Grito de independência
por BRUNO DIAS - 18/10/2007
(São Paulo/SP) Em seu nono álbum, Daqui Pro futuro, o Pato Fu entra (ou volta?) de cabeça no mercado independente e mostra-se mais antenado do que nunca. Para muitos uma atitude como essa só é tomada após levar um pé-na-bunda da gravadora, mas o Pato Fu mostra que essa é uma opção viável. “Acho que o Pato Fu tem lastro pra tomar uma decisão dessa”, afirma a vocalista Fernanda Takai.

E como tem. O novo álbum mostra que os mineiros continuam evoluindo sonoramente e não apenas amadurecendo (ou ficando chato). Com total produção do John, Daqui Pro Futuro, é um disco mais calmo, que reflete exatamente o momento de liberdade vivido pelo grupo.


O disco foi lançado primeiro pela internet, os clipes e todo o trabalho de divulgação agora é feito pela própria banda. O que mais pode se esperar de uma das bandas mais regulares do Brasil? Muito, principalmente porque Daqui Pro Futuro marca uma nova fase na carreira.

Além disso, o Pato Fu está escalado para fechar uma das noites do 13º Goiânia Noise, e para liderar as bandas nacionais no festival Planeta Terra. Para falar um pouco mais dessa nova fase, e claro, falar sobre o novo disco, o Urbanaque conversou com a vocalista Fernanda Takai. Acompanhe abaixo:

Urbanaque - Porque vocês resolveram lançar Daqui Pro Futuro primeiro online e depois em CD físico? Vocês acham que agora a tendência é cada vez mais artistas brasileiros lançarem dessa forma? Vocês já pensaram em lançar pen-drives ou algo do tipo com o disco novo ou de repente com a discografia de vocês completa?

Fernanda - Sim, lançamentos online são um marco dos tempos modernos na música. Se o álbum está pronto, mas ainda leva alguns bons dias pra ficar pronto na fábrica, por que não adiantar pra quem já consome música somente nesse formato? E também pros fãs afoitos que não se agüentam esperando. Do nosso lado é muito bom mostrar logo o material novo.

Fotos: Divulgação
"Agora é assim: dá pra fazer? Vamos fazer!" 
É natural que daqui a pouco todos os nossos discos e canções raras estejam online. Assim que a gente puser a turnê na estrada, vou cuidar disso sim.

Urbanaque - Voltar a ser independente foi uma evolução natural dentro da situação em que se encontra o mercado musical? Qual a razão da banda ter voltado a "andar com as próprias pernas"? Não ter uma grande gravadora apoiando faz a diferença?

Fernanda - Desde o Toda Cura Pra Todo Mal já tínhamos voltado a “andar sozinhos”. A primeira vez foi com o Rotomusic, em 93! Acho que o Pato Fu tem lastro pra tomar uma decisão dessas. É tudo mais difícil em termos de logística, verba, mas temos a agilidade na tomada de decisões, temos a carreira nas mãos desde o cronograma a parcerias. Então só vamos trabalhar com quem goste da gente de verdade.

Urbanaque - Qual a principal diferença de Daqui Pro Futuro com relação aos outros trabalhos do Pato Fu?

Fernanda - É um apanhado de canções mais delicadas, mais contemplativas, eu diria. Como toda etapa em nossa carreira, tentamos evoluir pra algum lado. Essa foi a vez da composição e suavidade.

Urbanaque - Quem teve a idéia de gravar "Cities In Dust" (Siouxsie & The Banshees)?

Fernanda - Eu, Lulu e John estávamos ouvindo um bocado de coisas dos anos 80 pra fazer uma versão no show que fizemos em Londres no ano passado, pra gente se aproximar mesmo das pessoas que nunca tinham ouvido falar de Pato Fu na vida. Aí apareceu essa música, de uma banda tão importante quanto eles. Os brasileiros que tinham mais de 30 anos gostaram demais e os locais também. Então, como já é uma constante nos nossos discos, colocamos essa versão lá.

Urbanaque - Além de produzir o disco, o John também dirigiu o clipe do primeiro single "30.000 pés" e de "Cities In Dust". O desafio de produzir um disco do Pato Fu sozinho já havia sido conquistado em Toda Cura Pra Todo Mal, e agora apenas foi consolidado. Queria que você falasse um pouco sobre essas "novas" funções desempenhadas na banda. Como ele se sente agora como diretor dos clipes de vocês?

Fernanda - A gente gosta muito de fazer vídeos com outros diretores que tem o seu jeito próprio de contar as histórias de cada música, mas nesses tempos urgentes e sem muita verba, temos é que não deixar de fazer as idéias que aparecem. Agora é assim: dá pra fazer? Vamos fazer!

Urbanaque - Lembro de você ter comentado que a Nina (filha do “casal Fu”) não é uma referência direta nas músicas de vocês. De que forma ela influencia na composição das músicas?

Fernanda - Bem, digamos que ela foi direta em "Mamã Papá". Nossa filha nos influencia de forma muito positiva, mas subjetiva em relação à vida como um todo. Tê-la com a gente é algo muito precioso. Um presentinho mesmo. E temos que ser pessoas melhores pra poder construir um futuro melhor pra ela também.

Urbanaque - Esse é o nono disco da carreira de vocês. O que isso significa pra banda? Quantas bandas que começaram quase juntos com vocês que alcançaram essa longevidade?

Fernanda - Significa que temos ainda muita vontade de fazer músicas novas, sair em turnê, viver dessa música que fazemos. Algumas bandas duram bastante também, mas não sei como anda o ambiente entre eles, a faísca criativa. É uma pena que outras bandas de nossa geração tenham acabado tão rápido.

Urbanaque - Durante esse período que antecedeu o lançamento de Daqui Pro Futuro vocês participaram e fizeram alguns projetos fora do Pato Fu. Queria que você falasse um pouco sobre esses trabalhos?

Fernanda - Ricardo fez dois projetos: Let´s Presley (onde cantava e tocava só Elvis) e um trabalho autoral solo como cantor e compositor. Xande participou de algumas bandas de música preta brasileira, atualmente tem o Preto Massa e continua a dar suas canjas no jazz. Lulu Camargo tem um projeto bem legal chamado Undesignio e também o Tango Asimov Fantástico. John produziu discos do Digitaria, Érika Machado, Nico Nicolaiewsky, trilhas pra espetáculos e TV. Eu é que não tive um projeto só meu. Cantei com vários artistas novos, gravei trilhas de TV, mas só no fim desse ano é que sai oficialmente meu projeto dedicado à obra de Nara Leão. A expectativa é muito boa. Houve uma prévia dele na São Paulo Fashion Week e foi ótimo!