(EM RIO BRANCO, ACRE) Durante os dias 19 e 20 de outubro, Rio Branco no Acre virou a capital da integração da música sul-americana, com a terceira edição do festival Varadouro. Piadinhas e clichês a parte, o pessoal do coletivo Catraia mostrou não só a existência do Acre (e de uma crescente cena local), como um profissionalismo, e principalmente, uma evolução no quesito grandiosidade e produção. Para o Varadouro 2007 foi montada uma arena no estacionamento do novíssimo (candidato a sede da Copa do Mundo de 2014) estádio Arena da Floresta, com dois palcos e espaço para receber 4 mil pessoas.
Mesmo com uma estrutura invejável, entrada gratuita e uma escalação com alguns dos principais nomes da nova música nacional - como Superguidis, Los Porongas, O Quarto das Cinzas, Ludovic, e Madame Saatan -, o público ficou abaixo do esperado nos dois dias de festival.
Sexta-feira, 19 de outubro
A chuva que apareceu no final da tarde serviu para atrasar em quase duas horas a primeira noite. Enquanto a produção cuidava dos últimos detalhes para proteger os palcos da água, a espera tomava conta de jornalistas e bandas que tocariam no evento naquela noite.
Devido ao atraso para chegar até o local do evento (um pouco afastado do centro da cidade, motivo que pode ter causado o pouco público), não foi possível ver a primeira banda da noite – Survive (AC). A demora foi tanta que só deu pra ver o final da apresentação dos “metaleiros” do Escalpo (AC). Eles fariam o terceiro show, mas tiveram que se adiantar por causa dos instrumentos dos garotos do Recato (RO) que estavam no ônibus que transportava o último grupo de pessoas dos hotéis para a arena.
A inversão na programação favoreceu a Recato (RO). Mesmo com a chuva fraca e constante, algumas pessoas já começavam a se aglomerar em frente ao palco para ver o “Los Hermanos” de Rondônia. Uma surpresa vinda de um estado onde predominam bandas de metal e hard core.
Por falar em metal, adeptos do hard-rock-metal-farofa, os cuiabanos do Lord Crossroad mostraram aos acreanos como elevar os clichês do gênero ao nível máximo. Como entretenimento a banda até que funciona, mas custa acreditar nas rimas dos caras, um exemplo: “três oitão” com cuzão, e por aí vai. Em uma das letras uma história bizarra narra o encontro de um pai com seu filho recém-nascido em um boteco.
A outra revelação da noite foram os amazonenses do Tetris. Com visual e som inspirados nos Strokes, a banda mostrou que é possível fazer rock simples e com qualidade. Destaque para o vocalista Paulo Matheus, que mostrou presença de palco e um vocal ora gritado, ora melódico, transparecendo honestidade naquilo que estava cantando. A banda estaria pronta para rodar o país não fosse a guitarra um pouco engessada e sem velocidade de Marcos. Pode ter sido o nervosismo.
Tetris - "Constante inconstante".
A primeira surpresa vinda do Acre foi o Filomedusa. Liderados pela carismática vocalista Carol (uma das pessoas que ajudam a movimentar o cenário acreano, e idealizadora do coletivo Catraia, ao lado do baixista Daniel Zen, atual Secretário de Cultura do Estado) a banda é uma espécie de “versão feminina” do Los Porongas – com letras bem escritas e instrumental com guitarras dissonantes, formando uma boa harmonia. O Filomedusa já possui um grande público no Acre, era fácil ver as pessoas cantando junto com Carol músicas como “Batcaverna”.
Os gaúchos do Superguidis provaram que não importa onde estejam, sempre vão existir adolescentes (principalmente garotas) cantando todas suas músicas. O show ajudou, com o repertório enfatizando o primeiro disco, Superguidis (muito tocado em uma rádio local): “Spiral arco-íris”, “O Tranquêra”, e “O raio que o parta”.
Superguidis - "Spiral arco-íris".
Novas como “Por entre as mãos”, “Mais do que isso”, “A exclamação” (com um erro de Andrio na segunda parte da música) e “O cheiro de óleo”, mostraram a força das guitarras da banda com seus pedais comandados por Lucas. No final, “Malevolosidade” (a mais pedida pelo público) e “Riffs”. Show que reforçava mais uma vez o título de melhor banda do cenário.
Camundogs (AC) e Madame Saatan (PA) fecharam a primeira noite do festival com um contraste de estilos. Os acreanos, adeptos confessos do power-pop, podem ser considerados hoje a segunda banda mais comentada do Acre, ao lado do Los Porongas.
No show o vocalista Aarão Prado (com um vocal que remete os momentos mais tristes e bregas de Renato Russo) destilou suas poesias românticas em faixas como “Espelhos”, "Encruzilhada Blues", “Antes Só” e "Jully". A chuva que se tornou uma garoa constante ajudou a criar o clima do show.
Camundogs - "Espelhos".
No outro palco, assim que se apagaram as luzes do show do Camundogs, os paraenses do Madame Saatan (os mais prejudicados pelos atrasos e pela chuva) botaram fim a calmaria com seu metal amazônico, abrindo com a pedrada “Gotas em caos”.
