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Jive Talk
por MARIÂNGELA CARVALHO
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Novamente pela Editora Ediouro, William Burroughs foi editado e lançado no Brasil. Desta vez com a versão definitiva de Almoço Nu, famoso Naked Lunch.
Burroughs volta para contar os entremeios de suas viagens e psicodelias e ficar no meio termo entre a sanidade e a loucura completa. Emprestando qualidades do Movimento Dadaísta - de artistas como Man Ray, Marcel Duchamp e Max Ernst - e fazendo Literatura Cut-Up, o ritmo de leitura é tão intenso quanto as palavras. Frases sem sentido, num mesmo contexto – Burroughs se aproveita de notícias coletadas de jornal para montar seu texto sem direção e inclui alguns daqueles diálogos impossíveis, mas fantásticos.
“Delinqüentes roqueiros no auge da adolescência tomam de assalto as ruas de todas as nações. Invadem o Louvre e jogam ácido no rosto da Mona Lisa. Abrem portões de zoológicos, manicômios e prisões, arrebentam encanamentos com martelos pneumáticos, arrancam o assoalho dos toaletes de aviões, apagam faróis à bala, limam cabos de elevadores até que fiquem com a espessura de um fio de cabelo (...) , promovem rachas suicidas no comando de ônibus e aviões de passageiros, usam jalecos para invadir hospitais carregando serrotes e machados e bisturis com um metro de comprimento...”
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Apesar de toda a dispersão em texto, o autor ainda encontra tempo, espaço e inspiração para dar uma boa lavada na sociedade de consumo – não importando qual tipo de consumo. E, como sempre, ele vai falar de muitas drogas. E vai falar muito sujo sobre sexo, paranóias e instinto humano. E você, com certeza, vai entrar em paranóia também.
A conversa de Burroughs se estende em histórias que qualquer um pararia para ouvir. Conversas absurdas, surreais vão aumentando com o avançar do livro. Os assuntos que ficam na metade do caminho entre a nojeira e lascividade de Charles Bukowski e o bicho-grilismo mais influente da Literatura Beat, Jack Kerouac, trazem este novo estilo, o Cut-Up. A falta de linearidade e a sujeira fazem deste, Almoço Nu, uma versão inventada de como se escrever. Diferente de Junky, On the Road e O Uivo (marcos definitivos na Literatura dos anos 50 e 60), Almoço Nu traz peculiaridades como as paixões sensoriais de seu autor.
Por vezes ácido e por outras parecer que Burroughs sussura suas histórias, você pode sentir os altos e baixos naquela realidade. O livro te deixa imundo e você se consente da podridão humana que há em todo e qualquer lugar.
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ALMOÇO NU - William S. Burroughs
Editora: Ediouro. 240 páginas.
Preço médio: R$ 23,00
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“O resultado final da proliferação celular completa é o câncer. A democracia é cancerosa, e seu câncer são as repartições. Uma repartição cria raízes em qualquer parte do Estado, tona-se maléfica como a Divisão de Narcóticos e cresce de forma incessante, reproduzindo cada vez mais indivíduos de sua espécie até o ponto em que, se não for controlada ou extirpada, acaba por asfixiar seu hospedeiro. Repartições não são capazes de viver fora de um hospedeiro, pois são organismos verdadeiramente parasitas. (...)”
E embora o livro tenha sido escrito no final da década de 50, trechos sobre a paranóia americana são ajustáveis a hoje:
“(...) Americanos morrem de medo de abrir mão do controle, de deixar as coisas acontecerem por si sós, sem interferência alguma. Se fosse possível, entrariam dentro dos próprios estômagos para digerir a comida e depois enfiar a merda para fora usando pás.”
Nesta versão definitiva ainda se pode compartilhar de mais anotações do próprio autor, apêndices que explicam melhor como as coisas aconteceram e como foram as sucessivas edições do livro até chegar nesta. Cartas, comentários e anexos de amigos íntimos (como Allen Ginsberg e Jack Kerouac) e de editores contam as reais histórias das epopéias vividas por William Burroughs para conseguir lançar seu trabalho. Nas palavras dos mesmos: “Almoço Nu é uma cópia heliográfica, um pré-livro...”
Também com depoimentos do próprio autor e reflexões sobre as agruras e prazeres de um drogadicto, são quase 100 páginas adicionais que valem ser lidas com atenção nesta versão. A evolução e o retrocesso da doença exaltada pela junk.
“Como sempre, o almoço está nu.”
- Leia também: “Junky”, de William Burroughs;
“On The Road”, de Jack Kerouac;
“O Uivo”, de Allen Ginsberg;
“Trainspotting”, de Irvine Welsh.
- Leia e ouça: Muse e Radiohead.
- Leia e assista:
“Trainspotting”, dirigido por Danny Boyle;
“Drugstore Cowboy”, dirigido por Gus Van Sant.
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