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Pacotão Rock'n'Roll
por BRUNO DIAS e MARIÂNGELA CARVALHO
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(SÃO PAULO/SP) Para nós, um Natal rock seria ganhar um monte de presente. E foi com este pensamento que preparamos essa lista. Coisa fina, especial.
Beijar o Céu - Simon Reynolds
Editora Conrad, 2006
www.conradeditora.com.br
A coleção Iê Iê Iê da Conrad tem se mostrado útil. Desde o ano passado, a editora já lançou no mercado quatro exemplares da prodigiosa escrita sobre rock. Veja bem: é escrita, não literatura. Dentro dos ambiciosos e didáticos livrinhos, textos críticos, resenhas, pitacos e história dividem as trajetórias de tempo e espaço do rock, contados por críticos. Críticos mesmo, não marketeiros.
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Depois de Lester Bangs (Reações Psicóticas, 2005) e Greil Marcus (A Última Transmissão, 2006), agora foi a vez de Simon Reynolds e Nick Tosches serem transformados em prazerosa leitura, em formato quase pocket.
Simon Reynolds, que teve as manhas de escrever para os mais importantes nomes da imprensa musical estrangeira (como a Melody Maker, New York Express e o Guardian) chega á mão dos brasileiros editado em seus melhores textos.
Visões antológicas como o paralelo que traça entre Nirvana e Pearl Jam ou definições factuais do que foi o grunge ("espírito hostil do punk com o desespero do rock pesado", em "Blues da Castração") indicam que Reynolds não é um charlatão tendencioso. E isto se confirma quando estabelece um novo momento na música: o "pós rock". O olhar e opinião analíticos de "casos" como o Radiohead e Morrissey são arrasa-quarteirão: Reynolds não te deixa pensar em meio a um turbilhão informativo.
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| Fotos: Divulgação
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O texto "Radiohead" é um raio-x dos ingleses, onde a banda é descrita além do ponto musical após o lançamento de Kid A. O Radiohead é quase uma entidade contrária para os padrões daquilo que costumou-se chamar de rock. Eles fazem "ciência vocal" e "desenvolveram uma gramática de barulhos, fazendo uma interface entre voz e tecnologia", e culminam em comentários como "em vez de autodestruição, o Radiohead acabou ficando com a autodesconstrução", por Reynolds.
Chegado a uns pontos teóricos, se utilizando de um vocabulário extenso, amplo e até acadêmico, o jornalista é observador da estética, postura, comportamento e sociedade que o rock - ok, ok: a música pop - ocupa.
Reynolds vai de um longo texto explicativo sobre o que restou em Manchester após o Joy Division e o que nasceu com o New Order para relatos corriqueiros do que acontece em cena vizinha ao rock: o rap e o hip hop.
"Dois dos artistas mais completos e inovadores do planeta", Missy Elliot e Timbaland ganham definições como "obcecados com o futuro" e "manipuladores de ritmos digitais, criadores de sons sinistros". Tem Puffy Daddy e a maneira como ele despertou a inveja dentro de seu gueto ao construir um "império de entretenimento" próprio. Além de um contraste entre o rap britânico e americano e o nascimento da cultura "Grimme"
Os mais "puristas" podem torcer o nariz e nem mesmo se lembrar dos textos finais de Beijar o Céu, mas é ali que você percebe onde Simon Reynolds rende dentro do nicho da crítica musical: muito além do rock, ele está falando de música pop.
Em prefácio escrito especialmente para a edição brasileira, Simon Reynolds - após contar sua saga precoce e o açougue que se tornou a crítica de música no mundo - parece sussurrar ao leitor: "eu ainda acho que a crítica de rock deveria ser como era na minha juventude. Deveria ser zelosa, ardente, ridiculamente polarizada em seus julgamentos; ela deveria se arriscar a incorrer no absurdo de levar as coisas a sério demais; deveria estar embriagada de seu próprio poder. Tudo bem, os escritos em si não precisam necessariamente ser malucos e irracionais, nem espumar como cão raivoso - eles podem ser precisos, controlados, severos até. Mas seu efeito deveria ser o da verdade dando um soco na boca do leitor". (MC)
Criaturas Flamejantes - Nick Tosches
Editora Conrad - 2006
www.conradeditora.com.br
Antes do rock se tornar pop, ele foi algo primitivo, simples e de boa digestão. E antes de ser rock, ele foi blues, depois jazz, freqüentou honky-tonks e desde então vem colecionando estórias lunáticas, como as contadas por Nick Tosches em Criaturas Flamejantes.
Tosches é mais como um estudioso, um historiador. De pesquisa profunda em origens, termos e personalidades do rock, o autor vai desmembrando em datas as décadas de 50 e 60, onde figuram velhos conhecidos: Bill Halley, Elvis, Jerry Lee, Johnny "Fucking" Cash, Carl Perkins e todo aquele seleto grupo de transviados. Os primeiros.
Tendo como ponto de partida o primeiro disco de rock'n'roll a entrar nas paradas pop ("Sixty Minute Man", dos Dominoes), a cobertura vai até o nascimento do rockabilly - o rock misturado aos arquétipos do hillbilly e do country.
