O rock em 682 páginas
por MARIÂNGELA CARVALHO
Esqueça as edições brazucas de Disparos do Front da Cultura Pop de Tony Parsons, Reações Psicóticas de Lester Bangs e A Última Transmissão de Greil Marcus. Existe muito mais para se conhecer sobre crítica musical e comportamental do que os esses famosos textos, compilados em livros em 2005 e 2006 aqui no Brasil.

O calhamaço de 682 páginas contendo os mais significativos e importantes textos sobre o Rock assusta à primeira vista, mas The Da Capo Book of Rock'n'Roll Writing é quase a bíblia sagrada deste estilo musical que se tornou estilo de vida. São 80 textos de jornalistas como Nik Cohn, Jon Landau, Richard Goldstein, Paul Williams e os próprios Parsons e Bangs - entre outros - além de especiais escritos por gente como Patti Smith, Frank Zappa, Lou Reed, Pete Townshend, Bob Dylan e Thurston Moore.

Editada pelo inglês Clinton Heylin, a enciclopédia é dividida em dez temas, que tratam de história, estética, revolução, futuro e mercado dentro da "Cultura Rock".

A pré-história começa a ser contada através de textos sobre o mais prodigioso garoto saído do Mississipi e seu primeiro trabalho gravado em estúdio (em Elvis, de autor desconhecido), passando para os Cinco Estilos de Rock'n'Roll designados por Charlie Gillett em 1971.
Nik Cohn participa com dois exemplares estudos sobre "a maior, melhor e mais revolucionária onda pop" de todos os tempos: o primeiro, Classic Rock, levanta todos os importantes nomes e detalha os primeiros a fazer história na música. No segundo texto, Cohn explica a revolução nos Estados Unidos causada após a primeira visita dos Beatles. America After The Beatles explica a empolgação americana que a banda causou sendo a combinação perfeita de entretenimento e novidade. O último texto da seção é de Tom Wolfe, que conta do primeiro magnata adolescente na música: Phil Spector, que, depois de profetizar que "as pessoas nos EUA simplesmente não nasceram com cultura" ganhou rios de dinheiro produzindo artistas como The Ronettes, Elvis, Stones e outros.

Para a estética desenvolvida pelo Rock, o texto Germs, de Julie Burchill e Tony Parsons desconstrói mitos, revela personalidades e diminui a aura inabalável da música. Uma critica incisiva aos branquelos que se aproveitaram do estilo em auto-benefício e promoção; um esfregão bem dado em viagens psicotrópicas de grupos como Beach Boys e seus Maharishis (divindades indianas); uma bronca no teor subversivo que MC5 e outros garageiros deram para uma das manifestações mais simples, puras e divertidas de que se tem notícia (o Rock).
The Da Capo Book of Rock & Roll Writing
Editado por: Clinton Heylin.
Páginas: 682
Editora: Da Capo Press (Importado)
Preço médio: 20 dólares

E assim como Parsons relatou o incidente ocorrido durante o Jubileu da Rainha da Inglaterra com os Sex Pistols, desta vez o famoso Woodstock '69 é destroçado e ardilosamente criticado pelas atitudes animais da polícia e dos Hell's Angels.

Aqui, Paul Williams e Richard Meltzer (nos textos How Rock Communicates e The Aesthetics of Rock) traçam paralelos entre artistas e suas mais diversas e variadas formas de atingir o público, e sobre o que era realmente legítimo ou apenas imitação. Lester Bangs também se apresenta. Cotado como o padrinho do jornalismo punk, ele vem colocar o Punk Rock no ponto exato da cronologia da música: "O Punk Rock existiu por toda a década de 60. Era música honesta, simples, primitiva e direta. O Punk Rock dificilmente foi inventado pelos Ramones, no Queens em NY em 1974-5, muito menos pelos Pistols em Londres um ano ou mais depois. Você precisa voltar aos New York Dolls". Barney Hoskyns tenta encontrar motivos para se ler sobre pop, e também para se escrever sobre; Paul Williams redescobre o Rock em sua terceira década ('80) e faz um contraste com sua primeira época, nos anos 60. Em What the 60's Had That the 80's Don't Have, o jornalista cita paixão, ilusão e senso de comunidade como as diferenças básicas.