Madame Saatan - "Gotas em Caos"
A chuva chegou a atrapalhar o entusiasmo da vocalista Sammliz, que quase caiu do palco após se empolgar e escorregar. O show foi baseado no recém-lançado primeiro álbum do grupo, Madame Saatan, com destaque para as músicas “Molotov” e “Cine trash”.
Debaixo de uma garoa fina e muito metal foi o saldo final do primeiro dia do festival Varadouro 2007.
Sábado, 20 de outubro
Sem a chuva do primeiro dia e com um clima agradável, a última noite do Varadouro conseguiu dobrar em público. A abertura da maratona de nove shows ficou a cargo dos locais Marlton. Banda jovem, que segue a tendência emo core que vem predominando nos mp3 players da molecada. A única coisa que diferencia um pouco o Marlton são as influências de metal melódico, principalmente nos solos (muitas vezes mal colocados no meio das músicas).
Seguindo a linha do Lord Crossroad (MT), e representante legítimo do hard rock oitentista, predominante no Norte do país, o Mr. Jungle (RR) fez o público viajar no tempo. Destaque para a calça “cor-sim-cor-não” coladinha do vocalista Manoel Vilas Boas, que só faltou rebolar como Axl Rose para completar a caricatura.
As locais Blush Azul e Nicles, ambas com faixas na coletânea do coletivo Catraia (distribuído no festival), podem ser os próximos destaques do Estado se conseguirem amadurecer sonoramente, principalmente a banda de “meninas e um menino”, Blush Azul (que sofria com a má afinação da vocalista Irlla Narel. Nada que o tempo não conserte). O Nicles, que já tocou em festivais pelo Brasil, mostra um som inventivo e bem pontuado transpirando influências de bandas dos anos 80 como Joy Division (guardada as devidas proporções). Teclado e até um megafone ajudaram na performance do grupo.
Blush Azul - "Aqui não mais".
Com uma série de problemas, que vão da ausência de um baixista (suprida pelo vocalista Jair Naves, que chegou a pedir desculpa ao público oferecendo-lhes a única coisa que tinha – boas músicas), troca de baterista, a problemas técnicos na guitarra de Ezekiel, o Ludovic não fez um de seus melhores shows.
Por conta da posição de baixista, Jair não pôde se soltar muito no palco e fazer mais uma de suas insanas apresentações. Mesmo assim o Ludovic conseguiu manter a intensidade (marca registrada de seus shows) tocando músicas de seus dois cds - Servil (2004) e Idioma Morto (2006).
Ludovic - "Boas sementes, bons frutos".
Os veteranos do Mapinguari Blues (AC), há 11 anos disseminam o (bom e velho?) blues aos jovens acreanos, influenciando toda essa nova geração de bandas. As letras, recheadas de fatos do cotidiano local e crítica social, agradaram os presentes. Durante o show uma homenagem ao seminal grupo Flora Sonora (que tenta iniciar um processo de resgate das origens da música acreana, através de Beto Brasiliense) ajudou a conectar o Mapinguari Blues com o público.
Fazendo a conexão com a natureza local, e pedindo permissão para “entrar”, o trio cearense de trip-hop O Quarto das Cinzas conseguiu hipnotizar mais uma platéia. A sempre boa performance vocal e corporal de Laya Lopes combinada às guitarras de Carlos Eduardo Gadelha (cada dia tocando mais) em músicas como “Viciante”, Anoiteço” e “Circulares” (essa mais uma vez com participação de Diogo Soares do Los Porongas) foram suficientes para arrebatar uma nova gama de fãs.
O Quarto das Cinzas, com Diogo Soares (Los Porongas), - "Circulares".
O Los Porongas correspondeu às expectativas fazendo jus ao título de show mais esperado do Varadouro. Atualmente em São Paulo, Diogo Soares (vocal), João Eduardo (guitarra), Jorge Anzol (bateria), e Márcio Magrão (baixo), são os grandes responsáveis em colocar a música acreana no mapa. Visivelmente emocionado com o carinho (e a saudade) do público, Diogo fez um dos shows mais intensos do Los Porongas, por muitas vezes o vocalista teve que segurar a onda para não ceder às lágrimas que insistiam em vir.
Músicas como “Nada Além”, “Lego de Palavras”, “Suspeito de Si”, e principalmente “O espelho de Narciso” (cantada em uníssono pelos presentes, e com uma citação ao Flora Sonora no final), emocionaram a todos, fazendo do show um verdadeiro culto. Um dos grandes momentos da apresentação aconteceu quando a banda convidou o baterista Hermógenes (Grupo Capú), ídolo de Jorge Anzol, para uma versão de “S.O.S.”, do Capú. O festival certamente poderia ter terminado ali, mas ainda restava a atração internacional – Turbopótamos (Peru).
Los Porongas com o baterista do Grupo Capú, Hermógenes - "S.O.S.".
Talvez escalar o Turbopótamos para fechar o Varadouro não tenha sido uma boa idéia, muitas pessoas ficaram apenas nos minutos iniciais do show e logo tomaram o rumo de suas casas. Apesar disso, os peruanos conseguiram cativar os que ficaram (alguns ajudaram a banda no refrão de “No, no, no”) com sua mistura de ska com surf music.
Turbopótamos - “Kitty”.
A terceira edição do Varadouro fechou da melhor forma possível: enaltecendo a união sul-americana que começa a ganhar força no cenário independente.