitiba - que era o maior do mundo e só perde nos dias de hoje para um em Bangkok - e possui um clima mais romântico devido à cultura italiana bastante disseminada no bairro onde fica. Já a faixa Um Autêntico Barreado Morretense No Madalozo reflete musicalmente mais o clima interiorano do belo restaurante de Morretes (litoral do Paranã) que serve o Barreado, prato típico da região e um dos meus preferidos.
Garritão - O título é uma corruptela do sobrenome do compositor de orquestras Gary Garritan, por causa do discreto arranjo de cordas no refrão. A letra tenta transpor em conceitos gerais as potencialidades e deficiências do Paranã: desde a falta de belezas naturais até a hierarquia política, que apesar de ser comum entre os estados, é regida por um governador bem peculiar; a maneira introvertida do curitibano, sua mania de falar sempre sobre o tempo - que se é algo comum no país todo, em Curitiba isso acontece mais devido às severas mudanças que podem acontecer em um mesmo dia. Cito também o trecho do Paraná que fiz em minha viagem pelo país em busca de auto-conhecimento e estudo, mas que acabei mais preocupado com o preço dos pedágios. Para se ter uma idéia, o trecho Litoral/Foz do Iguaçu possui 9 pedágios, que dá em torno de 70 reais! A frase "meu amor não é hipócrita" é uma referência e homenagem à superbanda carioca Cabelo Veludo, cujo EP de estréia não sai da minha vitrola há mais de 2 anos.
Antropologia! - Essa música é baseada na história verídica de um grande amigo, Dennis Romani, em uma de suas viagens para a capital paranaense. Mesmo contra sua vontade, Romani passou a noite no famoso bar indie James e acabou gostando, revelando uma noite decisiva em sua vida. É uma música que retrata o universo noturno de uma cidade metropolitana, como bares, ruas, impunidade policial e também a libertação de preconceitos, como o homossexualismo.
Tenente Rodrigues - O herói da guerra do Paraguai dispensa introduções. Felizmente ele ainda é tópico nas aulas de história para o pessoal do colégio. Não podia ser por menos: seu feito foi fundamental para a liberdade e democracia no Brasil, evitando o sucesso dos países do chamado "eixo-do-mal" em deflorar nossas terras. Passando pela sede do Arquivo Cultural de Audio de Maringá, encontrei registros sonoros das armas utilizadas na guerra, e não hesitei em utilizá-las nesta música para criar um lindo clima épico de guerrilha. Perceba isso ouvindo a música em um som com surround 5.1.
Parananá - Fiz essa após uma amiga minha (Naiane) me contar uma alucinação induzida por substâncias ilícitas, no qual ela era atropelada pelo famoso "Carro do Sonho", bastante comum em Curitiba. Naná me contou que após esse sonho, ela teve várias noites de pesadelo com a cena do acidente repetindo incessantemente em sua cabeça. As notas iniciais de "Parananá" simbolizam essa repetição, baseada na descrição de Naiane. Fiz uma música alegre e letra descompromissada para contrabalancear essa história e ajudar minha amiga a superar os traumas com o Carro do Sonho, que aparece em sample no final da faixa.
Véio Safado (Para Dalton Trevisan) - Escrevi a letra dessa canção inspirado em não apenas um, mas vários contos de um dos meus heróis paranaenses, o escritor Dalton Trevisan. Fiz uma mistureba, adaptei e criei uma nova história de sexo, amor e ódio baseado nessas grandes obras da literatura brasileira. Em meus shows, sempre introduzo essa música fazendo um pequeno teatro com os Anões da Resistência, minha banda de apoio, onde encenamos parte de seus textos como uma breve homenagem.
A Última Moda Em Londrina - Quem já foi a Londrina sabe: o povo londrinense está sempre antenado no que é novidade na moda. É comum ver estilistas e visionários deste local indo pra Curitiba e trazendo na sua bagagem o que a capital dita no ramo de estética e cultura. Esta música retrata todo o glamour e charme desta pequena Londres incrustada no meio dos milharais. O título original desta música era "Last Night I Saved Rock And Roll", por questões óbvias.
