A maldição do cinema nacional
por BRUNO DIAS
Malditos sejam. E são, pelo menos para a crítica de cinema "pensante" brasileira. Por causa dessa exclusão, o pesquisador de cinema Remier Lion, resolveu criar o cineclube "Malditos filmes brasileiros!" no Rio de Janeiro. O nome do projeto vêm de questões óbvias. "Na verdade, 'Malditos filmes brasileiros!' é o que o pseudo-intelectual reacionário fala quando vê que esse tipo de cinema brasileiro voltou a ser exibido", explica Remier.

Os filmes que se encaixam nessa maldição nacional são obras produzidas na Boca do Lixo de São Paulo durante a década de 70 e foram resgatadas pelo pesquisador Remier Lion. "Minha seleção se restringe a filmes na maioria 'antigos' - uma vez que esse tipo de cinema (popular, 'industrial') deixou de ser produzido no Brasil. Me interessam filmes populares, de gênero (bang bang, terror, policial), feitos no Brasil sem incentivo fiscal ou apadrinhamento estatal - há cinema mais maldito que esse no Brasil de hoje?". Pelo visto não.

O cineclube pode ser considerado uma extensão de um projeto maior que está sendo produzido por Remier Lion. O pesquisador está trabalhando na produção de um filme, "Cinema brasileiro, a vergonha de uma nação", que contará um pouco dessa faceta obscura do cinema nacional, e só não saiu ainda por falta de recursos. "No início, meu objetivo era fazer um filme mostrando o cinema brasileiro 'classe b', 'trash', popular (chame como quiser) que foi deixado de fora da 'história oficial' do cinema nacional. Revelados os motivos da exclusão e o que foi excluído, o espectador poderia entender a 'grande picaretagem' que virou sinônimo de 'cinema brasileiro'", denuncia Lion.

Enquanto o filme não fica pronto, o pesquisador realizou, em 2003 e 2004, duas mostras com o mesmo nome de sua obra ainda sem previsão de lançamento. Além disso, Remier já se prepara para a terceira edição da mostra que deverá acontecer esse ano. "Para provocar os reacionários, em 2003 resolvi fazer uma mostra exibindo um pouco desse cinema brasileiro realmente maldito, num cineclube improvisado no Instituto de Arquitetos do Brasil no Rio de Janeiro, com cópias 16 mm raríssimas, do colecionador, professor e cineasta Márcio Melges. Vou repetir a mostra na Cinemateca brasileira, em São Paulo".

Obras malditas - Os filmes que serão exibidos no "Malditos" e que fizeram parte da mostra "Cinema brasileiro, a vergonha de uma nação" são, geralmente, cedidos por colecionadores como o professor e cineasta Márcio Melges do Rio de Janeiro - com uma coleção de cerca de 800 filmes em 16 mm - ou fazem parte do acervo da Cinemateca brasileira. De julho de 2004 em diante, foram exibidas obras como "A Banana Mecânica", de Braz Chediak (estrelado e produzido por Carlos Imperial), "Snuff - Vítimas do prazer", de Cláudio Cunha e "Punks - Os filhos da noite", de Levy Salgado.
Ilustração sobre fotos de divulgação:
Cirilo Dias
Dia 12 de maio começa mais uma edição do "Malditos filmes brasileiros!". A primeira obra a entrar em cartaz será "Patty, A Mulher Proibida" (filme de 1979 com direção de Luiz Gonzaga dos Santos, estrelado pelo o anão Dilin Costa, Roberto Miranda e Helena Ramos). O cineclube ocupará a 'Casa França-Brasil' (Rua Visconde de Itaboraí, 78 - Centro) nas próximas quintas-feiras até julho. Durante esse período serão exibidas obras clássicas do acervo maldito nacional como "Fuscão Preto" (estralado por uma iniciante Xuxa Meneghel), "O Mau Caráter" (comédia dirigida por Jece Valadão) e "O Quinto Poder" (filme de 1963 dirigido por Alberto Pieralisi, estrelado por Eva Vilma, Oswaldo Loureiro, Augusto César Vanucci e Sebastião Vasconcelos). Todas as sessões são gratuitas, vai lá!

* Para conferir a programação completa é só acessar malditosfilmesbrasileiros.blogspot.com.