À revolução comportamental e mesmo social que o Rock trouxe foram juntados textos como o de Jon Landau, que introduz o termo "underground" ao contexto musical e critica os pioneiros Led Zeppelin, Cream e Janis Joplin - eles só tinham pose. Até Woodstock foi uma incompetência para Landau - um comércio de atuações forçadas e com o único intuito de lucro. Em Skins Rule, Pete Fowler mistura o pop com sociologia e desmembra dois dos mais importantes movimentos sociais dentro da música: os Skinheads e os Mods. Neste texto, as culturas surgidas como extensões do Rock são colocadas em evidência e ilustradas pelas diferenças de épocas, bandas, costumes e moda. A Conservative Impulse in the New Rock Underground de James Wolcott fala do famoso clube nova iorquino CBGB e de seus ilustres artistas-lixo, que, definitivamente estabeleceram um novo panorama e subverteram a cultura através de pobreza, negligencia e falta de conhecimento. O CBGB e sua trupe foram, respectivamente, o lugar e as pessoas mais propícias para dar ao Rock o novo impulso que ele precisava, depois de 1974. As revoluções "punks" dos Pistols, Ramones, Heartbreakers e Television também aparecem no texto Rebels Against the System de Caroline Coon e New Pop UK, escrito por Paul Morley.

Dedicada às promessas que salvariam a música, I Have Seen the Future é uma antologia visionária do o Rock sob a perspectiva de gente como Patti Smith, a poetisa feminista mais punk que o Punk já teve. Dela é o primeiro texto, The Raise of the Sacred Monsters e, que nas palavras de Clinton Heylin (editor), foi talvez a melhor maneira para se detalhar poeticamente "o impacto que a primeira apresentação dos Rolling Stones tiveram na TV americana, um evento tão cataclísmico quanto a estréia um pouco anterior dos Beatles no Sullivan. No começo dos 70's, Patti Smith, meio-período jornalista e tempo integral poeta, já estava habituada a contribuir com a Creem de Detroit com alguns dos melhores trabalhos orientados pelo Rock. Nota-se..." e o que segue é uma enxurrada das detalhadas sensações físicas e psíquicas que os Stones tiveram na garota em 1965 enquanto seu pai berrava ao ver a apresentação pela TV.

Ainda em I Have Seen the Future estão os relatos do quão promissores foram os Pistols quando ainda tinham apenas 4 meses de música. The Sex Pistols (are four months old) de John Ingham e Another Sex Pistols Records (turns out to be the future of rock & roll) de Roy Carr explicam como seria o futuro vindo da podridão punk na Inglaterra. O primeiro coloca os ingleses como sucessores dos Stooges e o segundo afirma que os Pistols eram tão genuínos quanto Jerry Lee Lewis, Chuck Berry, Keith Richards, Pete Townshend, Bob Dylan e Iggy Pop e que todos, inclusive Johnny Rotten, conseguiram guiar toda uma geração. Dave McCullough enxergou futuro no U2 em Coming Up for Eire por serem uma banda didática e em Dissolve / Reveal, Paul Williams acredita que Lone Justice e Black Flag farão jus ao serem chamados de promissores.

Don Watson olha para frente enxergando que Sonic Youth e The Swams traziam outras dimensões à música por formarem uma nova geração, a No Wave. Richard Goldenstein vê o primitivismo musical do Velvet Undergorund como o casamento entre Bob Dylan e Marquês de Sade e também como a "distorção controlada" que salvaria o Rock; Nick Kent defende o Television dizendo que "chamá-los de punk é como dizer que Dostoievsky foi um escritor de pequenas estórias", e que "uma banda cuja visão rigidamente centrada em sua música" só poderia ser extraordinária. O nome do futuro, para Jon Landau em maio de 74, era Bruce Springsteen e Charles Shaar Murray apostava suas cartas em Patti Smith e seu (s) "Horses".

As histórias das viagens que transformaram o pedaço que o Rock ocupava em domínio absoluto são contadas em On the Road Again e começa com o caos moral e estético que os Beatles causaram nos EUA quando, pela primeira vez, subiram ao palco de Ed Sullivan. A loucura que tomou de assalto a América é relatada com ironia e sarcasmo: "aquilo não era show business, aquilo era história" e afirma que "os Beatles entraram e permaneceram na história dos EUA a partir de 1964".

