Está tudo lá
por MARIÂNGELA CARVALHO
A crítica era : Compilação-referência de um movimento que desafia seus integrantes a se manterem fiéis ao processo. Sala lotada, pessoas se empoleirando nas escadas e antes, uma fila digna de outro clássico. Assim foi a última sessão de (guarde o nome, procure, veja) "Mate Seus Ídolos" (Kill Your Idols) de Scott Crary pela 28º Mostra BR de Cinema em São Paulo. Tudo que se precisa está lá: acidez, podridão, depoimentos à beira de um ataque de nervos, subversão ímpar e única - a máxima do movimento punk. Tudo gira em torno das raízes até os dias de hoje. Artistas deturpando a moral de bandas, bandas deturpando a moral de sua sociedade, mas tudo culmina num mesmo balde d'água suja: o espírito punk.

Dividido em partes como "Legado", "Amnésia", "Nostalgia" e o "Amanhã", este documentário de pouco mais de uma hora tem tudo para se tornar cult, célebre, indispensável para uma próxima revolução. Tudo de alto padrão. Lydia Lunch está lá (se um dia você quis saber de onde vem toda a pose de Courtney Love, está aí uma boa resposta) rasgando palavras, detonando o cenário, contando peripécias e dizendo que "nem sequer sabiam o que estavam fazendo", mas seguiram em frente. A cidade de New York é plano de fundo inquestionável, tudo saiu de lá, tudo foi gerado lá.

Os épicos são deixados de lado, nada de Ramones, ou Velvet Underground, ou um Sex Pistols dali, um MC5 daqui - a questão é menos central, é No Wave. Arto Lindsay, Glen Branca, Suicide, esses são os nomes, esses são os "heróis". Mais no contemporâneo, nada de Green Day, ou Bad Religion, aliás, bem longe disso com Liars, Black Dice e Yeah Yeah Yeahs, mas não espere bons comentários deles. Strokes é detonado na primeira oportunidade: "a diferença é que Debbie Harry foi a uma festa dos caras que era patrocinada pela Levi´s quando antes nem instrumentos para tocar tinham os perspicazes músicos da cena lá nos anos 70". Nas palavras de Miss Lunch, "todos mama's boys".

Um documentário em tom de videoclip, Thurston Moore esquivando-se da entrevista para atender o telefone, Karen O e Nick Zinner, do Yeah Yeah Yeahs sentados numa escada falando, bêbados e undertakers em comentários maldosos e explosivos. Referências até a William Burroughs, que respondeu "não faço a mínima idéia" à pergunta o-quê-vai-ser-do-amanhã.
Ilustração sobre fotos de divulgação:
Cirilo Dias
Esqueça tudo que você sabe, esqueça as bíblias sobre punk (vide "Mate-me Por Favor"), entre num esquema Trainspotting: escolha sua vida, escolha seu futuro. Impossível não sair com vontade de formar uma banda logo ali na esquina, mas é mais ou menos por aí que acontece a música que você consome freneticamente. Sempre foi assim, um salva para todas as referências. Oi, vamos formar uma banda? Mas não esqueça: m-a-t-e seus ídolos.