From The Original Motion Picture Soundtrack
por MARIÂNGELA CARVALHO
Se você pensar na vida como um filme (editado, cortado, produzido e dirigido) como ele seria? E qual seria a trilha sonora? Bons exemplos não faltam.

Dos mais óbvios aos menos conhecidos. A trilha pode, com certeza, fazer a película valer mais pela sonoridade que pelo conjunto imagético. Claro isso tudo no famoso e aclamado "Corra Lola Corra", que, o que seria sem todas aquelas batidas? Até dos mais toscos trabalhos você pode se lembrar claramente das canções. Tendo sido uma criança nos anos 80 e tendo matinalmente como babá a pornográfica Rainha dos Baixinhos, são-me ainda muito nítidas as músicas (e imagens correlatas) de sua extensa filmografia. E não é algo a ser desprezado, não.

As clássicas histórias de amor e ódio como "Sid & Nancy" e "Kurt & Courtney" têm lá em suas trilhas os nomes que se fizeram por si mesmos, assim como "24 Hour Party People" (título que nunca deveria ter sido traduzido para o português). Em outras belas ocorrências temos "Trainspotting" com Iggy Pop, Blur, Pulp, Elastica e outros; "Alta Fidelidade", contando desde Kinks até The Beta Band, passando por Stereolab e o hilário Jack Black dando sua contribuição sonora, não bastasse sua atuação; "Velvet Goldmine" que traz um seleto punhado de músicas antigas interpretadas pelos próprios atores (por exemplo Ewan McGregor cantando "TV Eye") e novas 'bandas' de junções-grande-elenco, como o The Venus in Furs, entre eles o bizarro Tom Yorke e o fofo e desconsolado Bernard Butler - fora as outras grandes bandas, tal como Pulp, Grand Lee Buffalo, Placebo e Lou Reed.

Outros clássicos como "Hard Core Logo" (todas as ressalvas pessoais) é um petardo musical cheio de inesquecíveis cortes no desenrolar do roteiro - que nada mais fala (nada mais?) do que uma banda fictícia e suas vivências on-the-road. * Conselho inevitável: filme + trilha na estante, por favor.*

Do maravilhosamente pitoresco "Mate Seus Ídolos" ao hollywoodianamente bobo e divertido "As Patricinhas de Beverly Hills", são, por ora, produtos de alto escalão from the original motion picture soundtrack.

Você se lembra de quando toca "Alright", do Supergrass, com Alicia Silverstone posando de protótipo para o jargão loira-burra? Nessa leva tem também o bonitinho "10 Coisas que Eu Odeio em Você", com Save Ferris e Letters to Cleo.

Tem também o bacana "Empire Records" com, desde AC/DC até Coyote Shivers, com participação da ainda-não-famosa, Renee Zelwegger.
Ilustração sobre fotos de divulgação:
Cirilo Dias

O estranho cult "Buffalo 66", de Vincent Gallo (esquisitão, amigo do esquisitíssimo John Frusciante) é embalado por aquele - hoje - chamado easy listening (nada mais que trilha de elevador ou de restaurante chique, aqueles das novelas da Globo) e também pelas batidas no chão de madeira provocadas pelas sapateadas da rechonchuda Christina Ricci em seu vestido azul, provavelmente de poliéster. O muito bem sacado "Spun", de Jonas Ackelund (também diretor de "Smack My Bitch Up" do Prodigy) tem sua trilha produzida por Billy Corgan, que incorpora um médico no filme. O roteiro transgressor se junta à trilha bacana - daquelas que parecem bater dentro do seu próprio peito - e às bem sucedidas cenas picotadas de quando as ilícitas substâncias atingem o fluxo sanguíneo chegando ao cérebro. Lembra as cenas de mesmo propósito do avassalador arrasa-quarteirão "Réquiem para um Sonho". Em um dos dois faltou o chapado hino "Heroin"...

Já em um outro alemão, assumidamente subversivo/anarquista, "O que Fazer em Caso de Incêndio?" o tom clipado do começo te ensina a ser um daqueles que não se vendem e a fazer bombas caseiras, tudo embalado por algo na linha do, também destruidor, Die Toten Hosen. Daí a história segue, o tempo passa, os personagens tentam uma auto-conscientização, tudo parece bem mas o passado vem cobrar suas reminiscências. No clímax, eles refazem a bomba, checam se dará certo, há uma explosão slow motion de espuma (ou qualquer coisa que o valha) e toca a doce suicídica "No Surprises", do Radiohead. Até aí já rolou uma tecneira, mas a poeira abaixa e tem-se a delicada "A Song for Lovers", de Richard Ashcroft e também Manic Street Preachers.

O conselho deste último filme é: o que fazer em caso de incêndio? Deixe queimar. Mas não hesite em correr e salvar seus discos.

Você pode ainda ficar maquinando mais e mais bons filmes com boas trilhas sonoras: "Singles", "Encontros e Desencontros", "Buena Vista Social Club" (um dos documentários mais legais do mundo!), "Kill Bill Vol. 1 e 2", "Sobre Cafés e Cigarros", "Party Monster" (este vale a pena por tudo - Marilyn Manson posando do que mais gosta (vai lá ver, vai), inusitadas festas monstruosas guerrilha, drogas a rodo, Fez (do That 70's Show") sem sotaque, Culkin mostrando que cresceu (?!?), "Escola do Rock", sem contar os musicais ou aqueles que têm somente uma única música boa. Pensando que trilhas são nada mais que coletâneas, se até as novelas da Globo lançam discos (e vendem) com os temas de um ou outro ator, tente montar a sua própria. É difícil pelas muitas opções, mas imagine a satisfação da trilha sonora da sua própria vida. Se você for um caso a ser filmado, melhor ainda.