Nik Cohn viaja com o Who em Be Happy! Don't Worry pela mesma América assolada pelos Beatles e confirma o tom de "holocausto de marca maior" que foram esses shows. Stephen Davis reporta a passagem de Led Zeppelin e a insanidade que levou a família de Jimmy Page a querer colocá-lo num sanatório assim que retornou à Inglaterra.

A primeira e única turnê dos Sex Pistols pelos EUA ficou muito mais conhecida pela polêmica do que pelo sucesso de público ou de crítica, assim é a definição que John Helstrom dá em The Harder They Fall para os punks mais inventados do Rock. E Thurston Moore faz um diário de 38 dias consecutivos em uma das primeiras turnês americanas do Sonic Youth. Leitura de bueiro, Moore é um slanger.

Voices from the Other Side permite que os músicos tenham seu próprio espaço dentro da edição, seja para comentar seus trabalhos, influências ou satirizar o jornalismo Rock. Quem escreve aqui é Al Aronowitz, Bob Dylan, Lou Reed, Pete Townshend, Patti Smith, Theresa Stern e Steve Albini. A próxima seção, Satires and Short Stories é exclusiva para textos ficcionais sobre discos e outros exemplos de adoração por parte de fãs que estavam completamente errados ao enxergarem em seus ídolos a próxima salvação que bateria à porta.

Mercado, promessas, quedas e as casualidades mais trágicas neste segmento musical ainda cabem nas 682 páginas da enciclopédia. Uma ordem cronológica de fatos mercadológicos traça as revoluções que o Rock teve dentro de si mesmo e as decepções causadas por um ou outro artista são bravamente apontadas nas próximas seções.

The Biz, como o nome sugere, se concentra no mercado fonográfico e a relação deste com artistas e fãs. Necessária para se entender como esta mesma indústria funciona no século XXI, após passar por tantas modificações e estruturações, The Biz, a seção, inicia com um trabalho sobre a primeira ameaça à indústria fonográfica: o lançamento dos primeiros bootlegs da história (Dylan e Stones). E Michael Lydon (autor do texto) afirma que o Rock está para vender e vende, muito. E que o mesmo "não dá grana apenas para o mercado do entretenimento, mas também para firmas de advocacia, fabricantes de roupas, mídias de massas, empresas de bebidas e vendedores de carros". O Rock é comercial em sua essência e sua arte é sinônima de seu comércio. Mas a maior questão levantada é como fazer parte desta indústria e preservar a integridade, afinal, "o dinheiro não fala, ele promete".

1973 é declarado como o ano dos singles por Simon Frith, quando as grandes gravadoras viram que as pequenas compilações podiam fazer muito pela indústria da música. The Man Can't Scotch Our Taping de Peter Tirus, relembra a velha prática de se gravar fitas cassete e o problema que isso causou ao mercado. A prima mais antiga do MP3 abalou a indústria e expandiu ainda mais o poder físico e estrutural da música e hoje é o maior pesadelo das gravadoras. Até mesmo Frank Zappa expõe seu desagrado quanto à censura que se transformou em verdadeira batalha entre artistas e gravadoras na década de 80. Em 1985, esta batalha originou o Parental Advisory Explicit Lyrics - selo de censura disposto em capas de discos e CDs. Jon Pareles volta à questão dos bootlegs e à banalização por parte das gravadoras e é o último texto sobre mercado.

Se o Rock teve e se fez em cima de apogeus fenomenais com Beatles, Stones, Elvis, Pistols, Who e outros, a queda-livre enfrentada por alguns originou a seção The Promise is Broken. Nesta, Greil Marcus antecipa dois anos a deterioração do Rei do Rock e narra aquele Elvis Presley gordo, movido à anfetamina e no fundo do poço, mas sobrevivendo à fama e sucesso. Jules Siegel contrapõe a genialidade do disco mais extra-pop da história ("Smile", dos Beach Boys) com os danos psíquicos de Brian Wilson e a relação que isso tem com os caminhos que a música seguiu pós "Smile". Brian Wilson se transformara agora em GÊNIO (sim, em letras maiúsculas) e passara a considerar suas experiências psicotrópicas uma força religiosa que lhe rendera paciência para agüentar a fase ultra exigente pela qual passou. Brian, ao final de altos e baixos, disse a respeito de sua obra: "Estou escrevendo uma sinfonia para Deus".