Enquanto o "temperamento do rockabilly beirava a insanidade", Nick Tosches descreveu o mito Elvis e vasculhou a vida do "último americano selvagem": Jerry Lee Lewis. Para ele, Jerry Lee foi um lorde do excesso e durante seu auge, em 1958, "projetava a persona mais infernal do rock. Era mais temido que todos e odiado da mesma maneira. Pastores vociferavam contra ele, mães sentiam sua presença fedida na roupa suja das filhas e moleques invejavam seu jeito muito, muito depravado".
Poucas pessoas foram tão peculiares como Lewis e Tosches deu a importância exata ao fato. Mais rock'n'roll impossível. (MC)
O Gato por Dentro - William Burroughs
L&PM Pocket, 2006
www.lpm.com.br
O ser humano é vulnerável naquilo que mais ama. No caso de William Burroughs, gatos. O Gato por Dentro, retrato particular sobre a fissura, a dependência sentimental e a devoção que Burroughs matinha pelos felinos, é uma leitura constrangedora.
Acima do amor que devotou a seus gatos, o autor comparou o instinto humano ao dos bichos e parece concluir que temos poucas diferenças, afinal "nós somos os gatos por dentro".
Em divagações intimistas, William Burroughs soa estranho ao falar de uma das obsessões que lhe sobrou depois de suas depravações: o prazer da observação do comportamento de seus amigos selvagens.
Burroughs continua fatídico e tão articulado quanto em seus livros mais memoriais (Junky e Almoço Nu). Mas desta vez, sua salvação é o contato que mantém com bichanos fabulosos e não drogas.
"Eu já disse que os gatos servem como Familiares, companheiros psíquicos. "Eles são mesmo uma companhia." Os Familiares de um velho escritor são suas memórias, cenas e personagens de seu passado, real ou imaginário. Um psicanalista diria que eu estou simplesmente projetando essas fantasias em meus gatos. Sim, de maneira bem simples e literal, os gatos servem como telas sensitivas para atitudes bastante precisas quando escalados em papéis apropriados. Os gatos podem ser meu último elo vivo com uma espécie moribunda". (MC)
O menino - Edward Bunker
Editora Barracuda, 2006
www.ebarracuda.com.br
Após lançar Cão come cão, Educação de um Bandido (auto biografia), e Nem os mais ferozes, a editora Barracuda presenteia os fãs de Edward Bunker com mais um de seus romances. Desta vez o lançamento se trata do terceiro romance de Bunker, originalmente lançado em 1980 - O Menino.
Pra quem já leu os livros citados, principalmente Educação de um Bandido, sabe que Bunker escreve seus romances baseados em experiências reais de vida, afinal o escritor temporão (se é que podemos chamá-lo assim) passou 18 anos de sua vida em instituições prisionais dos EUA (local onde despertou o interesse pela literatura).
O menino conta a história do problemático garoto Alex Hammond. Abandonado pela mãe e tendo apenas uma figura paterna decadente como exemplo (que não possui condições de criá-lo), Alex é levado bem jovem para internatos militares e casas de apoio a jovens, mas devido a seu temperamento forte e dificuldade para cumprir ordens de superiores ignorantes, não pára em nenhuma delas.
Sua vida no crime começa logo aos 11 anos. Ainda uma criança inocente, Alex foge do lar onde seu pai o havia deixado e na companhia de um de seus muitos amigos, resolve roubar comida e doces de uma loja. Ao serem surpreendidos pelos donos, Alex atira e fere com gravidade um policial aposentado. A partir daí a vida do garoto muda totalmente: seu pai morre enquanto o procurava junto com a polícia após ter fugido do incidente na loja; Alex inicia sua trajetória em cadeias e reformatórios para menores infratores.
O destino, a influência de colegas, os códigos de conduta do submundo, e uma porção de tentações do mundo do crime, fazem Alex ir perdendo aos poucos sua inocência. As únicas coisas boas na vida do garoto são os momentos de liberdade (geralmente durante as fugas) e o prazer proporcionado pela literatura feita dentro da cadeia (mais um traço auto- biográfico de Bunker).
Outra característica marcante da literatura de Bunker está presente em O Menino - a riqueza de detalhes. Talvez por ter realmente passado por aquelas situações, Bunker consegue fazer com que o leitor realmente imagine estar dentro das experiências vividas por Alex.
["Então Kennedy começou lentamente a agitar as pernas, como se estivesse pedalando uma bicicleta. Uma das mãos se ergueu e agarrou sua bochecha, o sangue escorrendo entre os dedos. Alex permaneceu imóvel, o esguicho balançando ao seu lado, a imagem sendo cozida para dentro de seu cérebro. O arrependimento bruxuleou por um momento, e depois foi soprado para fora pela indignação; o filho-da-puta metido a valente teve o que merecia."]
A fluidez e cadência do texto tornam a leitura viciante, a ponto de se "devorar" as 426 páginas do romance e ficar triste com o final. Mais uma obra-prima da literatura marginal de Mr. Ed Bunker.(BD)
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