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O amargo e o doce
por PAULO TERRON
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Há coisas que você simplesmente não espera quando vai
ver um filme de terror. O que você espera é fácil de
listar: sangue falso, mortes com armas brancas (porque
tiro não tem graça nesse tipo de longa), bandidos que
não morrem nunca... Tudo aquilo que o roteiro esperto
do Kevin Williamson mostrou em "Pânico".
O que eu não espera encontrar em "Cannibal Holocaust",
uma produção obscura do fim dos anos 70, era verdade.
Posso decretar sem hesitação - é um dos filmes mais
horríveis de todos os tempos. Não vou nem entrar no
mérito da qualidade artística (deixo isso para os
especialistas, apesar de suspeitar que eles odeiem
essa película do diretor Ruggero Deodato).
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A ação começa quando um grupo de documentaristas de
caráter duvidoso parte da fronteira do Brasil com a
Colômbia para tentar estabelecer contato com duas
tribos canibais da área conhecida - pelo menos por
eles - como "inferno verde" (e que nós chamamos de
Amazônia).
O problema é que esse grupo quer um pouco mais do que
interagir com os nativos. Eles estupram as mulheres,
queimam uma aldeia (forçando os índios a ficarem
dentro das ocas em chamas), e fazem todo o tipo de
barbaridades (in)imagináveis.
Até aí, tudo bem. Tudo bem?!? É, tudo bem. Fica bem
claro que tudo não passa de ficção, apesar do filme
utilizar os mesmo recurso que anos mais tarde foi
imortalizado pelo longa-metragem americano "A Bruxa de
Blair", o das "fitas foram encontradas depois". Tem
gente que acredita. O Buba, do "Big Brother Brasil 4"
citou o "Cannibal Holocaust" como "um documentário de
verdade".
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| Ilustração:
Cirilo Dias |
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O que incomoda e chega a causar mal-estar físico são
as cenas de abuso com animais. Eu não sou integrante
do Peta e nem do Greenpeace, apesar de simpatizar com
essas ONGs, mas tudo me pareceu digno de repúdio. Um
rato selvagem é morto com uma facada na barriga,
enquanto grita e se debate. Mais tarde uma grande
tartaruga é tirada do rio, decapitada e despedaçada
enquanto ainda se debate. É violência gratuita, sem
propósito. E é tudo de verdade.
"Cannibal Holocaust" não está disponível
comercialmente no Brasil, mas existem edições
importadas à venda em diversos sites gringos. Também
não é difícil encontra-lo em sites, para download
(inclusive com legendas em português). Pelo menos você
não vai ter a sensação de estar dando dinheiro para as
pessoas erradas.
Do outro lado do espelho
Claro que o mundo também vive de imagens que fazem
você se sentir bem imediatamente. Atualmente eu não
perco o seriado "Gilmore Girls", exibido por aqui no
SBT e no Warner Channel.
O engraçado é que eu cheguei ao mundo da família
Gilmore via Inglaterra. Um exemplar da revista musical
"Mojo" citava um episódio da primeira temporada
porque... Bom, porque a "Mojo" era citada. Deu para
entender? A "Mojo" citava "Gilmore Girls" porque
"Gilmore Girls" havia citado a "Mojo". Fui correndo
conferir, meio no escuro.
De cara, pode parecer meio manjada - é a história de
uma mãe solteira que cria a filha em uma cidadezinha
do interior dos EUA, Stars Hollow. Lorelai, a mãe, é
jovem e hiper-ativa. Rory, a filha, é mais calma
(apesar de sempre manter a rapidez absurda dos
diálogos). As duas tem um nível de cultura pop
absurdo, que não se limita só à música pop (como a
revista gringa havia me feito presumir). Elas comentam
de tudo, desde política até o programa das "Two Fat
Ladies" (de receitas, que deve passar por aqui em
algum canal do tipo GNT). Sobra até para o Brasil. A
Rory tem um pôster do nosso país no quarto, e a melhor
amiga dela, Paris, até fala português!
Na fase atual, Rory está na faculdade. Os avós, um
casal engraçadíssimo, ganharam mais espaço (na
verdade, o último episódio que eu vi terminava com uma
bomba inimaginável na primeira temporada).
Esse tributo todo não é gratuito. "Gilmore Girls" é
uma daquelas séries que ninguém esquece, como "Anos
Incríveis" e "Minha Vida de Cão". A diferença é que
essas duas últimas eram só para adolescentes. Eu as
assisti quando era um, então elas me marcaram. Mas
"Gilmore" (ou "Tal Mãe, Tal Filha", como é chamada no
SBT) tem o elemento adulto, que traz toda uma nova
dimensão a esse tipo de série. Vale a pena
experimentar. Entretanto, me vejo na obrigação de
alertar: talvez você não goste do que vir na primeira
vez. Acontece que o seriado é daqueles que "crescem"
em você. Talvez na terceira vez você já esteja pra lá
de viciado.
Se isso for verdade, não se desespere. Acabou de ser
anunciado o lançamento dos DVDs da primeira temporada.
São seis discos que têm comentários, cenas não
incluídas na edição final e outras brincadeirinhas.
Como nada vem sem o lado ruim, não há previsão de
lançamento no Brasil. A "Amazon", no entanto, já
aceita pedidos antecipados. Ah, e ainda deve demorar
um tempinho - só sai no começo de maio. Até lá, não
fica em dívida com a família Gilmore. Você pode se
arrepender depois.
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