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B92, de Belgrado: Uma rádio dissidente
por MARIÂNGELA CARVALHO
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A Sérvia, após sofrer tantas catástrofes políticas e sociais, hoje respira um pouco melhor – ainda há muito por se fazer, mas manter-se em pé, ao menos, eles estão conseguindo. Com mais de vinte anos vivendo sob repressão e verdades enlatadas, a população se satisfaz do orgulho de ter conseguido sobreviver a dois governos opressivos e terroristas. Superando a era do governo Tito e, mais sofregamente, a de Slobodan Milosevic, os sérvios, concentrado na capital Belgrado tomaram de assalto as ruas e foram tomados de assalto por seus governantes e suas apologias patológicas sobre a quebra dos laços com as grandes potências.
A resistência por parte da população gerou inúmeras facções e conflitos internos – num lugar onde bastavam os externos. E o governo se alastrou pelo mercado, pela mídia, pela educação e pelo cotidiano de milhões de pessoas. Vivendo sob níveis de inflação inimagináveis como 313.563.558% ao mês, belgradinos se sustentavam com o mínimo do mínimo e se rebelavam ainda mais.
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Os rebeldes lutavam pela liberdade do povo; foram esses mesmos rebeldes que, pouco a pouco, incitaram a queda do governo irracional de Milosevic. Tendo como armas apenas um transmissor e alguns discos de rock, os “ativistas” da B92, rádio local, se dispuseram a disseminar verdade, justiça e a auto-preservação de sua nação até onde as ondas transmissoras pudessem chegar.
Do começo simples, em 1989, com programação musical e informativa, a Rádio B92 se espalhou pelo território sérvio alertando e conscientizando seus ouvintes sobre a situação do país. O poder de alcance da B92 foi tão estrondoso e tão devastador que levou o grupo a ser perseguido pelo governo, que os taxava de subversivos, terroristas e dissidentes além de serem acusados de espalhar e incitar o caos na população. Tornando-se uma das vozes mais poderosas no sistema de comunicação da Sérvia, a Rádio B92 sofreu inúmeros episódios de repressão, perseguição e teve que lidar e superar cortes de energia propositais, blecautes nas ondas de transmissão e até ordens de fechamento. A rádio, que deu início às suas transmissões com músicas como “White Riot”, do Clash, resistia bravamente às dificuldades.
Os estudantes que fundaram a emissora conseguiram driblar as várias sanções e boicotes sofridos, e transformaram a rádio em um dos únicos veículos de comunicação a não fazer parte de organizações governamentais. Por isso mesmo, esses alunos e a rádio eram fundamentais na liberdade de expressão e na solta das amarras das TVs e rádios estatais em Belgrado. Eles falavam ao povo a verdade e não se escondiam em “glamourismos” como os oferecidos pela programação da TV Pink, propriedade da filha de Milosevic.
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Radio Guerrilha - Rock e Resistência em Belgrado
Autor: Matthew Collings
Editora: Barracuda. 334 páginas.
Preço médio: R$ 44,00
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Indo longe demais, a rádio questionou o militarismo nacionalista e criou a maior manifestação contrária à política vigente ao que afirmavam ser “a rádio que tem vida”. Em 1998 gerou-se uma guerra total contra os dissidentes e a formação de uma ditadura extremista nos meios de comunicação. Mas a B92 resistia, promovendo shows nas praças centrais e contra atacando as organizações anti-OTAN. Com o avanço tecnológico e a Internet a seu favor, a emissora mantinha um portal de informação na rede que se reportava ao mundo, numa tentativa de passar a realidade vivida dentro da guerra e do temor de caos na Sérvia de Slobodan Milosevic. Mas mesmo assim, eles foram censurados, tiveram seus sistemas invadidos por hackers e sofreream represálias; surgiu um período de desinformação entre o país e o mundo ocidental.
Quanto mais se dava margem para a queda do nacionalismo, mais a B92 parecia se fragilizar; no entanto, a criação do movimento estudantil Otpor veio para reforçar a resistência e conseguir juntar muitos partidários – o que causou ainda mais atitudes e respostas opressivas do Estado. A influência da rádio e a audácia do Otpor conseguiram devolver otimismo à população, que perecia se fechar ainda mais em círculos estritos e sentia na pele a falta de perspectiva.
Com a queda do ditador, no ano 2000, o controle da mídia e as sanções econômicas foram exauridos e o povo ainda pôde assistir Slobodan assumindo sua derrota ao partido oposicionista, ODS (Oposição Democrática da Sérvia), em rede nacional, que fora durante tanto tempo dominada pelo poder do dominante.
Desde então, a B92 voltou a se tornar porta-voz da Iugoslávia, dando ao público um verdadeiro arsenal de contra-opiniões. Já com situação estável, a emissora ampliou seu domínio e se aproximou do mainstream, o que gerou críticas e acusações pela perca do espírito independente. A rádio foi sacrificando sua identidade enquanto procurava por níveis de audiência e deixou muitos decepcionados. Mas não foi uma simples venda de valores: a B92 já havia criado uma reputação sólida e convivia com as verdades do mercado pós-Milosevic.
Sasa Mirkovic, diretor-executivo da B92 e um dos líderes da revolução radiofônica na Sérvia, se opõem aos comentários e explica: “Em 1989, nem nos meus sonhos mais loucos eu imaginava que a B92 seria o que é hoje. Temos gente nova que entrou depois do 5 de outubro [data da eleição que tirou os nacionalistas do poder], técnicos vindos da RTS [emissora de TV estatal] e da [TV]Pink, e eles encaram isso mais como trabalho que como missão. É uma surpresa para as pessoas que estavam aqui só pela missão, e elas não gostam. Antigamente, quando se entrava em nossa redação, via-se que éramos diferentes; não sei se essa sensação existe hoje em dia. Mas precisamos de profissionais com experiência. Esta empresa tem de crescer e temos de pagar um preço para obter resultados e sermos influentes de verdade. A Sérvia precisa da B92 porque somos os únicos que não traíram os princípios pelos quais lutamos em outubro de 2000”.
Rádio Guerrilha – Rock e Resistência em Belgrado é um livro documental. A história do crescimento, ascensão e domínio da emissora B92 foi reportada por Matthew Collin, que conheceu a rádio quando era correspondente internacional da The Face, em 1996. Matthew relata as conflituosas situações vividas pela população e pela própria rádio durante os períodos de crise, miséria e terror, ditadas pelas inclinações nazistas e extremistas de Slobodan Milosevic e seu governo nacionalista.
- Leia também: Guerrilha Psíquica, de Luther Blisset. Editora Conrad, 2004;
- Leia e assista: Bom Dia, Vietnã, com Robin Williamns. A influência e poder das ondas transmissoras de rádio durante a guerra.
- Leia e ouça: Ramones, We Want the Airwaves
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