Richard Goldstein trata da decadência do Pink Floyd; George Paul Csicsery fala do pós-Woodstock '69 e em What's This Shit?, Greil Marcus dá a Bob Dylan a carta de "suicídio comercial" quando o mesmo lança "Self Portrait". O, para sempre ex-Pink Floyd, Syd Barret falhou ao querer ser um Rimbaud moderno na visão de Nick Kent. Já Zowie Bowie de Simon Frith, questiona o talento que David Bowie vendeu "à fama, à fortuna e a um tapete de pele branco". Frith abre seu texto com "discutir sobre pop stars é a coisa mais lunática de se fazer" e acusa o Rock de ter falsificado uma comunidade a partir do ano 1967 e do Flower Power. Peter Laughner, em 1976, conta de como ficou deprimido e bêbado por três dias após ouvir "Cone Island Baby" de Lou Reed e Patrick Zerbib retrata o grande palhaço e loser que Johnny Rotten se tornou depois dos Pistols acabarem: "ele é um cara legal, mas um vagabundo preguiçoso".

A apropriação que bandas heavy metal tiveram em cima do antigo blues perturba Charles Shaar Murray e transforma a desolação do mesmo no ótimo What Have They Done to My Blues, Ma?; Joe Carducci continua em sua longa empreitada de antíteses em Narcorockcritocracy!. Guns N' Roses também aparece, em Wimps 'R' Us, de Deborah Frost.

And in the End é o último capítulo da enciclopédia, e começa com "I hope I die before get old".

A cotação perfeita que se encaixa ao contexto desta última parte, dedicada aos que se foram cedo, contém histórias sobre todos. Heylin [editor] afirma que Jimi Hendrix, Brian Jones, Janis Joplin, Jim Morrison, Gram Parsons, Marc Bolan, Elvis Presley, Ian Curtis, John Lennon e Johnny Thunders foram "uma lista de casualidades que poderia facilmente incluir Lowell George, Sid Vicious, Peter Laughner, Lester Bangs, Phil Lynott e Nico. O Rock & Roll tende a mastigar outra vez sua cria de simulacros e a cuspi-los de volta a um nível aterrorizante".

Ainda foram compilados retratos obituários sobre Janis Joplin, por Jon Landau e sobre Elvis Presley por Charles Shaar Murray. E Richard Hell enterra seu amigo Johnny Thunders em palavras profundas.

Ainda há lembranças mais pessoais como a de Al Aronowitz por Brian Jones e sobre Ian Curtis por Adrian Thrills.

A entrevista póstuma que Lester Bangs "fez" com Jimi Hendrix traz um pouco de irreverência e bom humor ao ser o último texto do livro, que deixa para o final uma lista de tragédias.

A densidade, crítica sensata e muitas outras qualidades fazem de The Da Capo Book of Rock & Roll Writing um trabalho relevante e auto referencial para tratar de uma cultura que tem em suas histórias e personagens um cenário real e com vida própria.

As quebras morais e sociais originadas pelas primeiras aparições dos anfitriões da festa em 1940-50 receberam espaço e atenção especial neste livro e foram sendo somadas com o decorrer de quatro décadas através de textos, especiais, resenhas, alfinetações e lições de como o Rock funciona.

Essencial.

- Leia também:
- de Clinton Heylin: "Never Mind de Bollocks. Here's the Sex Pistols (The Companion Series)", 1998;
"All Yesterday's Parties The Velvet Underground in Print: 1966 - 1971", 2006;
"From the Velvets to the Voidoids: A Pre-Punk History to a Post-Punk World" , 2005;


- de Tony Parsons: "Disparos do Front da Cultura Pop", 2005;

- de Lester Bangs: "Reações Psicóticas", Editora Conrad, 2005;

- Greil Marcus: "A Última Transmissão", Editora Conrad, 2006;

- Leia e ouça: qualquer coisa feita entre 1930 e 2006;