4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias
por RODRIGO LEVINO, especial para o Urbanaque - 14/02/2008
Há uma seqüência no filme Amores Perros, de Alejandro Iñarritu, onde um dos protagonistas no auge do desespero caminha sobre cacos de vidro. Como se a agonia fosse tamanha a ponto de não caber em palavras – ou urros – o diretor preferiu abster a platéia do som. Cristalizou uma agonia sem palavra alguma, deixando para o espectador a empatia sensorial da cena. Amores Perros não tem absolutamente nada a ver com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, mas o auge da agonia permeada pelo silêncio vale como analogia.

O filme que venceu em 2007 a Palma de Ouro no Festival de Cannes, na França, junta tantos cacos de vidros para que as protagonistas pisem ao longo do enredo, que leva tanto elas quanto a platéia ao mínimo de palavras possível. O silêncio posto como uma forma de expressar o que não cabe em palavras, aonde urros pouco ou nada adiantariam.

O drama de Otilia, vivida pela competente Anamaria Marinca, ao lado de Gabriela, na pele da comovente Laura Vasiliu é elevado a décima potência pela falta de trilha sonora e pela frieza de um diretor (Christian Mungiu) honesto que importou-se tão somente em contar uma história simples, dolorosa, sem arroubos e por isso mesmo tão palpável.

Fotos: Divulgação

A tragédia de um aborto ilegal e das conseqüências disso num país sufocado pela repressão política salta da tela para a falta de fôlego da fotografia de tons pálidos e a ansiedade de que tudo chegue ao fim da maneira menos dolorosa possível.

Fim onde, aliás, Otilia sugere o silêncio entre elas sobre tudo que aconteceu. É mais ou menos assim que o espectador sai do cinema. Com um nó no estômago, uns cacos de vidro debaixo dos pés e nenhuma palavra.