Oh, dear Mr. Writer...
por MARIÂNGELA CARVALHO
A tristeza e o calor da Los Angeles dos anos trinta, decadente e de desalentos tão únicos, descritos com sutileza e profundidade por John Fante em sua obra-maior chega agora em versão cinematográfica e responde pelo mesmo famigerado nome, “Pergunte ao Pó”.

A vida de Arturo Bandini, que carrega ingratamente um nome italiano, é um marasmo. Rapaz do interior que vai tentar a sorte na cidade grande – velho clichê. Mas Bandini vive tão sozinho e triste que dá pena. A árdua tarefa de se fazer vencer na vida sobrecarrega os ombros e mãos do jovem escritor, que sobrevive de contos publicados em pequenas revistas. O dinheiro é pouco e a sordidez é grande.

Arturo quer uma mulher loira, de olhos azuis. E outros sonhos consumistas que ele próprio enxerga muito longe, quase fora de foco. O retrocesso de suas ambições, a falta de perspectiva e os últimos cinco centavos o levam para o derradeiro café que podia pagar.

O lugar, um bar perdido e empoeirado que, não bastasse a negligencia daquele dia, tinha a mexicana Camilla Lopez. E ela merecia todo o desprezo do mundo simplesmente por ser mexicana. Camilla carrega os mais desprezíveis atributos para Bandini, mas ela tem coragem, coisa que ele não. E tem um atrevimento que apenas alguém de sangue latino poderia possuir naquela cidade cheia de preconceitos.

Da inimizade dos personagens surge um romance doloroso, de desafetos e menosprezo por parte dos dois. Mas a necessidade de se terem leva Camilla e Arturo a um amor rasteiro e por alguns momentos completo e pleno.
Fotos: Divulgação

Após passar por momentos de convivência difícil, o sentimento e a intensidade trazidos pela descoberta servem para acalmar a impaciência e tristeza de dois corações que foram deixados de lado pelo mundo. Dois pedaços perdidos da mesma história sobre as crueldades da vida.

As cenas dos diálogos cortantes entre Camilla e Arturo são exatos e precisos ao conseguirem traduzir o desespero silencioso com que John Fante descreveu a história sobre um amor impossível de ser eterno.

O trabalho de Collin Farrell e Salma Haeyk ao interpretar Arturo Bandini e Camilla Lopes é tão instintivo quanto no livro, e a profundidade da dor recebe vida em um dos casais mais marcados pela solidão que a Literatura pós Decadência serviu ao mundo.

A apropriação de canários que falam por si só das inquietudes mundanas junto à fotografia fim-de-tarde que o diretor Robert Towne utiliza, formam o conjunto perfeito na tela, capaz de recriar visualmente a atmosfera de cansaço e desânimo infinitos das almas sem direção que fazem parte da longa estrada entre sonho e realidade.

John Fante, autor de obras que precederam e influenciaram a Geração Beat,é dos nomes mais fortes da literatura americana e criou um universo desértico para seu alter-ego (Bandini) para contar ao mundo as histórias dos fracassos e das cicatrizes que o coração de um homem pode carregar por toda uma vida.

A longa jornada que Arturo Bandini ainda suporta da vida é prolongada pelas linhas de Fante em “Espere a Primavera, Bandini” e “Sonhos de Bunker Hill” e constituem uma das melhores histórias escritas em clima de trem expresso.

Assista também:
- “Espere a Primavera, Bandini”, roteiro e direção de Dominique Deruddere, 1989 ;
- “Uma Canção de Amor para Bobby Long”, com John Travolta e Scarlett Johansson, 2004

Assista e Leia:

- do Autor: “Sonhos de Bunker Hill”, L&PM Pocket, 2003;
“Espere a Primavera, Bandini”, José Olympio Editora, 2003;
“1933 Foi um Ano Ruim”, L&PM Pocket, 2003;

- de Julio Cortázar:
“Fora de Hora”, Editora Nova Fronteira, 1985;

- de Charles Bukowski: “A Mulher Mais Linda da Cidade”, L&PM Pocket, 1997;

“Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski”, Bertrand, 2003.