Céu de brigadeiro
por LEONARDO DIAS PEREIRA
O sexto álbum do Wilco não poderia ter nome mais apropriado e sintomático: Sky, Blue, Sky. Tudo porque durante quase uma década, o céu da banda oscilou do completamente nublado para pancadas de chuva. O tempo começou a fechar na batalha – que consumiu intermináveis dois anos - para lançar o já clássico Yankee Hotel Foxtrot (2002), tachado pela gravadora (major, óbvio) como “comercialmente inviável”.

Com o panorama mais desanuviado pela excelente repercussão, outro conflito se instaurou no cerne da banda, mas dessa vez, particular. Jeff Tweedy, vocalista-guitarrista e mentor do grupo, durante o processo de composição de A Ghost Is Born (2004) teve que lutar contra o seu vício em analgésicos, adquirido por fortes crises de enxaquecas, atrasando o lançamento do álbum em mais de seis meses e deixando a banda à beira de encerrar as atividades.
We Were Sky Blue Sky
WILCO
Nonesuch (Importado)
Por isso, os primeiros versos de “Either Way”, faixa que abre Sky, Blue, Sky, têm significado mais do que especial: “Maybe the sun will shine today / The Clouds will blow away / Maybe I won’t feel so afraid / I will try to understand / Either Way”. E o céu que o Wilco vislumbra atualmente, é um daqueles de brigadeiro, em que as manobras mais arriscadas podem ser cometidas, como nas longas incursões instrumentais que marcam “You Are My Face”, “Side With The Seeds” e em “Impossible Germany” – uma bela metáfora do distanciamento de um relacionamento amoroso, algo como a “Jesus, Etc” deste álbum, sem as cortantes cordas, mas com um solo de guitarra arrepiante.

Sky, Blue, Sky representa uma junção dos melhores momentos do Wilco, que vão da piração alt-country de Being There (1996), ouvida em “With Light”, os rockinhos de YHF (“Walken”), e as incursões quase progressivas de “A Ghost Is Born”. Mas acima de tudo, pode (e deve) ser encarado como um desabafo de uma banda que enfrentou várias tormentas e resistiu à tempestade.