Para Fazer Tai-Chi Nas Cataratas do Iguaçu - Uma certa tarde de domingo, liguei para o [Hakaima] Sadamitsu e perguntei se ele não gostaria de me acompanhar em um passeio pelas cataratas. Vinte minutos depois ele me pegou em casa e fomos dirigindo até Foz, onde nos juntamos a um grupo turístico e gravamos alguns sons naturais do local. Tivemos que nos distanciar do grupo em alguns momentos, pois as pessoas se acumulavam para pegar nossos autógrafos e a gritaria era muito grande, o que prejudicava a captação de sons do ambiente.
Eu Aposto Que Você Parece Uma Puta Na Pista De Dança - Esta é auto-explicativa: em uma noite no Wonka Bar, fiquei intrigado pelos tipos femininos presentes e elaborei uma história baseada nos exemplos à minha volta, que estavam perdendo as estribeiras enquanto o agora famoso DJ Gorky discotecava.
Bom Retiro - Morei 2 anos em Curitiba e um dos empregos que obtive no período foi na portaria do Hospital Bom Retiro, neste mesmo bairro. Minha função era basicamente registrar a entrada e saída de visitantes, profissionais e "clientes" do hospital. Não era lá uma profissão muito gratificante, apesar de ocorrerem fatos interessantes como a fuga de pessoas portadoras de deficiências neurológicas e alguns ex-pacientes voltarem ao hospital querendo ficar por lá novamente, devido à falta de estrutura familiar, a ocorrência de um regime semi-aberto de doentes e até a própria alta destes pela falta de recursos do hospital. Um destes pacientes, que não citarei o nome, me deixou uma carta retratando basicamente a letra da música toda, no qual eu adicionei melodia e alterei a ordem de alguns versos. Apesar de aparentemente a carta não ter nexo algum, o estudo que obtive e o resgate do histórico do paciente me provaram que a carta tinha sim muito sentido.
Francine Terá Sua Vingança Em Curitiba - Além da referência óbvia do título a uma música de uma das bandas mais famosas dos anos 90, se refere à musa Francine, a Paris Hilton brasileira, flagrada por uma câmera noturna falando obscenidades. A idéia da música era falar em terceira pessoa, tratando desde o caso em si como ligações indiretas, como o preconceito e a hipocrisia das pessoas, além da evolução dos meios de comunicação que permitiram gestos assim serem cada vez mais freqüentes. Conheci a Francine pessoalmente e posso afirmar que ela é uma pessoa ótima, extrovertida e divertida, e que o vídeo foi apenas um tiro pela culatra do seu jeito de ser e que não necessariamente reflete como ela é pessoalmente.
Exodus - Durante uma de minhas viagens pelo interior do Paraná, conheci Seu Amâncio num posto de gasolina, um rapaz tímido e educado que levava sua esposa e suas seis filhas apertados dentro de uma Brasília 79. Trocamos um ou dois dedos de prosa e me interessei muito por sua história. Na mesma hora saquei o violão, compus letra e música inspiradas nele e pedi gentilmente para que cantasse no meu gravador portátil, e depois mixei sua voz por cima da versão de estúdio gravada pelos Anões. O título originalmente era "Êxodo Rural e Urbano: Um retrato sócio-demográfico", mas teve que ser encurtado devido ao espaço físico limitado do encarte.
Curitiba -Nasceu no dia que o grande compositor e DJ japonês Hakaima Sadamitsu esqueceu o laptop dele aqui em casa. É sobre como um lugar pacato pode se tornar uma gigantesca base militar no futuro e no passado ao mesmo tempo. É também um apelo anti-tabagista.
Defensa Paranã - Música escondida do disco, começa após Curitiba. Fiz essa música no celular de última geração do Nenê, enquanto estava acontecendo o show no Milo Garage em São Paulo e eu estava confinado a uma latrina no banheiro do hotel, por isso não pude ir à minha própria apresentação. Compus essa pequena opereta eletrônica em meio a mensagens sms e vídeos que troquei ao longo da performance da minha banda naquela noite.
Meu Paranã pode ser baixado na íntegra na página do Trama Virtual, assim como os outros 4 discos: www.tramavirtual.com.br/sebastiao_estiva
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