Todo carnaval tem seu fim
por BRUNO DIAS
O que se poderia esperar de uma série sobre o carnaval carioca, encomendada por um canal gringo com a intenção de exportar para o mercado norte-americano? Aposto que você já pensou em closes de bundas e muita putaria. Pensou errado. "Filhos do Carnaval", segunda produção brasileira da HBO, desta vez em parceria com a O2 Filmes de Fernando Meirelles, criada por Cao Hamburger que chega ao último episódio no próximo domingo, mostra que nada disso é preciso.

Para quem não tem acompanhado, a série conta a história de Anésio Gebara (Jece Javaladão), um banqueiro do jogo do bicho e dono de escola de samba, que no dia do seu aniversário de 75 anos sofre o maior golpe de sua vida e dá início a trama - o suicídio de seu primogênito e sucessor nos negócios, Anesinho (Felipe Camargo). Além de Anesinho, Gebara tem outros três filhos - Claudinho (Enrique Diaz), filho legítimo e o mais "bundão" dos três; Brown (Rodrigo dos Santos), filho bastardo, mestre de bateria da escola; e Nilo (o rapper Thogum, que estréia como ator) também bastardo, que trabalha como motorista do "velho". Detalhe, os três tem a mesma idade.
A princípio deu a impressão de que o roteiro iria rodar apenas em cima da sucessão pelo poder e da disputa pela vaga de Anesinho nos negócios da família Gebara, mas vai além. Os conflitos psicológicos de cada personagem acabam sendo o combustível da narrativa. Nilo, que narra o andamento da história, é fruto de um caso de Gebara com sua mãe, uma ex-porta bandeira da escola de samba da família, que teve uma morte nebulosa, após o casamento de Gebara. Ele é tratado como um verdadeiro empregado cumprindo funções que vão desde pegar putas para o velho (por sinal Rosana, a puta, acaba virando sua namorada) a resolver os problemas dos outros dois irmãos.

Brown é o mais revoltado com sua posição de filho não reconhecido. Considerado um verdadeiro irmão para Anesinho, é destratado pelo velho diversas vezes. Além disso goza do status de mestre de bateria, o que faz as mulheres da comunidade quererem sair com ele - duas ficam grávidas. Inclusive a filha de Anesinho, sua "sobrinha" Bárbara (Maria Manoela), mantém um caso "incestuoso" com ele.

Fotos: Divulgação
Claudinho, que a princípio aparentava ser o mais fraco, ao longo dos seis episódios começa a pegar gosto pela coisa. Ele veio de Campinas (SP) com sua mulher Ana Cristina (Mariana Lima) e filho Cris (Thiago Herz), após a morte de Anesinho para tomar conta dos negócios da família. Claudinho acaba tendo que carregar dois enormes pesos em suas costas - suceder Anesinho no comando da comunidade e lidar com a insatisfação de Ana Cristina.

O ambiente da série também é um ponto forte, principalmente por não exagerar no excesso de realidade da periferia e dos morros cariocas. A estética é muito parecida com de "Cidade de Deus", devido a Daniel Rezende, responsável pela direção de arte, fotografia, som e montagem. O bom trabalho de Rezende em "Cidade de Deus" rendeu uma indicação ao Oscar. Além disso, a série foi filmada em 16 mm. Foram gastos R$ 6,5 milhões na produção que contou com ajuda de incentivos fiscais.

A intenção de Cao Hamburger era fugir dos estereótipos e não fazer uma produção para "inglês ver", nesse caso norte-americanos. "Filhos do Carnaval" superou as expectativas e manteve o ótimo nível de "Madrake", primeira produção brasileira da HBO. Domingo às 22h vai ao ar na HBO o último capítulo da saga da família Gerbara - os "Sopranos brasileiros" ou a "família Corleone dos trópicos". Os clichês e comparações são inevitáveis, assim como a qualidade atualmente presente nas produções nacionais. Só nos resta torcer por uma segunda temporada ou quem sabe um longa-metragem.